Mesmo sendo comunista, Saramago teve aclamação internacional

Jeff Jacoby

  • Mario Cruz/EFE

    Corpo do escritor português José Saramago é velado em Lisboa

    Corpo do escritor português José Saramago é velado em Lisboa

Se José Saramago, autor português que morreu na sexta-feira (18/6) aos 87 anos, tivesse sido um nazista impenitente nas últimas quatro décadas, nunca teria tido aclamação internacional ou recebido o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. As maiores editoras nunca teriam publicado seus livros, suas obras não teriam sido traduzidas para mais de 20 idiomas e o chefe de Estado de Portugal nunca teria dito, em sua morte – como disse o primeiro-ministro José Sócrates na semana passada - que ele era "um das nossas grandes figuras culturais e seu desaparecimento deixou nossa cultura mais pobre".

Saramago, porém, não era nazista, era comunista. E não era apenas um comunista nominal, como seus obituários apontaram, mas um verdadeiro crente, "desavergonhado" (Washington Post), "resoluto" (Associated Press), "determinado (New York Times). Membro desde 1969 do radical Partido Comunista de Portugal, Saramago se dizia um "comunista hormonal" e alegava que desde sua afiliação não "encontrou nada melhor". Ainda assim, longe de isso fazer dele um pária, a fidelidade comunista de Saramago foi tratada como pouco mais do que uma idiossincrasia revoltada. Sem um pingo de ironia, o obituário da Associated Press citou um comentário feito por Saramago em 1998: "As pessoas costumavam dizer de mim: 'Ele é bom, mas é comunista'. Agora elas dizem: 'Ele é comunista, mas é bom.'"


A ideia que boas pessoas possam ser comunistas é grotesca. As duas categorias são mutuamente exclusivas. Houve uma época, contudo, quando a dedicação ao comunismo era absolvida como um idealismo enganado ou ingenuidade, mas isso já passou há tempos. Após Auschwitz e Babi Yar, somente um aleijado moral poderia ser nazista. Na mesma moeda, não há comunistas bons e decentes – não após o Arquipélago Gulag, os campos de morte cambojanos e o "Grande Avanço" de Mao. Não após os testemunhos de Alexander Solzhenitsyn e Armando Valladares e Dith Pran.

Desde 1917, o comunismo provocou mais matança e sofrimento do que qualquer outra causa na história da humanidade. Os regimes comunistas nos quatro continentes enviaram 100 milhões de homens, mulheres e crianças à morte – não por erros provocados pelo zelo na busca de uma teoria fundamentalmente bela, mas por um fanatismo utópico e uma insaciável sede de poder.

O assassinato em massa e o terror sempre foram intrínsecos ao comunismo. Stéphane Courtois, em sua introdução ao "Livro Negro do Comunismo", um compêndio magistral sobre os crimes comunistas, primeiramente publicado na França em 1997, escreve que "muitos arquivos e testemunhos provam conclusivamente que o terror sempre foi um dos ingredientes básicos do comunismo moderno". Apesar da singularidade do Holocausto, as selvagerias do comunismo e do nazismo são moralmente intercambiáveis – exceto que o primeiro começou mais cedo, durou mais e derramou muito mais sangue.

Hoje, tanto tempo depois, não há desculpas para olhar para o comunismo e seus defensores com menos repulsa do que vemos os neonazistas ou pregadores da supremacia branca. O comunismo de Saramago não deveria ter sido aceito, e sim menosprezado. Deveria ter sido uma grande mancha em sua reputação, como se tivesse passado os últimos 41 anos defendendo a repressão assassina e a crueldade. Pois isso, em suma, é o que significa ser um comunista "desavergonhado" e "hormonal".

Qualquer um que pense que os horrores do governo comunista é coisa do passado deve passar alguns minutos com, digamos, o relatório mais recente do Departamento de Estado sobre os direitos humanos na Coreia do Norte. (Um exemplo: "Métodos de tortura... incluem surras severas, choque elétrico, períodos prolongados de exposição aos elementos, humilhações como nudez em público, confinamento por várias semanas em pequenas 'celas de punição' nas quais os prisioneiros não conseguem ficar em pé ou deitados... e forçar as mães recentemente repatriadas da China a assistirem o infanticídio de seus recém nascidos.") O comunismo não é, como seus defensores alegam, uma doutrina atraente que foi pervertida por regimes monstruosos. É uma doutrina monstruosa que se esconde por trás de uma retórica atraente. É o crime em massa encarnado no governo. Nada criado pelos seres humanos gerou mais sofrimento e se provou mais brutal.

Saramago talvez tenha sido um bom escritor, mas não foi exemplo de bondade. Pessoas boas não adotam o comunismo, e os comunistas não são bons.

 

Tradutor: Deborah Weinberg

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