Irã recruta afegãos xiitas para combater na Síria

Rodolphe Gérard

  • Reprodução/vosizneias

    O líder supremo do Irã, Ali Khamenei

    O líder supremo do Irã, Ali Khamenei

Teerã recrutou de 10 mil a 20 mil mercenários de origem hazara, à força ou voluntariamente, para defender Bashar al-Assad e combater os jihadistas

Por muito tempo a presença de afegãos xiitas, que foram combater na Síria ao lado do Exército do governo, permaneceu desconhecida. Mas as provas sobre a presença desses mercenários, na maior parte das vezes recrutados no Irã, onde muitos deles são refugiados, vêm se acumulando. Enquanto Teerã, principal apoiador do regime de Bashar al-Assad, continua negando a presença de seus soldados em solo sírio, com exceção de conselheiros militares, muitos websites iranianos têm publicado imagens de funerais de milicianos afegãos xiitas, que morreram como "mártires" na Síria.

Os combatentes xiitas afegãos, reunidos em uma brigada chamada "Fatemiyoun", são oriundos da minoria hazara, e segundo a mídia iraniana eles seriam em 10 mil a 20 mil. A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW) afirma, em um relatório publicado dia 29 de janeiro, que "desde pelo menos o mês de novembro de 2013" o Exército iraniano recrutou milhares de afegãos vivendo clandestinamente no Irã para irem combater na Síria. A organização, que entrevistou mais de 20 afegãos, explica que as autoridades iranianas lhes ofereceram "incentivos financeiros" e "uma residência legal" no Irã para encorajá-los a se alistarem. Alguns desses afegãos ou seus parentes dizem ter sofrido pressões, inclusive a ameaça de "retorno forçado ao Afeganistão."

O comandante da brigada Fatemiyoun, Alireza Tavasoli, também conhecido como Abou Hamed, foi morto em março de 2015, perto de Deraa, no sul da Síria. O comandante já havia demonstrado sua devoção à República Islâmica ao lutar do lado dos iranianos durante a guerra contra o Iraque (1980-1988). Algumas fotos mostram Abou Hamed em companhia de Ghassem Soleimani, comandante da força Al-Qods, a unidade de elite dos guardiões da revolução (os pasdarans) encarregada de missões fora do Irã. Segundo a mídia iraniana, Ghassem Soleimani tinha total confiança em Abou Hamed. Não se sabe o nome de seu substituto.

Mohammad, um hazara de 17 anos que partiu do Irã em setembro de 2015 e hoje vive na Europa, faz parte de vários grupos no Facebook e no Telegram onde se compartilham noticias e imagens sobre seus compatriotas que foram combater na Síria. "Há escritórios em Teerã, inclusive em Shah-Abdol-Azim, ao sul de Teerã, e em Varamin, ao sul da capital, onde se alistam os afegãos que querem ir combater na Síria", explica Mohammad.

Antes de partir para a Europa, Mohammad pensou em se alistar e seguir o exemplo de alguns de seus amigos e parentes que foram combater a organização Estado Islâmico na Síria. "Nós, os xiitas," explica Mohammad, "nos preocupamos muito com o destino dos lugares sagrados do xiismo, sobretudo o mausoléu de Zaynab, neta do Profeta, situado no subúrbio de Damasco". Mas ele nunca se alistou. Segundo Mohammad, os afegãos recrutados no Irã só recebem um treinamento militar de 20 dias. "Durante esse período, você não aprende nem mesmo a manejar uma AK-47", diz Mohammad, revoltado. "Então não fui."

Falta de treinamento

Se alguns afegãos estão indo para a Síria em razão de sua fé xiita, outros se alistam por motivos financeiros. É o caso do pai de Jawad, um afegão que deixou o Irã pela Europa, onde ele vive desde novembro de 2015. "Meu pai se alistou há dois anos. Na Síria, ele dirige tanques e recebe 2 milhões de tomans, ou R$ 2.650, por mês. Antes ele era caminhoneiro."

Durante suas licenças, que ele passou em Teerã na casa de sua família, o pai de Jawad criticava a falta de treinamento dos mercenários afegãos. "Meu pai dizia que os afegãos não sabiam nem mesmo que era preciso se jogar no chão em caso de tiros de morteiros e que eles ignoravam que os combatentes do Daesh (acrônimo árabe do EI) tinham armas de mira térmica", conta Jawad. "Logo, eles levavam tiros porque fumavam cigarro."

Mohammad acredita que o Irã esteja usando os afegãos para "baixar seu balanço de baixas militares na Síria". "Além disso, o Afeganistão não tem um Estado forte capaz de nos defender", ele lamenta. Os afegãos, mesmo aqueles que possuem um visto de residência, são tratados no Irã como cidadãos de segunda classe. As profissões que lhes são autorizadas são ingratas, como coletores de lixo. Eles não têm direito à propriedade, a lei os proíbe de terem uma linha telefônica ou conta bancária em seus nomes, e eles não têm direito de comprar carros ou casas.

Essa situação difícil parece ter incentivado Abou Hamed a pedir, em seu testamento, ao líder supremo iraniano, Ali Khamenei, um melhor reconhecimento para os combatentes afegãos na Síria. Por acaso ou em resposta aos pedidos de Abou Hamed, o líder supremo ordenou, em setembro passado, que todos os estabelecimentos escolares autorizassem a matrícula de crianças afegãs no próximo ano letivo, até mesmo as clandestinas.

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Tradutor: UOL

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