Assassinatos em série miram oficiais de alto escalão do Exército do Burundi

Jean Philippe Rémy

  • Goran Tomasevic/Reuters

    Homens arrastam policial acusada de disparar contra um manifestante em Bujumbura

    Homens arrastam policial acusada de disparar contra um manifestante em Bujumbura

Bujumbura se encontra imersa em um clima de terror, um ano após o início da crise política

Os membros do comando que mataram, na quinta-feira (25), o general Athanase Kararuza, sua mulher e seu guarda-costas, e feriram gravemente sua filha em frente à escola de Bujumbura onde estava sendo deixada, eram evidentemente homens treinados. Nessa cidade controlada, cerca de 20 agressores armaram uma emboscada no bairro de Gihosha, com armas automáticas e, sobretudo, lança-foguetes, agora a ferramenta básica dos ataques contra militares acompanhados nas ruas da capital burundinesa.

Os assassinos sumiram no meio do mato. A demonstração foi ao mesmo tempo forte e vaga. Quem teria matado o general Kararuza, ex-comandante do contingente burundinês na missão da União Africana, e depois da ONU na África Central? O governo acusa os rebeldes de perseguirem os militares lealistas para fazer com que eles passem para seu lado. Já os meios próximos da oposição acreditam que se trata de um acerto de contas entre facções dentro do governo, hipótese que a liberdade de ação de um grande comando em Bujumbura parece defender.

Em meio a essa sequência de assassinatos e ataques a militares, Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, se mostrou preocupado com a morte do general Kararuza, na medida em que ela "acontece em um contexto onde diversas tentativas de assassinato com motivação política ocorreram no Burundi nas últimas semanas".

Foi um triste aniversário esse da "crise" iniciada no dia 26 de abril de 2015, com o anúncio da candidatura do presidente Pierre Nkurunziza à sua reeleição, e as primeiras manifestações em Bujumbura contra ela. Nas ruas, era possível encontrar ao mesmo tempo jovens e opositores. Membros do partido no poder e a ex-rebelião do CNDD-FDD (Conselho Nacional pela Defesa da Democracia-Forças de Defesa da Democracia) apoiavam também o movimento. Desde o início, a situação tem sido política, complexa, e não menos perigosa.

Em um ano, várias fases se sucederam. Primeiro, uma repressão cruel (sequestros, assassinatos, tortura) que esmagou o movimento de protestos nas ruas. Depois veio a organização de movimentos armados secretos, praticando também assassinatos direcionados. No intervalo, dia 13 de maio de 2015, um golpe de Estado foi conduzido por oficiais anti-Nkurunziza, ainda que originários do CNDD-FDD, no caso de alguns deles. Os conspiradores haviam contado, aparentemente, com setores do Exército que permaneceram ausentes ou discretamente lealistas.

Aura de mistério

O general Athanase Kararuza, vindo do ex-Exército tutsi, foi um desses. Não que ele tenha se tornado aliado do chefe do Estado. Pelo contrário, quando ele foi nomeado há alguns anos chefe do estado-maior das forças armadas ele descobriu, com verdadeiro desprazer, a existência de uma cadeia de comando paralela à qual ele não estava associado. Uma fonte que o conheceu bem atesta que ele mantinha seu acesso privilegiado ao presidente Nkurunziza e seus aliados. Recentemente, ele havia sido nomeado conselheiro militar junto ao vice-presidente Gaston Sindimwo, encarnando esses oficiais superiores tutsi que toleram um governo hutu, que permanecem leais às instituições, e talvez sejam um pouco velhos demais, de patente um pouco alta demais, para se envolverem em aventuras de forte potencial sangrento.

Mas, nos últimos meses, a lista de militares visados por assassinatos atingiu todas as partes de seu corpo de origem, ainda que cada morte permaneça cercada por uma aura de mistério. Por exemplo, o coronel Darius Ikurakure, um dos oficiais mais entusiastas dos abusos do governo, foi morto dentro do quartel-general, na hora do almoço, em março. A ação foi reivindicada pelo Forebu, um movimento de militares desertores oriundos tanto do antigo Exército tutsi quanto da ex-rebelião hutu. Já o tenente-coronel Emmanuel Buzubona, considerado "crítico" em relação ao governo, havia acabado de ser assassinado em Kinama.

O Exército, com exceção daqueles que entraram para um dos grupos rebeldes clandestinos, se manteve mais ou menos neutro, mas não de forma homogênea. Durante o período de paz instaurado em 2003, os elementos da rebelião hutu da época e do "Exército mono-étnico tutsi", seus inimigos durante a longa guerra civil (1993-2005), foram misturados, e um sistema de cotas étnicas instaurado para garantir a confiança mútua. Essa estrutura ainda não se desintegrou.

Aqueles que estão matando oficiais nas ruas de Bujumbura parecem bem decididos a colocar um fim a essa situação. Como ressalta uma fonte de confiança, "o número de militares sendo presos ou sequestrados aumentou. A cada semana há oficiais sendo sequestrados, torturados e às vezes assassinados". Consequentemente, segundo a mesma fonte próxima dos meios militares, "há o risco de ter novas saídas (deserções)."

De 2 a 5 de maio, na vizinha Tanzânia, estão previstas negociações entre o governo burundinês e a oposição, mas sem grandes esperanças. Enquanto isso, o país continua sua deriva. Na segunda-feira, a procuradora-geral do TPI (Tribunal Penal Internacional), Fatou Bensouda, anunciou a abertura de uma análise preliminar para determinar se os dossiês que ela conseguiu reunir sobre o Burundi, e que mencionam "assassinatos, prisões, torturas, estupros e outras formas de violência sexual", podem ser alvo de processos por sua jurisdição.

Tribunal Penal Internacional julga genocídios e crimes de guerra

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Tradutor: UOL

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