Topo

Investigador alega que piloto de voo da Malaysia Airlines derrubou avião de propósito

Clarel Faniry Rasoanaivo/Reuters
Parentes das vítimas já recolheram muitos destroços que podem ser do voo MH370 Imagem: Clarel Faniry Rasoanaivo/Reuters
Exclusivo para assinantes UOL

Marco Evers

01/06/2018 00h01

O investigador de acidentes canadense Larry Vance afirma ter resolvido o mistério do desaparecimento do voo MH370 da Malaysia Airlines. Nesta entrevista, ele explica por que acredita que o capitão da aeronave a derrubou deliberadamente.


O mistério que cerca o desaparecimento do voo MH370 da Malaysia Airlines e das 239 pessoas que ele levava parece ter sido solucionado, pelo menos de acordo com o autor de um novo livro. O jato decolou de Kuala Lumpur em 8 de março de 2014, mas não chegou a seu destino, Pequim. O Boeing 777 voou durante mais de sete horas, primeiro no rumo oeste e depois sul. A localização da aeronave hoje é basicamente conhecida: segundo dados de satélites e análise dos pedaços da fuselagem que foram encontrados até agora, pesquisadores puderam mostrar que o avião atingiu a água em algum lugar no sul do oceano Índico.

Mas como ele chegou lá? Foi mais um caso de assassinato-suicídio, afirma o investigador de acidentes canadense Larry Vance, 69, em seu novo livro, "MH370: Mystery Solved" [MH370: Mistério solucionado]. O livro afirma que um dos pilotos, provavelmente o capitão do voo, Zaharie Ahmad Shah, teria matado seu colega na cabine e conduzido o avião pela noite para uma região remota não coberta por radares, que o teriam localizado. Lá, à luz do dia, ele intencionalmente baixou a aeronave até o mar, para que desaparecesse para sempre, o menos danificada possível.

Os investigadores oficiais da Austrália discordam de Vance. Eles mantêm sua convicção de que o MH370 de algum modo ficou sem piloto, talvez depois de um incêndio ou uma despressurização catastrófica. Segundo sua versão dos acontecimentos, o aparelho voou com piloto automático em suas horas finais, sem qualquer interferência humana. Quando o combustível acabou, ele mergulhou e se chocou em alta velocidade com o oceano.

Com base nesse cenário, os investigadores definiram uma área de buscas onde supunham que fosse mais provável encontrar o MH370. A busca oficial levou três anos, custou mais de US$ 100 milhões e terminou sem um vestígio da localização exata do avião. Uma segunda busca particular deverá ser suspensa em breve. Quem está certo, Vance ou seus colegas australianos? "Der Spiegel" entrevistou Vance por ocasião da publicação de seu novo livro sobre o caso.

Der Spiegel: Senhor Vance, quantos pedaços de destroços do MH370 foram encontrados?

Larry Vance: A investigação oficial da Austrália identificou 20 pedaços como pertencentes ao MH370, a maioria pertencente às asas, à fuselagem e à cauda. Importante: há um flap e um flaperon da asa direita. Há um punhado de pedaços originários do interior da aeronave, por exemplo, partes do revestimento interno. E há talvez dez pedaços que podem ou não vir do MH370.

Der Spiegel: Quantos desses restos dão apoio à sua teoria de um mergulho controlado pelo piloto?

Vance: Todos eles. É por isso que nossa tese é tão forte. Alguns contêm muitas marcas de testemunho muito claras. As do flap, por exemplo, provam que os flaps estavam plenamente estendidos no momento em que o avião atingiu a água, em velocidade relativamente baixa. Esse é um detalhe importante, porque só um piloto na cabine pode baixar os flaps manualmente. Outros pedaços não oferecem qualquer evidência direta do que aconteceu, mas a existência de cada um deles pode ser explicada por nossa teoria.

Der Spiegel: Alguns pedaços são extremamente pequenos. Não são prova de um choque na água em alta velocidade?

Vance: É aí que a investigação oficial errou. Quando eles viram os pedaços pequenos, supuseram que haveria milhares semelhantes flutuando no mar. E isso teria sido de fato uma prova de sua visão. Mas mais de quatro anos depois do desaparecimento do MH370 sabemos que só alguns pedaços pequenos chegaram às praias africanas, e não milhares. Se tivessem sido criados, já teriam aparecido. Eles não foram criados porque não houve choque. Foi uma queda longitudinal.

Der Spiegel: Não apareceu nenhuma almofada de assento ou colete salva-vida. O que isso lhe diz?

Vance: Isso significa que eles continuam dentro do avião. Que a fuselagem do aparelho está basicamente intacta e pousada no fundo do oceano. Os poucos pedaços que escaparam do interior da aeronave o fizeram porque a fuselagem foi perfurada, provavelmente na extremidade maior da asa direita. Isso aconteceu depois que intensas forças de compressão agiram sobre a asa quando ela entrou na água.

Der Spiegel: Em seu livro, o senhor dá 13 peças de evidência que, segundo diz, provam de modo individual e coletivo que os flaps estavam estendidos nos últimos momentos do voo. Isso vai encerrar a discussão?

Vance: Espero que sim. Se alguém quiser contestar nossa conclusão, temos mais a oferecer. Há mais evidências naqueles pedaços que eu não menciono no livro porque ele se destina ao cidadão comum e o que ele pode compreender. Com todas as pequenas marcas de testemunho adicionais que temos, podemos facilmente defender nossa visão da história mesmo diante dos públicos mais críticos e profissionais.

Der Spiegel: O senhor não tem sequer acesso aos destroços reais, mas afirma ter uma imagem melhor do que aconteceu do que os investigadores australianos. Isso não torna sua análise um pouco suspeita?

Vance: Muitas investigações de acidentes são feitas usando fotografias de alta resolução, mesmo quando os destroços estão disponíveis. Faço isto há 30 anos e meus sócios, Elaine Summers e Terry Heaslip, há mais tempo ainda. Temos todas as evidências de que precisamos. E temos toda a experiência necessária para interpretar a evidência adequadamente. Essa expertise claramente falta aos investigadores oficiais. Mas eu faço a previsão de que eles mudarão de ideia quando virem as evidências em meu livro.

Der Spiegel: Como o senhor escreve, costumava advertir as pessoas para não aceitarem conclusões que vêm de fora de uma investigação. Agora o senhor é uma das pessoas que oferecem opiniões de longe. Não é irônico?

Vance: É. Eu nunca estive nessa posição, mas nunca houve algo parecido com o MH370. Ensinamos investigação de acidentes em cursos no mundo todo. Muitas vezes usamos fotos do MH370 como exemplo. Achei estranho que os resultados que conseguimos não estivessem aparecendo nas atualizações oficiais do caso. Na verdade, essas atualizações que estavam aparecendo eram até contrárias à nossa análise. Foi quando decidi escrever este livro. Levei 18 meses e não foi fácil.

Der Spiegel: Por que os investigadores australianos não conseguiram ver o que o senhor diz que é óbvio?

Vance: Isso é ainda mais surpreendente. Dezenas de especialistas dos EUA, do Reino Unido, da Austrália, Malásia, China, da Boeing e da Rolls Royce participaram da investigação do MH370. Alguns deles são os melhores e mais inteligentes do mundo, e parte de seu trabalho foi intelectualmente incrível. Por que três investigadores do Canadá podem ver evidências que um grupo tão elitista simplesmente desprezou?

Der Spiegel: Por quê?

Vance: Talvez tenham se perdido algumas técnicas básicas na análise de destroços. Hoje em dia, os investigadores de acidentes tendem a se concentrar em dados de voo e gravadores de voz da cabine para reconstruir um incidente. É uma abordagem high-tech. A capacidade de ler um pedaço de destroço não é mais ensinada, em geral. Isso me preocupa. É claro que essa deficiência deve ser abordada, ou as futuras investigações terão enorme tendência a erros.

Der Spiegel: Qual foi o maior erro de parte dos australianos?

Vance: Alguns deles tinham uma opinião formada no início da investigação de que o avião estava sem piloto, entrou numa queda em alta velocidade e assim atingiu a água. Eles provavelmente não estavam mentalmente preparados para mudar de ideia quando os destroços apareceram e foi feita sua análise. Eles estavam tendenciosos e cegos por isso.

Der Spiegel: Essa foi a investigação mais difícil que o senhor já fez?

Vance: Não, não foi sequer difícil. Se isso realmente fosse uma falha técnica, teria sido muito difícil de resolver. Mas quando você aceita o fato de que foi um ato criminoso torna-se muito simples. É fácil para um piloto que já tem o controle do avião fazer o que ele ou ela decidir com ele. Nada pode impedir um piloto de fazer o que esse piloto fez. Há uma complicação, é claro, para eliminar o outro piloto. Fora isso, tudo o que aconteceu com o MH370 é perfeitamente explicável e toda a evidência o apoia. Algumas outras coisas, é claro, não são explicáveis. Nunca saberemos totalmente quando e como as pessoas a bordo morreram.

Der Spiegel: Temos Andreas Lubitz, um copiloto da Germanwings, que derrubou seu Airbus com 150 pessoas a bordo nos Alpes em 2015. Temos o MH370 em 2014, e em 2013 um capitão suicida da LAM Mozambique Airlines derrubou seu Embraer 190 intencionalmente na Namíbia, matando os 33 passageiros. Os pilotos suicidas estão dando origem a um novo tipo de medo de voar?

Vance: Acho que não. O viajante comum pode ter certeza de que os pilotos simplesmente querem que o avião chegue em segurança. Mas o fenômeno do piloto suicida é certamente algo que deve ser estudado, especialmente do ponto de vista da prevenção. Esse foi um dos motivos que me levaram a escrever este livro.

Der Spiegel: O MH370 será encontrado um dia?

Vance: Talvez no futuro distante. Vasculhar o vasto oceano com a tecnologia de hoje não é eficaz.