Matt Ridley, o otimista racional, responde suas perguntas

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

  • Getty Images

    Usando internet

    Usando internet

Recentemente nós solicitamos perguntas em Freakonomics.com para Matt Ridley, um ex-correspondente de ciência da revista inglesa “The Economist”. Seu novo livro, “The Rational Optimist: How Prosperity Evolves” (o otimista racional: como a prosperidade evolui), argumenta que a espécie humana conseguiu prosperar graças às simples troca de ideias e bens. “Por meio da troca, os seres humanos descobriram ‘a divisão de trabalho’, a especialização dos esforços e talentos para ganho mútuo”, escreve Ridley. Após a especialização veio a contínua inovação e a crescente prosperidade, que tornou a vida da pessoa comum muito melhor do que no passado. Diante das preocupações atuais com a economia global e a mudança climática, Ridley acredita que os seres humanos ainda assim prosseguirão neste caminho de aprimoramento. Muito obrigado a todos os envolvidos. As perguntas e respostas foram editadas e condensadas.

P: Se a especialização, em vez da mudança genética, é responsável pelo sucesso humano, por que os Neandertais não assimilaram esse tipo de inovação cultural durante os milhares de anos em que viveram próximos dos humanos? Eles poderiam ao menos ter tido quase tanto sucesso quanto nós.


Além disso, a história possui muitos exemplos de declínios de civilizações. Por que há motivo para acreditar que não acontecerá de novo?

R: Boa pergunta e, é claro, eu não sei ao certo qual é a resposta, já que as evidências são muito escassas. Mas há dois pensamentos. Primeiro, as pessoas que viviam exclusivamente na África até 70 mil anos atrás provavelmente tinham o hábito de trabalharem umas com as outras, e especialização, em virtude de nossa divisão sexual do trabalho. Falando de modo mais amplo, os homens caçavam e as mulheres coletavam. Os arqueólogos Mary C. Kuhn e Steven L. Stiner argumentam que não há evidência de que os Neandertais faziam isso: eles obviamente caçavam de modo cooperativo, mas aparentemente eles não se especializaram em caçadores e coletores de acordo com gênero. Assim, o hábito posterior de especialização entre tribos – ou comércio, como chamamos atualmente – teria sido mais fácil de ser inventado por nós do que por eles.

Segundo, avanços posteriores, como a agricultura e a escrita, não aconteceram para todos, apenas para algumas pessoas. Então é igualmente válido perguntar por que os aborígenes australianos não inventaram a agricultura, ou por que os pastores de renas siberianos não inventaram a escrita. Esses avanços não exigiram mudanças genéticas e nenhuma nova característica humana especial –apenas invenção cultural fortuita. Eu acho que a invenção da troca e da especialização pode ter sido simplesmente um produto de circunstâncias locais e oportunidade, e assim que aconteceram, os Neandertais foram ultrapassados.

Um pensamento final: a invenção da especialização entre as tribos ou bandos exigiu que os seres humanos superassem um enorme obstáculo – a hostilidade em relação a estranhos. Os chimpanzés machos reagem apenas de uma forma em relação a machos de outros grupos, e é de forma homicida. Se os Neandertais tinham isso, então por mais que possamos ter mostrado as possibilidades da troca do outro lado de algum vale, teria sido altamente problemático para eles começarem repentinamente a nos copiarem.

P: Eu gostaria de desfrutar da minha própria prosperidade por mais que algumas poucas décadas. Quando será o próximo grande avanço no prolongamento da vida humana e em que campo acontecerá – genética, robótica, computação ou qualquer outro campo relacionado?

R: Eu não sei! Após examinar o retrospecto dos escritores que tentaram projetar o futuro, eu aprendi a ser humilde. A visão de H.G. Wells lembra o Reino Unido edwardiano com máquinas, enquanto as previsões de Aldous Huxley soa como o Novo México dos anos 20 com drogas. Por outro lado, Arthur C. Clarke e Isaac Asimov exemplificam os geeks dos anos 50 com obsessões em relação ao espaço. Mas se você apontasse uma arma para minha cabeça, eu diria isso: hoje, nós estamos obcecados com a velocidade vertiginosa da mudança nas tecnologias de comunicações. Apesar de ainda haver muita coisa pela frente, a inovação nesse campo em algum momento desacelerará e outra coisa tomará seu lugar como a tecnologia que muda mais rapidamente. Meu palpite é que será em um ponto de encontro entre a biotecnologia e a medicina –medicamentos antienvelhecimento, por exemplo. Mas poderia ser na robótica, espaço ou algo inimaginável.

P: Por favor, explique por que a ecologia do planeta será melhor daqui 100 anos. Seja específico.

R: Se continuarmos a disseminar novas variedades e práticas agrícolas – além das práticas nascentes de tornar mais produtos resistentes a insetos, com organismos geneticamente modificados, uma irrigação que desperdiça menos água ao usar técnicas de gotejamento e fertilização mais barata com plantações eficientes no uso de nitrogênio – então, em 2050, nós poderemos facilmente dobrar a produtividade por hectare das plantações, o que temos conseguido fazer desde 1960. Isso significa que em 2050, nós conseguiremos alimentar mais pessoas – 9,3 bilhões em vez de 6,7 bilhões– usando uma área muito menor do que usamos hoje. Nós basicamente pegaremos grandes pedaços de terra e os devolveremos às florestas tropicais, áreas alagadiças, prados e semidesertos. Nós podemos expandir e conectar parques nacionais às reservas naturais, restabelecer habitats e reintegrar ecossistemas. Lembre-se: nós tivemos que lidar com uma população mundial que quadruplicou no século 20; neste século, a população crescerá apenas 1,5 vez. Se fizermos as coisas direito, este será um século de imensa restauração ecológica.

P: Eu estou interessado em saber a respeito de casos negativos. Por exemplo, sob qual cenário a “inovação contínua” não acontece? E quanto aos longos períodos da experiência humana em que a inovação não ocorreu? “Inovação contínua” parece ótima porque estamos no meio de um período de 500 anos. Mas provavelmente ocorreu um bom período de 25 mil anos onde pouca ou nenhuma inovação ocorreu, sem contar a abundância de países onde as populações que vivem de subsistência permaneceram estagnadas em relação à tecnologia, hábitos culturais e assim por diante por centenas de gerações.

R: Você está certo. Nós estamos acostumados à rápida inovação e há uma nova forma de fazer as coisas aparentemente a cada segundo. Meus amigos e eu frequentemente acabamos informando uns aos outros sobre sites, produtos e serviços. Mas há 500 anos não era assim. Se você morasse em uma aldeia rural, você poderia viver sua vida inteira sem encontrar um novo produto. Mil anos antes disso, provavelmente passariam cinco gerações sem experimentar inovação: mesmo arado, mesma raça de boi e mesmos serviços religiosos aos domingos. E se o comércio de fato teve início há 120 mil anos, culminando em uma explosão de inovação há 45 mil anos, essa seria uma lacuna imensa. Apesar de ter sido rápido como um relâmpago em comparação ao que aconteceu ao Homo erectus, não pareceria rápido para as pessoas que viveram naquele período! Eu acho que o que acontece nesses grandes hiatos são surtos de inovação – por volta de 70 mil anos atrás no sul da África, por exemplo– e então longos períodos de retrocesso tecnológico, semelhantes ao que aconteceu na Tasmânia há 10 mil anos, quando a população encolhe ou se torna desconectada. No final, essa história nos recorda quão sem precedente e desorientadora a inovação moderna pode ser, o que talvez explique por que tantas pessoas fiquem tão nervosas com ela.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt

Stephen J. Dubner e Steven D. Levitt são os autores de 'Freakonomics' e 'Superfreakonomics'. O livro mais recente deles é 'When to Rob a Bank... and 131 More Warped Suggestions and Well-Intended Rants'.

UOL Cursos Online

Todos os cursos