Jihadistas aprofundam a parceria no Norte da África

Carlotta Gall

No Deserto do Saara (Níger)

  • Carlotta Gall/ The New York Times

Um grupo de veículos blindados leves percorria a paisagem lunar do Saara, parte de um dos maiores destacamentos das Forças Armadas francesas posicionados aqui desde os tempos coloniais. Sua missão está se tornando cada vez mais urgente: bloquear as rotas de contrabando usadas pelos jihadistas, que transformaram este terreno inóspito em um vasto desafio à segurança tanto para forças africanas quanto internacionais.

Muitos dos grupos extremistas são afiliados à Al Qaeda, que tem raízes no Norte da África desde os anos 90. Com a recente introdução de afiliados do Estado Islâmico, o avanço jihadista é marcado por uma crescente concorrência, às vezes acalorada.

Mas, segundo analistas e oficiais militares, há também uma profunda colaboração entre os grupos, que usam comunicações modernas e um sistema sofisticado de treinadores para compartilhar táticas militares, estratégias de mídia e formas de transferência de dinheiro.

A ameaça deles vem crescendo à medida que a Líbia –com seus espaços não governados, petróleo, portos e proximidade da Europa e do Oriente Médio– se torna um centro movimentado de operações tanto para a Al Qaeda quanto o Estado Islâmico se aprofundarem na África.

E à medida que os jihadistas africanos passam a ficar sob a proteção de patrocinadores mais distantes e mais poderosos, as autoridades temem que possam estender seu alcance e unir suas ambições, transformando atores antes locais em ameaças pan-nacionais.

O ataque de 20 de novembro ao hotel Radisson Blu, que matou pelo menos 19 pessoas em Bamaco, a capital do Mali, foi apenas um dos mais espetaculares exemplos recentes da capacidade desses grupos de semear o caos mortal. Por toda a região, centenas de pessoas foram mortas em ataques terroristas no ano passado.

O general David M. Rodriguez, que chefia o Comando dos Estados Unidos para a África, alertou em uma declaração ao Congresso neste ano para uma "rede cada vez mais coesa de afiliadas e seguidores da Al Qaeda", que "continua explorando as regiões pouco governadas e fronteiras porosas da África, para treinamento e realização de ataques".

"Terroristas ligados a múltiplos grupos estão expandindo sua colaboração no recrutamento, financiamento, treinamento e operações, tanto dentro da África quanto fora", alertou Rodriguez meses antes do ataque em Mali.

A transferência de perícia pode ser testemunhada em uma onda de atentados a bomba suicidas na Líbia, Tunísia e Chade, e no crescente uso de dispositivos explosivos improvisados em Mali, apontaram analistas e oficiais.

Esse intercâmbio aumentou à medida que os grupos mudam, às vezes se fundem e passam a responder a patrocinadores mais poderosos e distantes.

Em um caso, dois dos mais antigos grupos norte-africanos, a Al-Qaeda no Magreb Islâmico e o Al Mourabitoun, após uma ruptura bem divulgada, anunciaram que se reconciliaram e que o ataque ao hotel em Bamaco foi o primeiro trabalho conjunto deles.

Mas as lealdades dos líderes dos dois grupos –Abdelmalek Droukdel e Mokhtar Belmokhtar, ambos argelinos– se estendem muito além da África.

Assim como as de Seifallah Ben Hassine, líder do Ansar al-Sharia na Tunísia, a organização supostamente por trás de três ataques mortais na Tunísia no ano passado, incluindo um massacre de 38 pessoas em um resort praiano em junho e um ataque em março ao Museu Bardo, em Túnis, que deixou 22 mortos.

Todos os três homens são veteranos dos combates no Afeganistão nos anos 80, juraram fidelidade a Osama Bin Laden e agora professam lealdade ao atual líder da Al Qaeda, Ayman al-Zawahri, baseado no Paquistão.

Droukdel, que teria sido expulso pelas forças francesas em Mali em 2013, estaria supostamente escondido nas montanhas no sul da Argélia. Belmokhtar e Ben Hassine montaram bases de retaguarda na Líbia, onde passaram a ser alvos de ataques aéreos americanos.

Hoje, apesar dos esforços franceses e americanos para desfazer suas redes, estas ainda se estendem pelo continente.

Para manter a pressão sobre os jihadistas e ajudar na resistência à ameaça, a França posicionou 3.500 tropas por 10 bases e postos avançados em cinco países vulneráveis –Mauritânia, Mali, Níger, Burkina Fasso e Chade. A recente patrulha francesa, pontos minúsculos na imensidão de dunas e rochas escuras do Saara, incluía caminhões de suprimentos de 30 toneladas transportando alimentos e combustível, veículos blindados equipados com canhão de 80mm e um caminhão médico.

Igualmente, as forças das operações especiais dos Estados Unidos estão trabalhando em Níger, e no ano passado o presidente Barack Obama enviou 300 tropas americanas a Camarões para ajuda na defesa contra o movimento islâmico nigeriano Boko Haram, que já se espalhou além das fronteiras da Nigéria.

As tropas francesas têm liderado repetidas operações que visam romper as linhas de comunicação e suprimentos da Líbia que fortalecem esses grupos. A operação de novembro faz parte de manobras coordenadas no leste de Mali e no norte de Níger que visam romper os elos jihadistas entre as duas nações.

A rota de contrabando patrulhada pelos franceses é uma das principais artérias de jihadistas, armas e drogas. As tropas francesas a chamam de "rodovia" para o sul da Líbia, que descrevem como sendo um "grande supermercado" de armas.

A rota cruza um dos locais mais remotos do planeta. Sem habitação humana ou água por centenas de quilômetros, trata-se de um terreno traiçoeiro de calor insuportável no verão e navegação quase impossível. Mas pequenos comboios de contrabandistas tentam a travessia várias vezes por semana.

Para os franceses, é como uma pequena embarcação no oceano, disse o tenente-coronel Étienne du Payroux, o oficial que comanda a operação em Níger.

"É como uma batalha naval", ele disse, esboçando a caçada nos mapas no capô de seu jipe do deserto. "A zona de operações tem 40 mil quilômetros quadrados, uma área do tamanho da Holanda, para 300 homens."

"Nós tentamos encontrá-los, bloqueá-los, restringi-los, tentamos determinar como serão guiados por um trecho específico do terreno", ele disse.

"Governos fracos e caos são sempre propícios para o terrorismo", disse Hans-Jakob Schindler, coordenador de um comitê do Conselho de Segurança da ONU que monitora a lista de sanções da Al Qaeda. "Esses grupos tiram proveito disso."

Com certeza, apesar das intervenções e dos esforços melhorados de segurança, novos grupos e recrutas continuam aparecendo. A Al Qaeda no Magreb Islâmico e seus afiliados permanecem ativos em Mali e patrocinam um novo grupo, a Frente de Libertação Massina, que surgiu nos últimos meses.

"Eles não precisam de muito, apenas serem determinados", disse o coronel Louis Pena, um comandante das tropas francesas em N'Djamena, Chade.

O maior alcance da Al Qaeda e a chegada do Estado Islâmico provocam novo alarme.

Apesar dos dois grupos serem rivais, essa concorrência pode representar um desafio significativo do ponto de vista mais amplo de segurança –à medida que os extremistas buscam provar seu poderio e relevância, inspirar e atrair recrutas, e atuar em um palco maior.

Em Madama, um oásis a cerca de 80 quilômetros do sul da Líbia, um forte de tijolos de barro, construído pelos franceses em 1931, guarda as proximidades do deserto no norte de Níger.

Nos últimos dois anos, os franceses construíram uma ampla base que faz o velho forte parecer diminuto, mas ele ainda é guarnecido por tropas nigerianas, assim como 300 tropas francesas, visando criar um tampão contra os avanços jihadistas a partir da Líbia.

Os soldados acompanham os franceses em suas missões, avançando em picapes surradas pelo terreno do deserto, assim como seus oponentes jihadistas. Muitos dos soldados locais passaram por seis meses de programas de treinamento promovidos pelas forças americanas. Mais ao leste, tropas chadianas protegem sua parte da fronteira.

Neste ponto solitário, os soldados franceses observam de seu posto de guarda a região arenosa vazia até a Líbia. Os comandantes franceses concordam que a raiz do problema está lá, e até que seja tratado, toda a região está ameaçada.

"Ainda são países frágeis", disse Pena. "São países que precisam de estabilidade para crescer e se desenvolver. Esse é o risco real."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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