"Capital do carvão" é atingida em cheio pela desaceleração da economia chinesa

Simon Leplâtre

  • Yan Yan/Xinhua

De capacete amarelo e rosto escurecido, barra de ferro sobre o ombro, alguns mineradores atravessam a vasta esplanada do Museu da Mina de Datong. No meio de escavadoras de túneis exibidas como estátuas, fotos de operários-modelos e pequenos vagões, eles poderiam passar por figurantes. Mas a equipe logo some para dentro de um prédio discreto que dá acesso a Jinhuagong, um poço que desce a 700 metros abaixo da terra.

Essa infraestrutura pertence ao grupo Tongmei, o terceiro maior explorador de minérios do país. Aqui, a produção continua como se nada tivesse acontecido, porque é preciso "pagar os salários", conta um executivo da empresa. No entanto, a empresa que sustenta a cidade está perdendo dinheiro: foram 1,7 bilhão de yuans (R$ 996 milhões) em 2015. Os operários garantem que estão recebendo seus salários, mas logo explicam que ele caiu de 20% a 30% em um ano.

Na "capital do carvão", apelido de Datong, as minas são exploradas há quase um século. E como é preciso escavar cada vez mais profundamente, os custos de produção são elevados, mas o preço do carvão caiu pela metade nos últimos cinco anos. A desaceleração da segunda maior economia mundial afetou duramente o setor de imóveis e da indústria pesada, dois grandes consumidores de energia, levando a um ligeiro recuo no consumo chinês do carvão em 2014, após duas décadas de crescimento exponencial. Essa tendência se confirmou em 2015.

Liu, de 45 anos (que prefere não dar mais detalhes sobre sua identidade), já está sofrendo com a redução no salário. "Antes eu conseguia ganhar mais de 6 mil yuans (ou R$ 3.594) com os bônus. Mas em 2015 meu pagamento foi reduzido duas vezes: eu ganho no máximo 5 mil yuans hoje."

Atrasos no pagamento

Sentado na beira de seu kang, o tradicional leito do norte da China, ele assiste à TV com uma xícara de chá verde ao alcance das mãos. Ele faz a manutenção dos trilhos nos túneis subterrâneos, um trabalho menos penoso que o de minerador e que lhe permite obter uma remuneração superior ao salário médio que é pago nas usinas ou nos canteiros de obras (cerca de 3.500 yuans no leste do país).

Mas Liu tem dois filhos, sendo um de 17 anos que em breve deve começar a faculdade, algo caro na China. Sua mulher, não qualificada, não encontrou trabalho na mina, a única perspectiva de emprego no bairro, situada logo em frente a Jinhuagong. "Parece que após o Ano Novo poderão nos passar para o desemprego técnico. O que posso fazer? Não vou procurar trabalho. Não está fácil neste momento encontrar trabalho", lamenta.

No entanto, os funcionários de Tongmei não estão na pior das situações. Segundo a Associação Nacional Chinesa do Carvão, metade das empresas mineradoras do país estão atrasando o pagamento de salários e contribuições sociais. Longmay, a principal mineradora de Heilongjiang, a província mais setentrional da China, anunciou em setembro de 2015 que iria cortar 100 mil postos dentre 240 mil. Desde então, a administração da província foi socorrê-la para preservar a maior parte dos empregos, mas o futuro é sombrio. Os funcionários protestaram diversas vezes para exigir seus pagamentos.

Movimentos sociais são o que querem evitar a qualquer custo as autoridades locais das províncias, afetadas pela desaceleração chinesa. Apesar de um plano nacional de redução das sobrecapacidades no setor do carvão, ninguém quer ser o primeiro a reduzir a produção. Tongmei também não. Em 2015, a empresa produziu 180 milhões de toneladas, 10 milhões a mais que em 2014, 50 milhões a mais que em 2012. "Senão não poderíamos pagar os salários", afirmou Liu Congying, um executivo da empresa entrevistado pela AFP em dezembro de 2015. "Mas essa não é uma política sustentável", ele logo admitiu. Desde então, Tongmei não quis mais se manifestar.

Em 2015, a provincial de Shanxi, proprietária dessa empresa, teve um crescimento de 3,1%, estabelecendo assim o terceiro pior desempenho da China. Sozinhas, Heilongjiagn e Liaoning, produtoras de carvão também, não se saíram tão bem. Em Datong, um terço dos três milhões de habitantes dependem da Tongmei.

"Viver com quase nada"

Na estrada que leva a Jinhuagong, lojas vendem material destinado às minas. Embrulhada em uma longa jaqueta, sentada no meio de suas ferramentas, Liu Peng lamenta: "Antes eu conseguia ganhar dezenas de milhares de yuans por mês. No último mês venho perdendo dinheiro". De uma maneira ou de outra, toda a cidade vai sendo afetada. Durante os anos de crescimento de Shanxi, a empresa tinha grandes planos.

Penghuqu é um novo bairro construído pela Tongmei para seus funcionários e suas famílias. Situado a sudoeste do centro de Datong, ele acolhe 400 mil pessoas, todas abrigadas em blocos de prédios de seis andares. Essa cidade dentro de outra cidade tem seu próprio sistema de transporte coletivo, ao custo de um yuan: como convém, esses micro-ônibus andam movidos a carvão. Em uma das artérias principais, o dono de uma loja de fotografia confirma: "É claro, estamos sentindo os efeitos da crise, ainda mais que nossa atividade não é essencial", diz Zhang Bao Yu. "Faz pelo menos seis meses que os negócios não estão indo tão bem. Aqui as pessoas são simples: elas conseguem viver com quase nada. Os comerciantes sofrem com isso."

No bairro, os veteranos conversam ao sol. É difícil saber se eles tossem por causa do cigarro ou por causa dos 40 anos passados nas minas. Essas testemunhas da glória passada de Datong se tornaram um fardo para a Tongmei, que precisa pagar a aposentadoria deles. Durante a China comunista, essa empresa do Estado simbolizava a "tigela de arroz de ferro", a estabilidade, dando um emprego e benefícios sociais para o resto da vida.

Mais adiante, dois jovens se aquecem em frente aos carvões incandescentes. O primeiro, de cabelo e jaqueta pretos, é técnico da Tongmei. Ele ainda recebia 8 mil yuans por mês até somente um ano atrás, ou seja, mais do que um jovem graduado em Pequim. Mas seu salário caiu para cerca de 5 mil yuans. Seu amigo, de cabeça raspada, não estudou e não trabalha. "Eu faço uns bicos", ele suspira. "Mas está difícil no momento". Em 2015, mais de 80 mil jovens se candidataram a um emprego na Tongmei, conta a revista de Pequim "O Observador da Economia". Mas sem grandes esperanças: "Se a empresa contratasse todos nós, ela logo iria à falência", brinca um deles.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos