Opinião: Síria, a vergonha dos EUA

Roger Cohen

Em Washington (EUA)

  • Abdalrhman Ismail/Reuters

    Homem vendendo pão passa por destroços de bombardeios em Aleppo, na Síria

    Homem vendendo pão passa por destroços de bombardeios em Aleppo, na Síria

A política de Putin na Síria é bastante clara enquanto prossegue o cerco a Aleppo, nas mãos de rebeldes, e mais dezenas de milhares de sírios fogem em direção à fronteira turca. É entrincheirar o brutal governo de Bashar al-Assad, controlando a parte útil do território sírio, bombardear a oposição moderada até a submissão, bloquear qualquer possibilidade de mudança de regime instigada pelo Ocidente, usar o blablablá diplomático em Genebra para encobrir a mudança de fatos no local e, talvez em quinto ou sexto lugar na lista, reforçar o Exército sírio ao ponto de que um dia possa enfrentar o bastião jihadista assassino do Estado Islâmico.

O problema é que a política de Putin para a Síria ficou difícil de distinguir da política de Obama.

Certo, o governo Obama ainda respeita a ideia de que Assad faz parte do problema e não da solução, e que se o líder sírio sobreviver durante algum período de transição política não poderá continuar depois dele. Mas isso são palavras. São o presidente Vladimir Putin e a Rússia que estão "fazendo o clima" na Síria, na ausência de algum compromisso correspondente ou política articulável do presidente Obama.

Aleppo, a maior cidade síria, hoje está virtualmente cercada pelo Exército sírio. Uma guerra que já deixou 250 mil mortos, mais de 4,5 milhões de refugiados, cerca de 6,5 milhões deslocados internamente e a desestabilização da Europa por meio do influxo maciço de pessoas aterrorizadas, está prestes a ver novas abominações enquanto Aleppo agoniza.

Aleppo poderá ser a Sarajevo da Síria. Já é a Munique.

Com isso quero dizer que a luta da cidade hoje, sua exposição aos caprichos de Putin e aos desígnios impiedosos revivificados de Assad, é consequência da ineficácia e da falta de objetivo durante mais de cinco anos do governo Obama.

O presidente e seus assessores se esconderam em diversas ocasiões por trás das ideias de que a Síria é marginal para os principais interesses americanos; que eles avaliaram os lados negativos da intervenção, mais que outros; que os diversos atores no local são incompreensíveis ou inconfiáveis; que não há apoio doméstico ou do Congresso para tentar deter a guerra ou moldar seu resultado; que não há base legal para estabelecer "áreas seguras" ou tirar o poder aéreo de Assad; que o Afeganistão e o Iraque são lições sobre a inutilidade de projetar o poderio americano no século 21; que a Síria provará ser o Afeganistão da Rússia ao enfrentar a ira do mundo sunita; e que o único imperativo, seja qual for a escala do sofrimento ou a completa evisceração da credibilidade americana, deve ser evitar uma nova guerra no Oriente Médio.

Aonde levam essas frágeis evasões mascaradas de estratégia é à política dos EUA se tornar a política de Putin na Síria, à bizarra aquiescência a que Moscou encerre o jogo e a um encolher de ombros embaraçado, que esconde o desejo de que --talvez, de alguma forma, com um pouco de sorte-- Putin consiga esmagar o EI.

A agonia síria de Obama, seus constantes "e se" e os recorrentes "e então?" também levaram às chacinas em Paris e San Bernardino. Eles contribuíram para um potencial desmembramento do núcleo da UE conforme as fronteiras internas eliminadas em um continente livre são restabelecidas como reação a uma interminável maré de refugiados --à qual os EUA responderam abrigando cerca de 2.500 sírios desde 2012, ou cerca de 0,06% do total.

"A crise síria é hoje uma crise europeia", disse-me um diplomata europeu graduado. "Mas o presidente não está interessado na Europa." Essa é uma avaliação justa do primeiro líder americano do pós-guerra para o qual a vital aliança transatlântica foi algo a ser mantido como um dever, mais que abraçado com emoção.

A Síria é hoje a vergonha do governo Obama, uma debacle de tais dimensões que poderá obscurecer as conquistas internas do presidente.

A decisão de Obama em 2013, em um momento em que o EI mal existia, de não manter a "linha vermelha" americana sobre o uso de armas químicas por Assad foi um momento de inflexão em que ele solapou a palavra dos EUA, incorreu na fúria duradoura dos aliados sunitas do Golfo, reforçou Assad ao não o submeter a sérios ataques punitivos e abriu caminho para Putin determinar o destino da Síria.

A política de Putin é a política americana porque os EUA não ofereceram uma alternativa séria. Como escreveu T.S. Eliot depois de Munique em 1938, "Não podíamos equiparar convicção com convicção, não tínhamos ideias com as quais pudéssemos enfrentar ou nos opor às ideias que se opunham a nós". A Síria foi o cemitério sangrento da convicção americana.

É tarde demais, assim como pura ilusão, para esperar uma mudança significativa na política de Obama para a Síria. A agonia de Aleppo irá até o fim.

Mas o presidente deveria pelo menos fazer tudo o que está ao seu alcance, como foi sugerido em um relatório preparado por Michael Ignatieff, da Escola Kennedy de Harvard, para aumentar o número de refugiados sírios recebidos neste ano para 65 mil, em vez dos 10 mil propostos. Como nota o relatório, "Se permitirmos que o medo dite as políticas, os terroristas vencerão".

Putin já venceu.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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