Às vésperas de 2º turno contra herdeira de Fujimori, "PPK" não desperta entusiasmo

Paulo A. Paranagua

  • Janine Costa/Reuters

    Pedro Pablo Kuczynski, o PPK, candidato a presidente do Peru, faz comício em Lima

    Pedro Pablo Kuczynski, o PPK, candidato a presidente do Peru, faz comício em Lima

Pedro Pablo Kuczynski, 77, conhecido como "PPK", candidato de centro-direita, disputará o segundo turno da eleição presidencial no Peru, no domingo (5), contra Keiko Fujimori, uma populista de direita de 41 anos. Esta última é filha do ditador Alberto Fujimori, que comandou o país entre 1990 e 2000, condenado a 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos e corrupção. Na última terça-feira (31), milhares de manifestantes protestaram em Lima contra o retorno do "fujimorismo".

Enquanto no primeiro turno, no dia 10 de abril, Keiko obteve duas vezes mais votos que PPK, seu rival a alcançou em intenções de voto em poucos dias: uma boa parte do eleitorado vê nele a barreira contra uma volta do autoritarismo.

"Kuczynski não foi para o segundo turno por causa de seus méritos, mas por falta de escolha", acredita David Sulmont, diretor do Instituto de Opinião Pública da Universidade Católica Pontifícia do Peru, em Lima.

Na televisão, o candidato não tem carisma, fala devagar e não desperta muito entusiasmo. "Falta estilo a ele, e não existe uma verdadeira equipe de campanha", acredita Sulmont.

A estrela do jornalismo peruano Gustavo Gorriti lamentou, em uma crônica, que PPK não tivesse herdado qualidades de seu pai. Maxime Kuczynski (1890-1967) foi um personagem pitoresco, que encontrou refúgio no Peru para escapar das perseguições antissemitas na Alemanha.

Especialista em medicina tropical, ele trabalhava no leprosário amazônico visitado pelo jovem Ernesto Che Guevara durante sua viagem de motocicleta, retratada no filme "Diários de Motocicleta", de Walter Salles, em 2004. A medicina social valera ao "Dr. Max" uma passagem pela prisão após o golpe de Estado, em 1948, de Manuel Odría.

Primo do cineasta Jean-Luc Godard, o jovem Pedro Pablo estudou flauta no conservatório e chegou a tocá-la em comícios de campanha, como se em uma tentativa de humanizar sua imagem pública mais austera de ex-ministro da Energia e da Economia e de ex-premiê (2005-2006). Ele é bastante reservado e, apesar de seu cosmopolitismo, seus conselheiros preferem ignorar a imprensa estrangeira.

Imagem de "gringo"

Gilbert Violeta foi um dos 18 parlamentares eleitos pela lista da PPK (Peruanos Por el Kambio, Peruanos pela Mudança), contra 73 "fujimoristas", durante as legislativas que acompanharam a eleição presidencial. Ele confessa ter uma "relação quase filial" com o candidato, que o procurou oito anos atrás, na universidade pública de San Marcos.

"Pedro Pablo tem um carisma diferente, que se baseia na inteligência e na capacidade de explicar questões complexas de maneira pedagógica", conta o jovem parlamentar. "Logo de cara fiquei impressionado com sua profunda sensibilidade social".

Mas essa não é a reputação de PPK, que é visto pela opinião pública como um representante da elite branca de Lima. O historiador Nelson Manrique pretende votar nele no domingo, mas o considera um "lobista das empresas e dos bancos americanos para quem ele trabalhou quando fugiu do regime militar do general Velasco Alvarado".

A imagem de gringo colou em PPK, ainda mais por ele ter conhecido suas duas esposas nos Estados Unidos e possuir dupla nacionalidade. Ele passou uma semana na América do Norte após o primeiro turno, algo duramente criticado pelos comentaristas.

Autor de seu programa econômico, Alfredo Thorne menciona a "jovialidade, o humor ácido e o desgosto pelos conflitos" de seu amigo e jura que não tem mais nenhuma ligação com grandes empresas.

Dito isso, a principal diferença entre Keiko Fujimori e PPK seria, segundo o analista financeiro Thorne, seu apoio ao setor privado: "Nem mais Estado, como propõe Keiko, nem privatizações, mas sim uma gestão mais eficiente dos serviços públicos".

"O Peru precisa de uma revolução social que permita que todos tenham acesso à água, à eletricidade e ao gás", declarou Kuczynski durante o segundo debate na TV, no domingo (29).

A idade de PPK poderia ser um impeditivo para um eleitorado que é bastante jovem.

"Os ex-presidentes Alan Garcia, Alejandro Toledo e o atual chefe do Estado, Ollanta Humala, foram eleitos quando jovens, como Keiko Fujimori", lembra a analista política Adriana Urrutia.

No entanto, de acordo com as sondagens, os jovens pendem mais para o lado de PPK.

O parlamentar Carlos Bruce, primeiro deputado peruano a assumir publicamente sua homossexualidade, foi reeleito pela lista de PPK. Segundo ele, a rejeição a Fujimori não explicaria sozinha a preferência dos jovens.

"Pedro Pablo é libertário ao mesmo tempo para a economia e os temas da sociedade," argumenta. "Ele apoiou minha proposta de união civil entre casais de mesmo sexo, assim como os direitos humanos, a inclusão das comunidades indígenas e afro-peruanas, dos deficientes e dos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros). Em compensação, Keiko é conservadora, ou até homofóbica, e considera os defensores dos direitos humanos como inimigos, responsáveis pela prisão de seu pai."

Em suma, a agenda "libertária" de PPK seria atraente para os jovens, segundo Bruce, que não é um apoiador fervoroso seu. Ele acredita que Kuczynski tenha cometido um erro ao apoiar a filha de Fujimori contra Ollanta Humala nas eleições presidenciais de 2011.

No entanto, "o principal desafio de PPK é reverter o mapa eleitoral do primeiro turno, no qual ele só se destacou em Lima e em Arequipa", ressalta o professor Sulmont.

Segundo a última pesquisa do Ipsos, Keiko o derrotaria com seis pontos de vantagem.

Tradutor: UOL

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