Venda indiscriminada na China tem dizimado população de 'primo' majestoso do tubarão

Dan Levin

Em Cantão (China)

  • Adam Dean/The New York Times

    Mulher caminha por barracas que vendem ingredientes tradicionais usados na medicina chinesa em Guangzhou, na China

    Mulher caminha por barracas que vendem ingredientes tradicionais usados na medicina chinesa em Guangzhou, na China

Dependendo do ponto de vista da pessoa, o imenso mercado Quingping daqui oferece ou a maior seleção da China de ingredientes para cura natural segundo a medicina tradicional chinesa, ou uma vasta quantidade de carcaças dissecadas e desmembradas de animais, mascateadas por vendedores de produtos medicinais enganosos.

Dentro do labirinto de bancas são vendidas serpentes secas como cura para o câncer, assim como tonéis de escorpiões, supostamente para redução de febre, e pênis de cervos, anunciados como resposta para disfunção erétil.

Também são vendidos sacos plásticos cheios de guelras de raias-manta: filamentos emplumados de cartilagem que as raias-manta –primos majestosos do tubarão– usam para filtrar o plâncton da água do mar enquanto nadam. Os vendedores alegam que as guelras são uma panaceia testada pelo tempo para os males modernos, de que podem aumentar o leite materno, desintoxicar o sangue, curar catapora, amigdalite e limpar os pulmões dos fumantes.

"Não sei ao certo como funciona, mas se estiver doente e tomar em forma de sopa, você imediatamente se sentirá melhor", disse Ji Songcheng, 25, cuja loja estava repleta recentemente de embalagens de guelras pretas e bege de raias-manta, ao preço de cerca de US$ 165 (cerca de R$ 668) o quilo.

Mas o rápido declínio da população mundial de raias-manta pode fazer com que as guelras desapareçam em breve do mercado. Uma campanha salve as raias-manta parece estar estimulando a China a proibir o comércio de guelras.

Seria um raro sucesso em uma litania fora isso desastrosa de ruína ecológica associada à demanda pelo país por animais e plantas ameaçados de extinção.

Em parte por cultivar o apoio do governo, que geralmente detesta assumir a liderança em esforços de conservação, a campanha desenvolveu apoio popular e oficial ao fim da venda de guelras com uma mensagem grave: o comércio não está apenas ameaçando uma espécie vulnerável, mas também prejudicando os consumidores.

Os conservacionistas dizem que o comércio chinês de guelras de raias-manta aumentou durante a última década, alimentado por uma renascença da tradição, mas também por uma rede inescrupulosa de traficantes à procura de novas formas de lucrar com o apetite chinês por vida selvagem. A população mundial de raias-manta encolheu à medida que suas guelras começaram a se acumular nesta cidade do sul de clima agradável, lar de 99% do comércio, segundo a WildAid, um grupo de conservação baseado em San Francisco (EUA) que lançou a atual campanha em 2014.

Adam Dean/The New York Times
Guelras de raias-manta são vendidas em Guangzhou, na China

O grupo, que usa o slogan "Quando a compra terminar, a morte também terminará", liderou dois esforços semelhantes que foram bem-sucedidos em reduzir a demanda tanto por sopa de barbatana de tubarão quanto por marfim de elefante. As campanhas empregaram táticas como o uso de celebridades para explicar o elo direto entre o consumo de um ingrediente natural cobiçado e o efeito calamitoso sobre a vida selvagem ameaçada de extinção, um conceito antes em grande parte desconhecido na China.

Exatamente como uma superstição local marginal se transformou em poucos anos em uma indústria nacional, cujo valor a WildAid estima em US$ 30 milhões, é obscurecida pela natureza sombria do comércio. Mas pesquisadores dizem que o mercado deriva em grande parte do declínio da disponibilidade de barbatanas de tubarão, o que levou os traficantes de vida selvagem a procurarem por novas fontes de receita pela Ásia e além. Eles a encontraram nas guelras de raias-manta, um produto tão lucrativo que as vendas mais que dobraram entre 2010 e 2013, segundo o relatório da WildAid.

Como resultado, a pesca excessiva causou estragos não apenas na população mundial de raias-manta, mas também na indústria de turismo de US$ 140 milhões que depende delas. Em algumas áreas da Indonésia, o número de raias-manta caiu em até 94% em cerca de uma década, levando o governo a começar a prender pescadores em 2014 e a proibir toda a pesca de raias-manta na zona econômica exclusiva do país de 6 milhões de quilômetros quadrados.

Naquele mesmo ano, as raias-manta receberam as proteções ampliadas de acordo com a Convenção para o Comércio Internacional de Espécies da Flora e da Fauna Selvagens Ameaçadas de Extinção (Cites, na sigla em inglês). As proteções exigem certificados de que as raias-manta foram pescadas e importadas legalmente.

"Se você tiver uma licença e um barco, você pode sair para pescá-las", disse Meng Xianlin, o diretor-geral da autoridade de comércio de espécies ameaçadas da China. "Então você pode voltar e vendê-las."

O problema é que o comércio legal na China está motivando o tráfico ilegal. A loja de frutos do mar, bucho de peixe e barbatanas Li Sheng Ji em Cantão também vende guelras de raias-manta no site de comércio eletrônico Taobao. Todas as guelras vêm da Indonésia, apesar da proibição ali, segundo o proprietário, que disse apenas seu sobrenome, Li.

"Na China, as raias-manta não estão listadas como espécie ameaçada nem em primeiro, segundo ou terceiro nível", ele disse. "Logo, você não precisa se preocupar em ser preso após comprar guelras de mim."

Mesmo assim, os conservacionistas, citando a colaboração estreita com as autoridades chinesas, dizem estar esperançosos de que o comércio em breve acabará. Desde a listagem atualizada da Cites, o WildAid e outros grupos têm cooperado com a aduana chinesa e com agentes do ministério do meio ambiente para educá-los a respeito dos danos ecológicos provocados pelas vendas de guelras e para melhora de seus métodos de identificação de vida selvagem ameaçada.

"Desde que você não vilifique o governo, ele se mostra disposto a trabalhar junto", disse Shawn Heinrichs, um defensor da vida selvagem que trabalha com a WildAid. (Sarah Li, em Cantão, e Adam Wu e Mia Li, em Pequim, contribuíram com pesquisa)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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