Refugiado sírio que fez selfie com Merkel sofre perseguição por causa da foto

Fabian Reinbold

  • Fabrizio Bensch/Reuters

    Em 2015, o imigrante fez a selfie com a chanceler alemã, Angela Merkel, do lado de fora do campo de refugiados próximo ao Escritório Federal de Imigração e Refugiados, em Berlim. Ele teria dito: "É como uma mãe para nós"

    Em 2015, o imigrante fez a selfie com a chanceler alemã, Angela Merkel, do lado de fora do campo de refugiados próximo ao Escritório Federal de Imigração e Refugiados, em Berlim. Ele teria dito: "É como uma mãe para nós"

A vida poderia ter sido diferente para Anas Modamani, se não fosse pela "selfie" que ele tirou. Então não precisaria se esconder no apartamento de um amigo na cidade de Bitterfeld, na Alemanha, depois de repentinamente cair sob a suspeita de ser um terrorista. Mas ele também não teria saído na capa da edição do ano da revista "Stern" ou aparecido no popular programa de entrevistas na TV "Maybrit Illner".

Mas ele fez a foto. Uma selfie com uma mulher que ele não reconheceu imediatamente, mas logo percebeu que era Angela Merkel, a chanceler alemã, na época uma líder que ainda defendia os refugiados.

Modamani, um sírio de 19 anos, tem sido perseguido por essa foto, que tirou durante seu primeiro mês na Alemanha como refugiado. Agora ele está indo à Justiça para obrigar o Facebook, a rede social mais poderosa do mundo, a parar de circular fotos manipuladas do evento. Ele afirma que sua selfie, assim como uma foto do momento tirada por um fotógrafo de uma agência de notícias, foi repetidamente violada com o objetivo de incitação e difamação, especialmente no Facebook.

"As pessoas têm de parar", disse Modamani.

Manchetes em todo o mundo

A notícia do processo legal ganhou manchetes em todo o mundo porque a história combina diversos fatores: uma foto que chamou a atenção global no momento em que foi tirada; Merkel e a crise dos refugiados; o Facebook e a questão do ódio online; e a impotência dos que são difamados na internet. Repórteres do Reino Unido, do Canadá e do Brasil estão atualmente tentando conseguir entrevistas com Modamani, o sírio na selfie com Merkel.

Encontrei Modamani no apartamento da família que o abriga, na zona leste de Berlim. Sentado à mesa da cozinha, ele passou 90 minutos contando sua história, em alemão. Ele tropeça um pouco, mas seu alemão é perfeitamente compreensível. De repente faz uma pausa, puxa seu iPhone e diz: "Vamos tirar uma selfie?"

Modamani gosta de tirar fotos e postá-las em sua página no Facebook, onde o jovem não se preocupa muito com a privacidade e tinha 2.789 amigos no momento de nossa entrevista. Muito menos normal é o fato de que sua selfie com Merkel foi sistematicamente usada para difamá-lo --às vezes como "terrorista" e outras como um "criminoso violento".

A não ser por essa circunstância, a integração de Modamani na Alemanha poderia ser descrita como um sucesso. Não passou um ano e meio desde que o formando no colegial deixou a cidade de Daraya (ao sul de Damasco, hoje quase toda em ruínas) rumo à Alemanha. Modamani está ficando com uma família cordial e ocupa suas manhãs com um curso de alemão e as tardes com um emprego como caixa no McDonald's. Quando passar no exame para os dois próximos níveis de alemão, poderá pedir para estudar em uma universidade na Alemanha.

Mas ele teme que a selfie que tirou com a chanceler possa arruinar esses planos. A selfie e a imagem do fotógrafo foram feitas em 10 de setembro de 2015, em um centro de acolhimento de refugiados dirigido pela Associação de Assistência ao Trabalhador (AWO na sigla em alemão) em Berlim, no bairro de Spandau. Um punhado de refugiados naquele dia conseguiu tirar fotos com Merkel.

As imagens rapidamente percorreram o mundo, ilustrando a boa recepção da Alemanha aos refugiados na época. Mas aquele tempo passou há muito. A imagem de Modamani continua circulando na internet hoje, em contextos totalmente diferentes. Ela se tornou um símbolo mal utilizado por adversários da política para refugiados de Merkel --um símbolo de oposição à chanceler. Modamani pode ser apenas o meio, e não o fim, mas também tem de sofrer as consequências.

A deturpação de sua imagem começou depois dos ataques terroristas em Bruxelas em março. O Anonymous.Kollektiv, uma página no Facebook notória por sua agitação, que desde então foi deletada, postou um link para uma fotomontagem que incluía a selfie e uma foto de um dos terroristas de Bruxelas, Najim Laachraoui. A legenda dizia: "Angela idiota: Merkel tirou uma selfie com um dos terroristas de Bruxelas?"

No feriado de Páscoa, o post se tornou viral. Então, no início de junho, a imagem foi usada em uma postagem com o título "A rainha das selfies importadora de violência" --uma referência a Merkel, é claro.

Difamação em velocidade digital

O caso de Anas Modamani é indicativo da velocidade e do ímpeto com que a difamação pode ser disseminada na internet. Ele mostra como pode ser reutilizada em novos contextos sem a capacidade de responsabilizar alguém. E demonstra como os afetados por tais ataques podem se sentir impotentes.

O conceito de "notícia falsa", que é foco de intensa discussão nas últimas semanas, pode ser tão abstrato que é difícil captar ou identificar. O caso de Modamani mostra o que pode acontecer quando mentiras sobre um indivíduo são divulgadas constantemente na web de maneiras que não eram possíveis alguns anos atrás.

Mais recentemente, a selfie começou a circular novamente. Em dezembro, alguém usou o software Photoshop para sobrepor a imagem a uma foto do caminhão usado no ataque terrorista em Berlim, com a legenda: "Merkel morreu". Uma semana depois, a imagem de Modamani começou a circular de novo, desta vez distorcida. O rosto de Modamani estava mais magro, na tentativa de fazê-lo parecer um dos cinco sírios presos em Berlim, suspeitos de terem incendiado um homem sem teto e seus pertences no Natal.

"Eles são contra Angela Merkel, não contra mim", disse Modamani. "Mas eu quero que isso pare de uma vez."

Um problema que não desaparece

A certa altura, ele espera que consiga voar de volta à Síria ou ao Líbano para ver seus pais e irmãos, que ficaram, e teme que as autoridades dos aeroportos encontrem sua imagem na internet junto com a palavra "terrorista". Ele teme conhecer uma mulher e que ela pesquise seu nome no Google. Ele teme que a difamação o persiga durante anos.

Modamani disse que as pessoas às vezes lhe escrevem no Facebook e perguntam quando ele pretende voltar à Síria. Ele diz que nem sempre encontra as palavras certas em alemão para responder. Até parou de usar o Facebook durante algumas semanas, mas agora voltou por causa da última fotomontagem. Quer saber o que estão escrevendo sobre ele.

Sua "mãe" anfitriã, Anke Meeuw, vê muito mais que ele. Ela clica os perfis das pessoas que estão fazendo as postagens difamatórias e está conectada a grupos ativos no combate à agitação de ódio nas redes sociais. Ela disse que hoje ignora a maioria das postagens que "não aparecem no radar" --em outras palavras, coisas que não são virais.

Uma pequena vitória

Às vezes ela escreve para pessoas que compartilham as postagens. E com frequência a coisa fica feia. Depois dos ataques cometidos por refugiados nas cidades de Ansbach e Würzburg, o capítulo na Baviera do partido de extrema-direita e populista Alternativa para a Alemanha (AfD na sigla em alemão) postou sua própria fotomontagem. Ela incluía imagens dos ataques em Würzburg, Reutlingen e Ansbach. Embaixo havia a imagem de Merkel e Modamani, embora seu rosto estivesse ligeiramente desfocado com pixels. O texto dizia: "Terror migrante na Alemanha: sem Merkel, os perpetradores não estariam aqui". E incluía o hashtag #Merkelsummer.

Em resposta, Meeuw escreveu uma carta ao diretor da filial bávara do partido, descrevendo o que essas associações representavam para ela, sua família e seu "filho" adotivo. O político deletou a imagem, mas também a bloqueou em sua página, segundo ela. Uma pequena vitória.

Meeuw, 41, disse que ela tem um motivo ainda maior para revidar. Quer impedir que "a agitação populista de direita se torne socialmente aceitável". Ela disse a seu filho adotivo: "Temos de agir contra isso, ou nunca irá parar".

Um conhecido a pôs em contato com Chan-jo Jun, um advogado de Würzburg que tentou várias vezes responsabilizar o Facebook por disseminar discurso de ódio em sua plataforma. Até agora ele fez um esforço considerável e atraiu muita atenção, mas não teve sucesso legalmente.

Jun agora busca uma liminar que proíba que pessoas como os políticos da AfD compartilhem o post sobre o homem sem teto, mas também obrigando o Facebook a garantir que a imagem não possa ser compartilhada e seja automaticamente bloqueada. Ele baseia sua argumentação legal no Parágrafo 186 do código penal alemão sobre "difamação", que proíbe a afirmação ou disseminação de um fato sobre uma pessoa que possa difamá-la ou afetar negativamente a opinião pública sobre ela, a menos que possa ser comprovado.

Deve ser tarefa do Facebook filtrar conteúdo difamatório antes que seja publicado? O padrão atual é que plataformas de redes sociais como o Facebook só têm de retirar conteúdo problemático depois de serem informadas a respeito. Na prática, porém, isso não acontece com frequência.

Jun disse que o problema é que os padrões de comunidade do Facebook, suas diretrizes internas sobre o que deve ser deletado, são muito mais frouxos que a lei alemã. E é por isso que continuam surgindo problemas para pessoas como Modamani.

"Muito a sério"

O Facebook, por sua vez, afirma que respeita a lei alemã. A empresa já deletou todas as postagens listadas na liminar.

Convidado a dar uma resposta, um porta-voz da companhia enviou a seguinte declaração: "Quando somos informados de conteúdo que está em clara violação da lei alemã, respeitamos isso e deletamos o conteúdo, adequadamente". Mas "uma grande parte" do conteúdo que é relatado "não viola a lei alemã". A companhia também declarou que leva muito a sério sua responsabilidade.

Para testar a seriedade com que o Facebook encara esses relatos diariamente, denunciei uma imagem que retrata Modamani como um criminoso. Depois de nosso encontro, usei a função de relatar para fazer uma queixa sobre uma foto que sugere que Modamani esteve envolvido no ataque ao sem teto.

A imagem tinha sido postada por uma certa "Dorothee K." (Embora as identidades no Facebook nunca possam ser verificadas) às 4h06 de 28 de dezembro. A usuária tem mais de 1.800 amigos e a maioria dos posts em seu perfil são sobre o islã, juntamente com muitos links para páginas cheias de teorias de conspiração. Somente desta página, a imagem de Modamani foi compartilhada 67 vezes.

Opções limitadas

As opções de denúncia no Facebook ainda não são adequadas para casos como esse. A rede anunciou que em breve acrescentará "É uma notícia falsa" ao menu de motivos pelos quais uma reportagem é denunciada na Alemanha. Essas reportagens serão então revistas por verificadores de fatos comunitários. Mas ainda levará várias semanas para que o sistema entre em operação.

De todas as más opções disponíveis, cliquei para encontrar a mais apropriada. "Acho que isso não deve estar no Facebook", "É perturbador ou desinteressante" -> enviar ao Facebook para revisão.

Enviei a mensagem às 9h46. Às 16h57 do mesmo dia, recebi uma mensagem em meu celular. Foi rápido.

Uma "mensagem da equipe de ajuda" me informava que o Facebook tinha revisado a foto em questão e acrescentava: "Embora isso não viole nossos padrões comunitários, foi certo nos informar". Segundo a mensagem, difamar um jovem de 19 anos como criminoso não é uma violação dos padrões comunitários do Facebook.

A equipe de ajuda também ofereceu uma sugestão, comentando como eu poderia bloquear Dorothee K. Mas bloquear significa que nenhum de nós poderia ver o perfil do outro ou contatar o outro novamente no Facebook.

Faz parecer que seja algo pessoal, como se o erro fosse da pessoa que delatou o conteúdo. O fato é que a responsabilidade é da pessoa que criou e disseminou a difamação. No caso de Anas Modamani, é provável que ele continue enfrentando as consequências dessas imagens durante muitos anos.

"Eu adoro o Facebook --encontrei um apartamento por meio da rede", disse ele durante nosso encontro. "Mas também odeio o Facebook porque essa coisa de Photoshop simplesmente não para."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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