Por que o medo de um sírio-espanhol deu asas ao padrinho do Estado Islâmico

Óscar Gutiérrez Garrido

  • AP Photo/via IntelCenter

    Abu Musab al Zarqaui, ex-dirigente da Al Qaeda no Iraque, morto em 2006

    Abu Musab al Zarqaui, ex-dirigente da Al Qaeda no Iraque, morto em 2006

Se uma coisa está clara para os especialistas do fenômeno jihadista é que, primeiro, o jordaniano Abu Musab al Zarqaui é sem dúvida o padrinho e mentor do que hoje se conhece como Estado Islâmico (EI) e, em segundo lugar, que esse indivíduo violento e difícil de controlar, que foi abatido por um avião dos EUA em 2006 no Iraque, nunca foi santo da devoção da cúpula da Al Qaeda, então nas mãos do saudita Osama bin Laden. Por que o deixaram implementar seus campos de treinamento no final dos anos 1990 no Afeganistão? O pesquisador Brian Fishman, do Centro de Combate ao Terrorismo (CCT) da academia militar de West Point (EUA), reuniu vários documentos assinados por membros destacados da rede terrorista para construir um relato da chegada de Al Zarqaui ao território taleban. Entre as conclusões, Fishman afirma que a Al Qaeda deixou o jordaniano crescer para contrabalançar a influência de outro líder jihadista, o sírio Abu Musab al Suri.

Autor do livro "O plano mestre: o EI, a Al Qaeda e a estratégia jihadista para a vitória final" [tradução livre], que será lançado em novembro, Fishman publicou na última terça-feira (25) um adiantamento no site do CCT no qual, porém, usa o nome pelo qual Al Suri também é conhecido: Mustafá Setmarian. Nascido em Aleppo há exatamente 58 anos, Setmarian, ou Abu Musab al Suri, tem nacionalidade síria e espanhola. Ele deixou seu país natal depois da repressão do regime de Hafez al Assad às revoltas de 1982. Da Síria passou ao Afeganistão ainda controlado pelos soviéticos e daí à Espanha, em 1985. Dois anos depois, casou-se com uma madrilenha em Moratalaz.

O pesquisador do CCT tenta esclarecer a relação que mantiveram em primeira instância Al Zarqaui e a Al Qaeda. A rede liderada por Bin Laden permitiu que o jihadista jordaniano se assentasse no Afeganistão (Herat) por volta de 1999, com cerca de 33 anos, e implementasse seu campo de treinamento para recrutas chegados do Levante, sem sequer ter jurado lealdade ao grupo.

Mais tarde, Al Zarqaui se transformaria em uma das referências ideológicas e dirigentes destacados do jihadismo no Oriente Médio; já no Iraque, jurou lealdade em 2004 à Al Qaeda e depositou as bases do selvagem ramo iraquiano do grupo, que anos depois assumiria o Estado Islâmico no Iraque e no Levante, hoje conhecido como EI e desligado totalmente do grupo que foi liderado por Bin Laden.

A escassa literatura publicada até o momento coincidia em indicar que a Al Qaeda aceitou o jordaniano Al Zarqaui, extremista demais mesmo para eles, porque poderia ser um poderoso imame para os recrutas da região do EI. Foi o que deu a entender o chefe da segurança do grupo terrorista, o egípcio Saif al Adl, ao jornalista jordaniano Fuad Husayn. Mas a pesquisa de Fishman revela que o acordo foi mais complexo e que a influência do sírio-espanhol Al Suri foi muito significativa.

Al Suri era um intelectual reconhecido entre os jihadistas e veterano combatente das guerras afegãs. Tal era sua atração que, segundo Fishman, chegou a recrutar com grande êxito, contrariando algumas diretrizes da Al Qaeda. Por sua origem síria, Al Suri pescava entre os jovens chegados dos países do Oriente Médio. Assim que Al Adl, um dos homens fortes de Bin Laden e pouco amigo do sírio-espanhol, decidiu frear sua trajetória, deixando o caminho livre a Al Zarqaui em Herat. "Os jihadistas do Levante", indica Fishman, "não se uniriam à Al Qaeda quando o fizeram a Al Zarqaui [que não havia jurado lealdade], mas ao menos tampouco o fariam a Abu Musab al Suri". Um e outro, o jordaniano e o sírio-espanhol, passaram a fazer parte do Comitê Árabe de Ligação entre o grupo terrorista e os talebans, como revela um dos documentos de Fishman.

O resto da história é bem sabido: a Al Qaeda foi derrotada no Afeganistão e iniciou a diáspora. Al Suri, reconhecido ainda hoje entre os jihadistas como ideólogo da tática de guerra urbana, foi detido no Paquistão em 2005 por agentes americanos. Desde então pouco mais se sabe, exceto que pode ter sido entregue às autoridades sírias. Al Zarqaui liderou no Iraque o ramo local da Al Qaeda, com críticas da cúpula por sua extrema e desenfreada violência, traduzida em uma forte campanha de atentados terroristas na qual não distinguia entre muçulmanos e não muçulmanos. Segundo reconhece William McCants em "O apocalipse do EI" [tradução livre], até o egípcio Ayman al Zawahiri, número dois de Bin Laden e atual líder da Al Qaeda central, chegou a se perguntar: "Por que matar xiitas comuns, levando em conta que é preciso perdoá-los por causa de sua ignorância?" Al Zawahiri se preocupava com o conflito sectário que demorou pouco para brotar no Iraque.

O jordaniano Al Zarqaui, morto por um ataque aéreo americano em 2006, é ainda hoje uma das referências fundamentais dos membros e simpatizantes do EI, grupo desvinculado, combatido e criticado inclusive pela cúpula da Al Qaeda, que, como resume Fishman em sua pesquisa, afinal teve de "enfrentar o demônio que ajudou a criar no Afeganistão".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos