Escalada para Rio-2016, esgrimista abre portas do esporte para muçulmanas nos EUA

Victor Mather

George El Khouri Andolfato

  • Hiroko Masuike/The New York Times

    Ibtihaj Muhammad, esgrimista muçulmana dos eua que vai competir nos Jogos do Rio

    Ibtihaj Muhammad, esgrimista muçulmana dos eua que vai competir nos Jogos do Rio

Uma viagem aos Jogos Olímpicos, um encontro com o presidente e uma medalha de ouro potencial; tudo isso começou com uma placa de "pare" em Maplewood, Nova Jersey. 

Ibtihaj Muhammad praticou muitos esportes enquanto crescia, incluindo softbol, tênis, atletismo e vôlei. Mas como sua fé muçulmana exige que seus braços e pernas permaneçam cobertos, sua mãe, Denise, ajustava regularmente os uniformes, adicionando calças stretch para o atletismo e de moletom para o vôlei. 

"A missão de meus pais era encontrar um esporte sem alteração", disse Ibtihaj Muhammad. 

Quando ela tinha 13 anos, e naquela placa de "pare", a mãe dela notou através de grandes janelas um grupo de esgrimistas se exercitando no refeitório da Columbia High School. Denise viu o suficiente.  "Estão totalmente cobertos", ela disse. "Você deveria experimentar isso." 

Dezessete anos depois, Ibtihaj Muhammad não é apenas uma esgrimista consumada, mas também uma atleta olímpica, tendo garantido sua participação em um torneio em Atenas neste mês. Na semana passada, ela se encontrou com o presidente Barack Obama. 

"Meus pais não nos deram escolha sobre a prática de esportes, mas sim a respeito de que esporte praticar", disse Muhammad, a terceira dentre cinco filhos. A mãe dela "via os esportes como uma forma de ficar de olho em nós das 15h às 17h", ela acrescentou. 

Muhammad acabou cursando a Columbia High School e competia com a espada, uma das três armas usadas na competição olímpica. Quando os astros de sabre da equipe se formaram, o técnico dela a encorajou a trocar de arma, mas ela relutou. No final, ela se mostrou muito melhor com o sabre. 

As armas diferem na lâmina e na pegada. Os sabres marcam pontos com o corte da lâmina e não apenas com a ponta, e a espada tende a ser movida mais em movimentos de corte. A competição de sabre é a que mais se parece com os combates de espada que alguém veria em um velho filme de Errol Flynn. 

"É uma representação mais próxima de quem sou", disse Muhammad. "É muito agressiva, que é como sou." 

As disputas de sabre com frequência duram apenas cinco minutos, em vez dos 15 que as de espada podem durar. "A quantidade de tempo que você dispõe para processar o que está acontecendo é muito menor", disse Muhammad. Quando ela lutava com a espada, ela disse, "eu tinha dificuldade em permanecer acordada". 

Muhammad passou a praticar esgrima na Duke, onde se especializou em relações internacionais e estudos africanos, com cadeira secundária em árabe. 

Acredita-se que ela seja a primeira atleta olímpica americana de qualquer modalidade a competir usando hijab, o lenço de cabeça que cobre seu cabelo. Usá-lo sob o uniforme de esgrima "nunca foi algo em que realmente pensei", ela disse. 

"Me perguntam muito sobre isso", acrescentou Muhammad. "As pessoas perguntam o tempo todo às mulheres muçulmanas sobre isso, e não apenas às atletas. Tipo, você não sente calor? Em um dia quente, você mesmo assim veste camisa e calças. Eu não sairia de casa sem ele." 

Muhammad competirá no Rio de Janeiro nos eventos de sabre individual e por equipe. (A equipe será anunciada formalmente em abril.) 

Os eventos de equipe na esgrima costumam entrar e sair dos Jogos Olímpicos; não houve evento por equipe no sabre feminino em 2012, uma decepção para as americanas, que tinham conquistado a medalha de bronze no mundial em 2011, com Muhammad na equipe. As regras olímpicas permitem um máximo de duas americanas no evento individual, o que deixou Muhammad de fora. 

As americanas continuaram brilhando no sabre feminino de lá para cá, tendo conquistado até agora cinco medalhas consecutivas por equipe em mundiais, incluindo a de ouro em 2014. Muhammad participou de todas as cinco equipes, o que lhe dá uma grande chance de medalha olímpica no Rio. 

A equipe é liderada por Mariel Zagunis, a maior esgrimista na história americana, ganhadora das medalhas de ouro olímpicas individuais em 2004 e 2008 e ainda uma das melhores do mundo. Rússia e Ucrânia são as principais adversárias. 

As realizações de Muhammad fizeram com que fosse convidada quando Obama fez sua primeira visita como presidente a uma mesquita americana na semana passada, em Baltimore. Muhammad estava entre os muçulmanos americanos proeminentes que foram convidados para participar de uma mesa redonda com o presidente antes de seu discurso. 

O tema era "as várias preocupações das pessoas dentro da comunidade muçulmana, como a islamofobia, o encarceramento em massa, a retórica antimuçulmana", disse Muhammad. "Eu falei sobre minhas experiências como membro de uma minoria na equipe americana." 

Muhammad está feliz por sua mãe ter notado os esgrimistas no refeitório naquele dia. 

"Em um sábado, é possível ver cerca de 200 crianças aqui aprendendo esgrima", ela disse no Fencers Club, no centro de Manhattan. "O esporte dá às garotas um senso de confiança que é muito difícil de encontrar nesta sociedade." 

 

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