Análise: Discussão sobre as armas deve ser baseada em evidências, não ideologias

Nicholas Kristof

  • AFP

Para aqueles que, como eu, argumentam em favor de leis de segurança em relação às armas, existem alguns fatos inconvenientes. 

Por vezes, nós liberais, somos loquazes em associar armas ao perigo. Na verdade, é complicado: o número de armas nos EUA aumentou em mais de 50% desde 1993 e, nesse mesmo período, a taxa de homicídios por tiros nos Estados Unidos caiu pela metade. 

Por outro lado, há as medidas que os liberais lutaram para aprovar, começando com a proibição de armas de assalto. Um estudo de 113 páginas não encontrou nenhuma indicação clara de que tal política tenha reduzido as mortes por tiros nos 10 anos em que vigorou. Isso porque a proibição foi mal redigida e porque, mesmo antes dela, as armas de assalto eram apenas 2% das armas usadas nos crimes. 

Passemos às leis em torno do porte aberto ou oculto: com cerca de 13 milhões de americanos podendo portar uma arma oculta, muitos liberais esperavam ver tiroteios eclodindo em toda parte. Na verdade, a análise mais rigorosa sugere que todas estas licenças para porte de armas não levaram a uma queda no crime (como tinham previsto os conservadores), nem um aumento de mortes (como esperavam os liberais). Os liberais estavam mais próximos da verdade, pois o aumento do porte de armas carregadas parece ter levado a agressões mais graves com armas, mas os receios eram exagerados. 

Um dos enigmas da política norte-americana é que a maioria dos eleitores quer maior regulação do porte de armas, mas o Congresso resiste. Uma pesquisa revelou que mesmo 74% dos membros da Associação Nacional de Rifles (NRA) são a favor da verificação completa de antecedentes no momento da aquisição de uma arma. Da mesma forma, a última pesquisa do "New York Times" descobriu que 62% dos norte-americanos aprovaram as medidas executivas relativas às armas tomadas pelo presidente Barack Obama neste mês. 

Então, por que nada é feito? Uma razão é que os liberais, muitas vezes, combatem os proprietários de armas de tal forma que fortalecem inadvertidamente a NRA, com uma postura arrogante, condescendente e espetacularmente mal informada sobre as armas que desejam regulamentar. Um clássico da ignorância em relação às armas: Nova York aprovou uma lei, há três anos, que proíbe carregadores com mais de sete cartuchos -sem perceber que para a maioria das armas não existe carregadores de sete cartuchos ou menos. 

E cada vez que os liberais falam levianamente sobre a proibição de armas, eles impulsionam a NRA. Devemos banir o termo "controle de armas"; seria mais adequado dizer "segurança de armamentos". 

No entanto, isso também deve ser dito: os americanos têm toda razão de ficarem ultrajados com o número de mortes por armas. Desde 1970, mais americanos morreram por armas do que todos os americanos mortos em guerras desde a Revolução Americana (cerca de 1,45 milhão contra 1,40 milhão). Esse total inclui suicídios, homicídios e acidentes. Atualmente, isso equivale a 92 corpos por dia. 

Nós gastamos bilhões de dólares combatendo o terrorismo, que matou 229 americanos em todo o mundo entre 2005 e 2014, de acordo com o Departamento de Estado. Nos mesmos 10 anos, cerca de 310 mil americanos morreram por armas de fogo, incluindo suicídios. 

É claro que devemos tentar reduzir esta carnificina. Mas precisamos de uma nova estratégia, uma abordagem de saúde pública que trate as armas como trata os carros –tomando medidas baseadas em evidências para torná-las mais seguras. Parece ser isso o que Obama está tentando fazer. 

As pesquisas sugerem que a medida prática mais importante seria a de manter as armas longe de indivíduos de alto risco, como criminosos, alcóolatras, ou aqueles que espancam seus parceiros. 

Isso significa verificações de antecedentes completos para que alguém adquira uma arma. Uma nova pesquisa de Harvard confirma uma conclusão antiga, de que 40% das armas de fogo nos Estados Unidos são adquiridas sem verificação de antecedentes. Isso é loucura. Por que permitir que os criminosos se armem? 

Algumas evidências dão base para medidas de senso comum. Mais de 10% dos homicídios nos Estados Unidos, por exemplo, são de parceiros íntimos. O momento de maior risco, muitas vezes, é depois de uma separação violenta, quando a mulher consegue uma ordem de restrição contra seu ex. Um estudo revelou que a proibição de pessoas que estejam sob ordem de restrição possuam uma arma reduz esses assassinatos em 10%. 

"É muito importante evitar que a pessoa tenha acesso a uma arma em um momento de ameaça", observa Daniel W. Webster, especialista em segurança de armas da Universidade Johns Hopkins, que foi pioneiro em pesquisas para evitar que indivíduos de alto risco tenham armas. 

Algumas abordagens de saúde pública para reduzir a violência armada nada têm a ver com armas. Os pesquisadores descobriram que uma organização sem fins lucrativos chamada Cure Violence, que trabalha com gangues, reduz o número de mortes por disparos. Uma iniciativa chamada Fast Track apoia crianças de alto risco e reduz a delinquência e crimes entre adultos. 

Em suma, devemos ser mais espertos. Tornar as batalhas nos EUA menos ideológicas e mais impulsionadas pelas evidências. Se a esquerda deixar de lado a hipocrisia, e a direita puder deixar de lado o obstrucionismo; se, em vez de lutarmos uns com os outros, pudermos lidar com os fatos, podemos salvar milhares de vidas por ano.

Tradutor: Deborah Weinberg

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos