Milícias ficam em estado de alerta para combater Estado Islâmico na Líbia

Frédéric Bobin

  • Welayat Tarablos/AFP

     Membros do Estado Islâmico ocupam ruas de Sirte (Líbia) em fevereiro de 2015

    Membros do Estado Islâmico ocupam ruas de Sirte (Líbia) em fevereiro de 2015

Em Misrata, as milícias contam com apoio dos ocidentais para intervir contra o grupo extremista

Mohammed el-Bayoudi aponta com o dedo indicador para o nordeste, que é só areia e pedregulhos. "Eles estão lá", adverte o oficial da Brigada 166 de Misrata, vestido com sua farda de mangas decoradas com uma insígnia laranja do tamanho de um miolo de girassol.

"Eles", no caso, são os combatentes da organização Estado Islâmico (EI), que controla Sirte, reduto da organização jihadista na Líbia. A essa distância, só se vê um deserto rolando para dentro de uma luz pura até desvanecer ao longe em nuvens. Mas ele certamente chega até aqui como um ar de véspera de batalha.

Empoleirados sobre as colinas pedregosas de Baghla, situada 80 km a sudoeste da inimiga Sirte, Bayoudi e seus homens formam o último obstáculo antes da terra de ninguém. A missão deles é vigiar o eixo viário, faixa de estrada esburacada pelos caminhões-cisternas, que liga a cidade costeira de Misrata à grande cidade do sul líbio, Sebha, um corredor estratégico que não pode cair em mãos hostis.

O lugar foi retomado do EI há um mês e meio. Desde então, tem sido uma espera por fantasmas. A posição de Baghla se reduz a alguns Land Cruiser armados de metralhadoras, um par de binóculos com o tripé enfiado no cascalho e uma marmita de macarrão fervendo sobre um braseiro. O arsenal é magro, mas, confinados à retaguarda, os reforços correriam ao primeiro alerta.

Então é aqui, nessa faixa de areia entre Misrata e Sirte, que vem se esboçando a nova guerra da Líbia. A terceira em cinco anos, após a intervenção da Otan contra Muammar Gaddafi em 2011, e depois do confronto fratricida de 2014 entre vencedores da revolução. Dessa vez, o adversário a ser abatido é o EI, front transferido de uma parte vasta que já se espalha pelos confins do Iraque e da Síria.

Desde a primavera de 2015, o braço líbio da organização de Abu Bakr al-Baghdadi conquistou uma faixa litoral de 200 km em torno de Sirte e, pouco a pouco, foi ganhando terreno, até ameaçar em seu flanco oriental o "crescente petroleiro", a principal plataforma de exportação do petróleo líbio. Cada avanço do EI, hábil em tirar partido do caos generalizado no qual o país está imerso desde o verão de 2014, alarma mais as capitais ocidentais.

Cautela necessária

No dispositivo que vem se esboçando, a cidade de Misrata terá um papel decisivo. Cidade mercante aberta para a costa, a metrópole portuária, situada 225k a oeste de Sirte, pode ser considerada como a porta da Tripolitânia frente às ambições do EI. Suas poderosas katibas (unidades combatentes) têm uma revanche a tirar.

No final de maio de 2015, a famosa Brigada 166, a mais implicada nessa zona do litoral central, teve de bater em retirada diante do EI que concluía então sua tomada de Sirte. "Não recebemos os reforços esperados de Trípoli", lamenta hoje Mohammed el-Bayoudi.

Na teoria, Misrata é afiliada ao bloco político-militar da Fajr Libya ("Aurora da Líbia"), com sede em Trípoli, onde as forças islamitas exercem uma influência significativa. Mas, na prática, os Misrati, cansados do jogo dos belicistas de Trípoli que contrariam a busca por uma solução política à crise líbia, tendem a se autonomizar. Logo, eles se tornaram um parceiro natural para os ocidentais, tanto para selar a reconciliação com o campo rival de Tobrouk (leste), onde dominam liberais, anti-islamitas e ex-gaddafistas, quanto para recentrar suas forças contra o Estado Islâmico.

Em Misrata, mal se esconde que os preparativos começaram. "Existe um plano que integra ataques aéreos e terrestres", admite Ibrahim Bitelmal, presidente do conselho militar de Misrata. "A comunidade internacional vai nos ajudar, as conexões já estão estabelecidas." É tudo que Bitelmal diz. Mas sua alusão a "conexões" confirma os vários rumores que relatam a presença de forças especiais americanas e britânicas no colégio da aeronáutica de Misrata, ou até em fazendas discretas no limite da cidade.

Bitelmal, que avalia o número de combatentes do EI em Sirte "em 3.000 homens, sendo 70% estrangeiros", se apressa para explicar que esses preparativos estão sendo feitos em ligação "com o estado-maior das forças armadas de Trípoli". Também nesse caso a cautela é necessária. A ideia é não fazer com que pareça que Misrata está fazendo seu jogo separadamente. A questão das relações tumultuosas entre a cidade e o "governo de salvação nacional" de Trípoli, o executivo da Fajr Libya, onde domina uma retórica hostil a qualquer "ingerência estrangeira", continua de pé.

Em Baghla, ao volante de sua Toyota que sacoleja sobre a estrada esburacada, Mohammed el-Bayoudi diz estar esperando por essa terceira guerra da Líbia. "A vida se tornou catastrófica em Sirte", ele afirma, mencionando as informações que as famílias fugitivas lhe passam, como os problemas de escassez, as execuções etc.

A futura ofensiva contra Sirte, no entanto, só tem chances de ter sucesso com duas condições, segundo ele. "Primeiro, é preciso que a ajuda dos ocidentais se limite a ataques aéreos. O mais importante é que não haja soldados no local, nós não aceitaríamos! Nós nos encarregaremos nós mesmos das operações terrestres. Em seguida, precisamos de ajuda no plano logístico, como cuidados médicos, transmissões, armas sofisticadas, aparelhos de visão noturna." Senão, ele alerta, "será uma perda de tempo."

Do outro lado, a terra de ninguém exibe sua imensidão de pedras, atravessada somente por dromedários de passos majestosos em meio à luz alaranjada de um fim de dia na Líbia.

Tradutor: UOL

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