Líder rebelde adia retorno, e chances de paz afundam no Sudão do Sul

Jean Philippe Rémy

  • Isaac Kasamani/AFP

    O líder rebelde de Sudão do Sul Riek Machar participa de entrevista coletiva em Kampala

    O líder rebelde de Sudão do Sul Riek Machar participa de entrevista coletiva em Kampala

Nunca nada de importante acontece no Sudão do Sul sem que seja preciso, em dado momento, esperar interminavelmente pela chegada de um avião. No aeroporto de Juba, um longo tapete vermelho, meio desbotado, se estende sob o sol, pronto para receber um aparelho que não se materializa no céu vazio. Juba, a capital do Sudão do Sul, o país mais jovem e agora um dos mais sofridos do planeta, com metade de sua existência legal entre as nações tendo sido dedicada à guerra civil, está esperando um homem específico: Riek Machar, líder da rebelião.

Já signatário de um acordo de paz em agosto de 2015, bem como de inúmeros cessar-fogos, todos violados, já reinstalado à distância em seu cargo de vice-presidente pelo presidente sul-sudanês, Salva Kiir, o líder da rebelião deve aterrissar em Juba com uma agenda bem cheia: permanecer vivo; prestar juramento para se tornar, formalmente, vice-presidente; visitar o mausoléu de John Garang, o herói nacional, morto em 2005 em um acidente de helicóptero; participar da criação de um governo transitório de união nacional, esperando assim estabelecer as fundações da paz com o lado de Kiir.

Um avião aterrissa, mas não é o certo. Um de seus passageiros, que chegou bem no meio dessa espera em um voo regular, diz estar surpreso por chegar a uma cidade em estado de sítio: "Centenas de soldados e policiais, um cordão em volta do aeroporto, estradas fechadas."

No entanto, com exceção de 3.300 homens, que permaneceram oficialmente em Juba, as tropas leais ao presidente Salva Kiir ficaram confinadas a 25 km da capital.

Ameaçadas pela paz

Do lado de Riek Machar, 1.370 homens voltaram antes de seu chefe, para garantir sua segurança. Este último não voltou a se instalar em sua residência, e um novo espaço foi preparado em um bairro periférico, na direção do Jebel [monte] Kujur, na saída da cidade, com a possibilidade de retirada para a mata ou de receber reforços em caso de necessidade.

"Eles se prepararam para qualquer situação, inclusive a de uma volta da guerra", explica uma fonte próxima da rebelião.

Mas o avião que deveria levar Riek Machar de Gambella, na Etiópia, não longe da fronteira, não chegou, sendo anunciado para o dia seguinte. Fontes próximas de seu campo afirmam que esse atraso se deve ao fato de que o voo, fretado pela ONU, não teria conseguido levar o chefe da cúpula da rebelião, Simon Gatwich Dual, sendo que este último consta de uma lista de pessoas alvos de sanções.

Charles Lomodong/AFP
Soldados do Exército de Libertação do Povo do Sudão ficam em estado de atenção em campo nos arredores de Juba

Provavelmente um pretexto, pois o problema é mais grave. Cada um dos lados teme uma armadilha. De um lado, há as negociações, as delegações e os acordos assinados. Do outro, as incertezas do conflito sul-sudanês, a começar pelos extremistas e belicistas de cada campo, bem mais ameaçados pela paz do que pela guerra.

Se a transição for atingida—e a formação de um governo é "um passo decisivo" para isso, como lembrou Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas—um tribunal híbrido será constituído um dia no Sudão do Sul para julgar os abusos cometidos durante essa guerra civil.

Só que desde o início do conflito, as atrocidades foram a regra. Em 28 meses, houve mais de 50 mil mortos, 2 milhões de deslocados, sendo 200 mil refugiados em locais de proteção de civis, organizados pela ONU em todo o país. Os residentes ficam fechados ali, pois se saírem, a etnia à qual pertencem pode significar sua morte.

Em fevereiro, um desses campos foi atacado em Malakal, com 25 mortos e mais de 100 feridos. Diversos relatórios das Nações Unidas, da União Africana, de ONGs, descrevem as atrocidades cometidas por cada lado: massacres, estupros, mutilações não pouparam nem crianças, nem doentes. No total, 43 trabalhadores humanitários foram mortos desde o início do conflito.

Segundo um relatório da divisão dos direitos humanos das Nações Unidas, "a partir de meados de 2015, um novo modelo surgiu nos condados do centro e do sul do Estado da União, com vilarejos inteiros incendiados, colheitas destruídas e gado roubado.

Há indícios de que isso faz parte de uma estratégia deliberada do governo ou do SPLA —Exército de Libertação do Povo do Sudão, do lado do presidente Kiir--, destinada a privar as populações de qualquer forma de meio de subsistência para obrigá-los a fugirem." Constatações de mesma natureza valem para ambos os lados.

Como foi que um país novo, desejado durante décadas por seus habitantes, conseguiu chegar a essa automutilação? Em um clima de rivalidades políticas crescentes entre Kiir e Machar, em meio a saques de verbas públicas, combates tiveram início em Juba, no dia 15 de dezembro de 2013.

Na época, os dois rivais moravam perto um do outro. Eles não compartilhavam somente um endereço, mas também a guarda presidencial, integrando conjuntamente seus homens assim como o Exército formado durante a criação do Sudão do Sul, dois anos antes, quando houve a cisão com o Sudão.

Atrocidades entre sulistas

Durante a longa guerra civil de vinte anos (1983-2005) entre as forças de Cartum (o "Norte" do Sudão) e as da rebelião sulista (o SPLA), houve dissensões violentas e diversas atrocidades entre os sulistas.

Esse passado não se apagou em dois anos de independência. Na noite de 15 de dezembro de 2013, a rivalidade política entre dois homens reacendeu tensões antigas. Homens armados mataram de acordo com as divisões étnicas: os dinka, próximos de Salva Kiir, contra os nuer, de Riek Machar.

Em Juba, a caça aos nuer havia começado na cidade. Em outras partes, massacraram dinkas. Já Machar deixou Juba no meio dessa noite de dezembro, vestindo-se às pressas e escapando por pouco de um grupo de lealistas que estavam indo matá-lo depois de arrombar seu portão com um blindado. Depois ele entrou na rebelião.

Será que sua volta pode salvar o Sudão do Sul?

"As duas partes estão assumindo riscos", analisa Jérôme Tubiana, pesquisador da Small Arms Survey. "O risco para Machar é que sua base tem juntado cada vez mais comandantes de guerra dos nuer, que preferem continuar a guerra a qualquer preço. O mesmo vale para Kiir, há o risco de que sua base dinka e seus belicistas, como Paul Malong, líder de sua cúpula, também se desviem dele e sabotem a paz."

Tradutor: UOL

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