França registra casos de crueldade em abatedouro de bovinos e carneiros

Audrey Garric

  • Inra

    Filhotes de ovelhas com menos de 45 dias de vida sofreram maus tratos no abate

    Filhotes de ovelhas com menos de 45 dias de vida sofreram maus tratos no abate

Empresa basca que se promove como orgânica e detentora do Label Rouge é acusada de graves maus tratos a animais

É mais um escândalo que mergulha em desgraça o meio dos abatedouros. Um mês após os atos de crueldade gravados no estabelecimento de Vigan (departamento de Gard) e cinco meses após os perpetrados em Alès, que provocaram indignação, a associação L214 revela novos casos de maus tratos a animais. Desta vez, os fatos ocorreram dentro de uma empresa de processamento de carne supostamente orgânico e detentora da certificação de qualidade Label Rouge (ou Selo Vermelho): o abatedouro intercomunal de Soule, na pequena cidade de Mauléon-Licharre (Pireneus-Atlânticos), no País Basco francês.

Gravado com uma câmera escondida, em março, o vídeo ao qual o "Le Monde" teve acesso com exclusividade mostra práticas de abate chocantes e manifestamente ilegais de bovinos, vitelos e sobretudo de cordeiros de leite, que são ovinos com menos de 45 dias de vida, ainda não desmamados, após o feriado de Páscoa. A L214 iria entrar com uma ação na terça-feira (29) junto à procuradoria de Pau por maus tratos, abusos graves e atos de crueldade.

Assim como nos abatedouros de Vigan ou de Alès, ali é possível ver animais recobrando a consciência e se debatendo violentamente enquanto são suspensos para a sangria; funcionários que começam as operações de corte das patas e da cabeça em animais ainda vivos; funcionários que batem com a ajuda de ganchos em ovinos que não foram completamente atordoados; outros que empurram bovinos enquanto dão golpes de bastão elétrico em suas cabeças; animais caindo da cadeia de abate diante de funcionários indiferentes e sobrecarregados pelo ritmo da produção; ou ainda um cordeiro esquartejado vivo, preso entre dois ganchos na ausência do operador.

"Inadequada e violenta"

Ainda que a morte de animais de criação não seja suave nunca, ela é regulamentada. O código rural francês e uma regulamentação europeia de 2009 estipulam que "toda dor, estresse ou sofrimento evitável sejam poupados dos animais durante o abate". Os abates convencionais preveem, entre outras coisas, um atordoamento dos animais (com uma segunda tentativa caso a primeira falhe) para evitar que eles estejam conscientes no momento da morte.

"O abatedouro de Mauléon-Licharre viola vários artigos da regulamentação, causando assim dores e sofrimentos evitáveis aos ovinos abatidos," acredita Gilbert Mouthon, veterinário e especialista em tribunais, em um relatório submetido à L214 após a análise de dois vídeos de 48 minutos de duração. "A manipulação dos animais é inadequada e violenta."

No entanto, desta vez essas crueldades foram perpetradas em um estabelecimento pequeno e aparentemente impecável: o abatedouro emprega 33 funcionários e se descreve como "decididamente voltado para o abate de qualidade". Ele mata a cada ano, segundo a direção, 35 mil cordeiros e 40 mil bovinos, ou seja, comercializa 3.000 toneladas de carne. Quarenta por cento de sua atividade provém de animais criados no vale do Soule, sobretudo pela cooperativa Axuria, estrela da gastronomia local.

As carnes que são produzidas ali são em parte certificadas com o Selo Vermelho e classificadas sob o regime europeu das indicações geográficas protegidas (IGP, sigla em francês). O estabelecimento também possui a certificação Ecocert de agricultura orgânica, ainda que os critérios estabelecidos não prevejam especificidades para o abate. Entre seus 460 clientes, há pessoas físicas que compram diretamente, associações pela manutenção de uma agricultura camponesa (Amap) e alguns grandes restaurantes parisienses e chefs estrelados, como o açougueiro-celebridade Yves-Marie Le Bourdonnec e o chef Alain Ducasse. É um setor que tem um pico no período das festas de Páscoa.

"Estou arrasado, chocado", disse depois de assistir aos vídeos Gérard Clémente, diretor do abatedouro há 40 anos, que está a dois meses de se aposentar. "Estou frequentemente no abatedouro, tentei melhorar as condições de abate durante anos, e é só dar as costas que os funcionários batem nos animais. Estamos fritos." O homem afirmou que irá demitir os funcionários, ao mesmo tempo em que culpa o ritmo de trabalho: "Precisamos matar 15 mil cordeiros em 15 dias para a Páscoa. Se trabalhássemos mais tranquilamente, eles não cometeriam esse tipo de ação."

"Esses fatos são inaceitáveis. Se forem confirmados, levarão a um inquérito judicial e administrativo", disse Patrick Dehaumont, diretor-geral de alimentação, que responde ao Ministério da Agricultura, antes que pudesse ver as imagens. "Se de fato houve novos abusos, não poderemos deixar assim. Será preciso reforçar a fiscalização, com uma presença mais frequente de agentes e talvez a instalação de câmeras."

"Os escândalos vão se somando e são muito parecidos. Após os discursos feitos na sequência de Alès e de Vigan, nada mudou na prática", denuncia a porta-voz da L214, Brigitte Gothière, sendo que os dois estabelecimentos de Gard, ainda alvos de inquéritos judiciários e administrativos, reabriram respectivamente um e dois meses após serem fechados por medida de precaução. "Os abatedouros, que na França matam mais de um bilhão de animais por ano", ela diz, "continuam infligindo impunemente sofrimentos atrozes, em meio ao silêncio cúmplice das autoridades e dos serviços veterinários."

"Nenhuma fiscalização pelo serviço de inspeção veterinária aparece nas imagens de Mauléon-Licharre: ele não intervém em nenhum momento para corrigir e sancionar as infrações constatadas", confirma Gilbert Mouthon. A L214 deve submeter durante a semana um pedido de urgência ao tribunal administrativo de Pau, visando caracterizar as falhas dos serviços veterinários.

Efetivos de fiscais em queda

A regulamentação determina que haja um controle contínuo das práticas de abate pelos serviços veterinários. Assim, 1.400 agentes da direção geral de alimentação estão constantemente presentes nos 260 abatedouros franceses, o elo mais delicado da cadeia alimentar. Mas seus efetivos estão em queda (-19% em dez anos, apesar da criação de novos postos desde 2015), e seu papel é mais voltado para a inspeção sanitária do que para os maus tratos animais.

"A grande maioria dos agentes é destinada à inspeção sanitária dos animais vivos, quando entram no abatedouro. A inspeção durante as fases de atordoamento ou de sangria não é obrigatória", explica Patrick Dehaumont.

Diante dessas "inadequações" e da "ausência de acompanhamento e de sanções dissuasivas", a L214 lançou uma nova petição, dirigida ao primeiro-ministro, para exigir uma "transparência efetiva dos abatedouros para a implantação de ferramentas que permitam que as ONGs e os cidadãos exerçam um direito de controle". Entre as demandas dos ativistas estão: publicação dos relatórios de inspeção e notificações dos serviços veterinários contra os abatedouros; instalação de câmeras "nos locais de descarga, de espera, de condução e de abate dos animais", com acesso livre das ONGs às imagens.

Pressionada pelas associações e por inúmeros cidadãos, a Assembleia Nacional também criou, no dia 22 de março, uma comissão de inquérito parlamentar "sobre as condições de abate dos animais de açougue nos abatedouros franceses". A comissão, que deverá ser presidida pelo deputado Olivier Falorni, do RRDP, será composta por 30 deputados e deverá entregar um relatório dentro de seis meses.

"O objetivo é combater os maus tratos animais, ao mesmo tempo em que se garante o respeito às regras elementares de higiene, de segurança alimentar e de rastreabilidade da produção", diz Falorni, responsável pela iniciativa. Como disse Gandhi, "a grandeza de uma nação pode ser medida pela maneira como ela trata seus animais".

Tradutor: UOL

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