O estudante que queria matar judeus

Luc Leroux

Em Marselha

  • Boris Horvat/AFP

    Soldado francês monta guarda diante da escola judaica La Source, em Marselha, no sul da França

    Soldado francês monta guarda diante da escola judaica La Source, em Marselha, no sul da França

No dia 11 de janeiro, ele tomou café da manhã com seu pai, que estava saindo cedo para o trabalho. Fiel a seu costume de contar piadas, o adolescente o fez rir. Ele acompanhou seu irmão mais novo à escola antes de ir para seu colégio. Naquele dia, seus pais se despediram de um rapaz comum, que devia comemorar seus 16 anos na próxima semana. Algumas horas mais tarde, policiais que apareceram para revistar sua casa o descreveram como um terrorista determinado a matar um professor judeu.

Dentro de sua mochila, o colegial turco de origem curda guardou o facão comprado doze dias antes em uma loja de construção na zona leste da cidade por 16,99 euros (cerca de R$ 70). Benjamin Amsellem, professor de disciplinas judaicas no Instituto Franco-Hebraico La Source, em Marselha, não o viu chegar. Ele sentiu as facadas em suas costas, virou, correu, caiu e se protegeu com sua torá.

Aos policiais que vinte minutos mais tarde o detiveram na estação Dromel do metrô o adolescente disse: "Vocês foram rápidos". Quando eles descobriram uma faca presa no elástico da sua calça de abrigo, ele acrescentou: "Isso é para vocês, é para a polícia."

Ele disse também que deixou "sua mochila com uma bomba dentro", que queria ir para a Síria, que "precisava matar os judeus".

"Ele transpirava muito, tremia com o corpo inteiro e não parava de falar", contou um policial. Mas, segundo seu colega, "ele não estava delirando". Foi para eles que ele reivindicou a agressão contra o professor "em nome do Daesh (acrônimo árabe do Estado Islâmico), porque era um yahudi, um judeu que precisava ser morto".

Até ser indiciado dois dias depois por uma juíza de instrução antiterrorista, a quem ele disse simplesmente: "Vou me manter em silêncio", o adolescente demonstrou uma confiança intimidante, fazendo várias provocações.

"Pena que o facão não estava afiado, senão eu o teria cortado ao meio; comprei um facão para matar judeus, mas nesta manhã não tive força o suficiente. Estou com vergonha, lamento por não ter conseguido matá-lo. Mesmo assim estou orgulhoso."

Em 48 horas de custódia, os investigadores da subdireção antiterrorista tentaram entender como esse adolescente, um excelente aluno do segundo ano de elétrica da escola técnica, pôde se transformar dessa forma. À tradicional pergunta de final de interrogatório "Você tem algo a acrescentar?" ele concluiu: "Eu os convido para o islamismo."

Em outro interrogatório, ele declarou: "Sou um partidário do Estado Islâmico há cerca de um ano e meio. Aos 9 anos de idade, renunciei à democracia e comecei a praticar. Por volta de março de 2014, a televisão que vocês assistem me dizia que os muçulmanos matavam pessoas. Procurei na internet, e vi no YouTube que o comandante do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi —que Alá o proteja!— dizia o contrário. Nunca mais entrei em contato com outros partidários".

Sua família não percebeu nada

Os primeiros elementos da investigação confirmam a teoria de uma radicalização solitária, escondida, sem contato com o exterior nem nenhum imame. Em seu smartphone, o adolescente armazenava imagens da bandeira da organização Estado Islâmica, vídeos de decapitações e fotos de kalashnikovs.

Ele alega que agiu "para vingar seus irmãos na Palestina. Você, a polícia, quer proteger os judeus. Vocês têm soldados em frente às sinagogas. Vocês fazem de tudo para proteger Israel e tudo para bombardear Gaza".

Insolente, ele disse: "Viva eu!", quando lhe perguntaram: "Você deseja reivindicar seus atos?"

Contudo, em sua classe do curso de elétrica ele era um "aluno sério, atento", explicou o orientador da escola. Com uma média geral 14, seus professores enchiam seu boletim de elogios: "Excelente trimestre! Continue assim, você está no caminho certo", escreveu seu professor de francês, elogiando esse rapaz que não falava uma palavra de francês quando chegou da Turquia em 2011 junto com sua mãe e irmãos para se juntarem a seu pai, refugiado político.

Durante uma palestra recente em classe sobre as atrocidades praticadas pelo EI, ele não abriu a boca.

Sua família não percebeu nada. Ele não tinha amigos, não ia mais ao futebol onde havia se matriculado, mas não frequentava mais as mesquitas salafistas da periferia leste de Marselha. Alguns meses atrás, ao vê-lo assistindo no computador vídeos com "barbudos", seu pai o repreendeu.

Em uma segunda vez, ele chegou a quebrar o computador dado pelo conselho departamental aos estudantes. Seu irmão mais velho havia fechado sua conta no Facebook, a pedido do pai.

Desde então, não houve mais sinais de alerta. A família é de muçulmanos, mas não praticante, indo somente excepcionalmente à mesquita, e não observando o Ramadã. Antes de muçulmanos, eles eram curdos.

Em um comunicado, o Centro Democrático da Comunidade Curda de Marselha manifestou seu "apoio e solidariedade à vítima", ressaltando que esse estudante havia cometido seu ato "não em nome de suas origens, mas sim em nome da ideologia de uma organização bárbara e criminosa que eles combatem no dia a dia."

O jovem afirmou ter decidido 15 dias antes cometer a agressão. Ele queria reivindicar seu ato caso tivesse conseguido matar o professor: "Eu pretendia tirar sua foto e depois postá-la no Twitter com uma legenda do tipo: um judeu a menos... Esse era meu objetivo, e depois sacar a faca e me deixar ser morto pelos tiras, como um mártir".

Mencionando as viagens que ele gostaria de ter feito a Bagdá, ao Afeganistão e à Síria, ele acrescentou: "Para visitar Palmira". A respeito dessa declaração, o policial anotou entre parênteses na ocorrência: "Constatamos que ele nos olha com um sorriso irônico enquanto formula sua resposta".

Durante essa custódia que o levou a uma cela do presídio de Fleury-Mérogis (departamento de Essonne), em nenhum momento o adolescente deixou romper sua carapaça, nem mesmo diante do educador que, nas celas do Palácio de Justiça, lhe perguntou: "Eu sou cristão, sou por isso seu inimigo?".

O estudante respondeu: "Se você votou em Hollande sim, uma vez que a França está em guerra contra o Daesh".

Uma única vez ele se mostrou sob um ângulo diferente. Ao reconhecer que a profissão de eletricista o atraía, ele também contou que sonhava em ser jornalista. O psiquiatra que falou com o adolescente durante a custódia concluiu que ele não possuía nenhum distúrbio psiquiátrico.

Seu pai pareceu totalmente consternado quando foi interrogado pelos investigadores.

"Não consigo acreditar. Como é que uma criança de 15 anos pode fazer isso? Quando a televisão mostra as atrocidades cometidas pelo Daesh, decapitando humanos, achamos isso horrível e pensamos que eles são uns animais. Quem é responsável por isso?", ele pergunta, aos prantos.

"Estou morrendo por dentro."

Tradutor: UOL

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