Após fugirem de Egito e Tunísia, turistas europeus agora evitam a Turquia

Chloé Hecketsweiler

  • Ministério do Interior da Tunísia/AFP

    27.mar.2015 - Turistas ficam sob a proteção da brigada antiterrorismo no Museu do Bardo, em Túnis (Tunísia), durante um ataque de jihadistas em março de 2015

    27.mar.2015 - Turistas ficam sob a proteção da brigada antiterrorismo no Museu do Bardo, em Túnis (Tunísia), durante um ataque de jihadistas em março de 2015

Situado no coração do bairro boêmio de Karaköy, o antigo prédio do Crédito Otomano é um dos emblemas da renovação turística de Istambul. Construído em 1867, o edifício foi modernizado em 2014 por um badalado arquiteto turco e hoje abriga um hotel e uma galeria de arte. O conceito, que mira em uma clientela chique e descolada, está em voga: três outros prédios foram renovados desde 2010 por seu proprietário, um grupo turco chamado The House Hotel. Mas, no último ano, a onda de atentados associada à guerra na Síria e à retomada do conflito curdo tem complicado consideravelmente os negócios.

"Nossa taxa de ocupação passou de 85% para 65%, e tivemos que baixar nossos preços em 20%", afirma Anthony Doucet, o diretor de marketing da The House Hotel. "Estamos entre os menos impactados: nossa clientela é muito bem informada, está acostumada a viajar e é menos sensível às questões de segurança". Enquanto espera as coisas melhorarem, ele suspendeu novas contratações e não tem mais substituído os funcionários que deixam o estabelecimento.

Ele não é o único. Em fevereiro, o número de visitantes estrangeiros na Turquia caiu 10% em relação a 2015, segundo números publicados na terça-feira (29) pelo Ministério do Turismo. E isso é provavelmente só o começo.

Turistas foram atingidos em janeiro por um atentado mortífero, a algumas centenas de metros da basílica de Santa Sofia e da Mesquita Azul, dois dos monumentos mais visitados de Istambul, e voltaram a ser alvo durante os ataques terroristas em Ancara e novamente em Istambul em meados de março.

"A Turquia não tem mais essa imagem de destino 100% seguro", ressalta Seltem Iyigun, economista na Coface. Vários países, incluindo Israel, agora desaconselham seus cidadãos a irem para o país. Já os russos estão boicotando seus balneários desde que, em novembro de 2015, militares turcos abateram um de seus bombardeiros acima da fronteira síria.

"Basta andar pelo bairro de Taksim, em pleno coração de Istambul, para perceber que a mensagem foi captada: a taxa de ocupação dos hotéis ali não passa de 20%", afirma Iyigun. Por falta de clientes, alguns estabelecimentos fecharam suas portas, por não conseguirem mais pagar suas dívidas.

O turismo é um dos pilares da economia turca, com 36 milhões de visitantes e US$ 31 bilhões (R$ 110 bilhões) em receitas em 2015. A crise poderá ter um impacto bem além das regiões mais apreciadas pelos viajantes, como Istambul, Bodrum e Antalya. "Muitos trabalhadores vão para o litoral na alta temporada, onde são empregados pelos hotéis, restaurantes, empresas de transporte. Este ano, as oportunidades serão mais limitadas, o que consequentemente enfraquecerá a economia das regiões de origem desses trabalhadores temporários", analisa a Coface.

Praias desertas

Do outro lado da bacia mediterrânea, a Tunísia enfrenta as mesmas dificuldades. O país relembrou, na sexta-feira (18), o primeiro aniversário do atentado contra o Museu do Bardo, em Túnis, o primeiro contra turistas estrangeiros e um dos três grandes ataques que ensanguentaram o país em 2015. Estados europeus como o Reino Unido e a Irlanda pediram que seus cidadãos deixassem o país e desaconselharam qualquer viagem "não essencial", após um atentado em junho de 2015 em uma praia e um hotel perto de Sousse (38 turistas mortos, sendo 30 britânicos).

"Nós perdemos 80% de nossa clientela de lazer, e nossa taxa de ocupação tem oscilado entre 35% e 45%", constata David Sierra, que dirige o La Résidence, um hotel de luxo situado na costa mediterrânea, perto de Túnis. "Nós estamos nos virando, pois conseguimos captar uma clientela de negócios, mas nos balneários de Sousse, Djerba e Hammamet está um desastre", ele diz. Os franceses, principalmente, abandonaram as praias turcas, sendo que certas operadoras como Club Med ou Marmara chegaram a fechar seus estabelecimentos.

Resultado: o número de turistas europeus na Turquia despencou mais de 50% em 2015, e as receitas da indústria turística caíram 35%, para US$ 1,1 bilhão (R$ 3,9 bilhões). Sem conseguir convencer os europeus a voltarem, a ministra do Turismo, Salma Elloumi Rekik, espera atrair uma nova clientela: os russos, alvo evidente desde que a Turquia lhes foi proibida, e os chineses.

A situação do Egito é um pouco melhor. Com US$ 6,1 bilhões (R$ 21 bilhões) em 2015, as receitas do turismo "só" caíram 15% em relação ao ano anterior, segundo estatísticas oficiais. Mas o número de visitantes passou de quase 15 milhões em 2010 para 9,3 milhões no ano passado. A deserção dos turistas traz um grande problema: "Isso criou um deficit corrente que limita a capacidade do país de importar os bens dos quais ele precisa", explica Seltem Iyigun.

Os turistas abandonaram o Egito, uma vez que os atentados jihadistas se multiplicaram desde que o presidente islamita Mohammed Mursi foi destituído pelo Exército em 2013. O mais impactante foi aquele perpetrado no final de outubro de 2015 contra um avião russo na península do Sinai, uma tragédia que custou a vida de 224 passageiros.

O braço egípcio da organização Estado Islâmico (EI) reivindicou esse ataque. Alguns dias após o atentado, a Rússia suspendeu todos os seus voos com destino ao Egito, e Londres interrompeu os voos para Sharm el-Sheikh.

"Praticamente não há mais turistas russos, britânicos ou norte-americanos nas pirâmides agora", constata Said Ramanda, um camelô entrevistado pela AFP.

Os ônibus que enchiam o estacionamento das pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos desapareceram, e os hotéis que antes ficavam lotados agora estão quase desertos. "Antes do Daesh (acrônimo árabe do EI), eu tinha grupos de turistas todos os dias. Agora, raramente recebo mais do que três ou quatro visitantes", se queixa Merdash Ghanem, proprietário de uma loja de suvenires perto das pirâmides. "Como esperar ter turistas na região quando eles veem que as pessoas estão se matando?", ele pergunta.

Tradutor: UOL

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