Como retomar a confiança em pessoas e comunidades quando o outro pensa tão diferente?

  • Carlo Allegri/Shannon Stapleton/Reuters

Os EUA são um país profundamente dividido --de acordo com linhas políticas, raciais e de classe. Esta é sem dúvida uma das maiores lições da improvável vitória de Donald Trump na eleição presidencial americana. E possivelmente uma das maiores causas dessa divisão seja uma simples falta de confiança --em outras pessoas, nas instituições, em nossos líderes. Essa desconfiança ficou clara durante uma campanha que se distinguiu pelo rancor e a violência: os americanos não confiavam nos candidatos (Trump e Hillary Clinton) ou em seus partidos; não confiavam nas pesquisas ou na mídia.

Portanto, sim, as democracias são duramente testadas quando reina a desconfiança.

Mas há outro motivo importante pelo qual deveríamos confiar mais nos outros: é bom para a economia. David Halpern --chefe da Equipe de Percepções Comportamentais do governo britânico, que aplica as descobertas da ciência comportamental para ajudar a aumentar os pagamentos de impostos e diminuir os erros médicos, entre outras coisas-- afirma que a chamada "confiança social" é um melhor fator de previsão do índice de crescimento futuro de um país do que o nível geral de capacitação da população.

Os benefícios econômicos da confiança social --por exemplo, o fato de que as pessoas com maiores redes sociais tendem a ganhar mais-- significam que também existe uma coisa chamada "capital social", como o capital físico ou financeiro. E o capital social está associado a todo tipo de coisas boas, não apenas economias sólidas. O professor de Harvard Robert Putnam descobriu o conceito décadas atrás, quando pôde mostrar que um importante fator de previsão de se uma região da Itália tinha um governo local eficiente (contra um corrupto) era se ela possuía uma robusta rede cívica baseada na confiança.

O capital social, em outras palavras, produz sociedades mais saudáveis. De fato, segundo Putnam, as comunidades com altos níveis de capital social têm menores taxas de criminalidade e suas crianças se saem melhor na escola.

Tudo isso são más notícias para os EUA. O livro notável de Putnam de 2000, "Bowling Alone" [Jogando boliche sozinho], afirma que o nível de capital social de um país, medido pela participação em grupos sociais como organizações de pais e mestres e times de boliche, vem diminuindo constantemente desde os anos 1960, levando a comunidades mais isoladas. Isso atingiu o ápice, podemos afirmar, no tribalismo e profundo cinismo da eleição de 2016.

Putnam observou repetidamente que o aumento da diversidade nas sociedades tende a enfraquecer as conexões entre as pessoas de diferentes raças, classes e religiões --conexões cruciais para a construção do capital social. Mas, é claro, não podemos simplesmente eliminar a diversidade; é a espinha dorsal de países vibrantes como os EUA e o Reino Unido. Então a pergunta essencial, segundo Halpern, é: "Podemos ficar com o bolo e [também] comê-lo?"

Como populações diversificadas e criativas --os americanos-- podem se unir e prosperar?

Nas opiniões de Halpern e de Putnam, as pessoas têm de abraçar ambientes em que elas interajam com pessoas de origens diferentes, e ao fazê-lo aprendem a confiar nelas. Isso pode envolver algo tão simples quanto entrar num time esportivo. Ou algo um pouco mais duradouro, como ir para a faculdade. "As pessoas que vão à universidade acabam confiando [em outras] muito mais do que as que não vão, especialmente quando elas mudam de cidade", diz Halpern. E quando você interioriza esses hábitos de confiança "você os leva consigo para o resto da vida".

É claro, nem todo mundo pode pagar por uma universidade. E é por isso que Halpern também indica dados no Reino Unido que mostram um aumento da confiança social, assim como "níveis mais altos de satisfação com a vida e bem-estar" entre indivíduos que participam de serviço comunitário ou programas de voluntariado em que se envolvem com diferentes tipos de pessoas.

Aprender a confiar nas pessoas diferentes de nós --e forjar os laços profundos que produzem capital social e comunidades fortes-- exige verdadeiro esforço e trabalho duro. Não acontece por si só, especialmente em nossa era digital.

Este é um ponto a se lembrar enquanto os EUA e o mundo caminham para quatro anos de presidente Donald Trump.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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