Relação cultural entre a China e a Malásia evolui em passos rápidos

Tash Aw*

Em Kuala Lumpur (Malásia)

  • Reprodução/Facebook

    Shila Amzah

    Shila Amzah

Shila Amzah é uma estrela pop malaia famosa tanto por causa de seu estilo quanto por sua voz poderosa. Sua grande coleção de hijabs coloridos e chamativos a transformou num ícone da moda e num modelo para jovens muçulmanas de todo o país. Hoje em dia, contudo, ela canta principalmente em mandarim, e --como atestam seus 2,5 milhões de seguidores no site de microblogging chinês Weibo-- a maioria de seus fãs está na China continental.

Em um país desconfiado do Islã --o governo chinês tem um relacionamento turbulento com a minoria étnica uigur na província de Xinjiang--, a popularidade de Amzah, que beira o estrelato, é surpreendente. Xila, como é conhecida por seus fãs na China, é afável e descontraída na frente das câmeras, e dá entrevistas num mandarim impecável, depois de morar apenas dois anos na China.

No entanto, sua ascensão não é resultado somente de sua beleza, charme ou guarda-roupa, nem mesmo da perfeição com que canta as baladas românticas adoradas pelos chineses de todas as idades, mas também pela evolução rápida da relação cultural entre a China e a Malásia.

À medida que a China busca aumentar sua influência no Sudeste Asiático, sua presença não está mais confinada ao poder econômico e bases militares no disputado Mar do Sul da China, mas está se expandindo para as áreas da cultura, língua e educação. Ao fazer isso, a China reaviva relações de séculos com sua rede de antigos parceiros comerciais, como a Malásia.

A população chinesa da Malásia é uma aliada cultural natural para a China. Cerca de um quarto dos malaios --quase sete milhões de pessoas-- tem ascendência chinesa, descendente de uma diáspora de longa data. Os chineses começaram a chegar em grande número no século 19, como parte da política do governo colonial britânico de importar trabalhadores contratados para as minas de estanho e seringais do país.

No ano passado, os países fecharam o acordo de desenvolvimento Malaca-Guangdong, destinado a garantir a cooperação futura entre o Estado malaio e a província mais populosa da China em praticamente todas as áreas --desde o comércio e o investimento até a recuperação de terras e tecnologias sustentáveis, passando por museus e instituições educacionais. Embora o interesse primordial da China esteja no potencial de Malaca como uma parceira marítima --o Estado ocupa uma posição invejável no Estreito de Malaca, uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo--, o acordo também evidencia como os interesses da China estão se ampliando para além dos domínios tradicionais do comércio, estendendo-se para a cultura e a educação.

A parceria também foi pensada de forma a apelar para o senso histórico e de identidade da Malásia: Malaca foi o cenário das primeiras trocas comerciais e culturais significativas entre a China e a Malásia no século 15, quando os imperadores Ming forjaram alianças com os sultões de Malaca. Mais recentemente, Guangdong é a segunda província que mais envia imigrantes chineses para a Malásia, depois da província de Fujian, ao sul.

No norte de Malaca, em Salak Tinggi, no Estado de Selangor, a filial malaia da Universidade de Xiamen acaba de ser concluída. Esta é a primeira vez que uma universidade chinesa estabelece um campus no exterior, o que oferece um vislumbre claro das ambições da China. Mas a escolha da Universidade de Xiamen, o alicerce do ensino superior em Fujian, também simboliza a relação intrincada entre os dois países, já que a universidade foi criada em 1921 com fundos enviados de Malaya (como o país era então chamado) para a China por Tan Kah Kee, um imigrante de Fujian que fez fortuna na indústria da borracha.

Entre a população de etnia chinesa da Malásia, a influência da China sobre os gostos locais talvez esteja mais evidente na apreciação e no uso crescente do mandarim como língua cotidiana, e como um veículo para a cultura popular entre os jovens. Em Kuala Lumpur, uma cidade cuja população chinesa étnica vem em grande parte de uma comunidade cantonesa de séculos de existência com raízes na província de Guangdong, séries de TV chinesas em mandariam como "Red Sorghum" e "Reunion Dinner" estão ganhando popularidade rapidamente, em detrimento das novelas cantonesas produzidas em Hong Kong, que até recentemente dominavam a audiência em língua chinesa na Malásia. Estes programas, juntamente com noticiários e programas de entretenimento, disponíveis em uma série de canais transmitidos pela CCTV, a rede oficial da China, costumam estar inclusos nos pacotes de assinaturas de TV a cabo e via satélite da Malásia.

O mais impressionante foi a entrada do mandarim entre a maioria muçulmana da Malásia, principalmente através da música pop. Até agora, comunidade tinha pouco envolvimento com a cultura e a língua chinesas desde que a Malásia conquistou sua independência em 1957. Preparados ao longo da última década pelo sucesso de cantores de Taiwan como Wang Leehom e Jay Chou, que cantam em mandarim, jovens malaios de todas as origens agora acompanham com entusiasmo os programas de talentos da China continental como "Asian Wave" e "I Am a Singer".

Ambos tiveram a participação de Amzah: cantando principalmente em mandarim, ela ganhou um deles e ficou em terceiro lugar no outro. Como mais uma prova de como a música pop é importante para a mudança da imagem da China na Malásia, Xila --deslumbrante em seu hijab-- foi convidada para se apresentar para o presidente da China, Xi Jinping, durante a última visita dele à Malásia.

Ansiosa para fomentar as relações com os seus parceiros na região, a China está até mesmo incentivando um fluxo bidirecional de cultura. Sintonizando as estações de rádio locais recentemente, descobri um canal em malaio na Rádio Internacional da China. Esses programas são transmitidos por apresentadores chineses em um malaio impecável.

*Tash Aw é autor de três romances, incluindo o mais recente "Five Star Billionaire"

Tradutor: Eloise De Vylder

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos