Merkel "pagará o pato" por ter feito a coisa certa?

Roger Cohen

Em Berlim

  • Zsolt Szigetvary/EFE

    4.set.2015 - Refugiado usa imagem da chanceler alemã, Angela Merkel, pendurada no pescoço enquanto deixa Budapeste, na Hungria, em direção à Alemanha

    4.set.2015 - Refugiado usa imagem da chanceler alemã, Angela Merkel, pendurada no pescoço enquanto deixa Budapeste, na Hungria, em direção à Alemanha

O ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder deu recentemente seu veredicto sobre a decisão de Angela Merkel de abrir as portas para um número ilimitado de refugiados: Ela tem um "coração, mas nenhum plano".

Essa visão sobre a atual chanceler vai ganhando força à medida que refugiados sírios não param de chegar. Autoridades locais estão no limite dos esforços. Bilhões de euros já foram gastos.

A identidade de dezenas de milhares de pessoas permanece desconhecida, levantando preocupações quanto à segurança. Colônia se tornou um símbolo dos temores sobre como um grande fluxo de homens muçulmanos afetarão o espaço das mulheres na sociedade alemã.

Três importantes eleições estatais estão previstas para o próximo mês. Parece inevitável que o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha cresça de forma significativa. O apoio de Merkel despencou. Uma pesquisa feita este mês mostrou que 46% dos alemães a apoiam, ante 75% em abril do ano passado. Ela pode ficar vulnerável, e uma Europa sem Merkel afundaria.

Então por que essa prudente chanceler fez isso? Porque ela é uma alemã, e ser alemão é carregar uma responsabilidade especial por aqueles que, aterrorizados, foram forçados a fugir de sua pátria. Porque ela já chegou a viver em um país, a Alemanha Oriental, que atirava em pessoas que tentassem cruzar sua fronteira. Porque um milhão de pessoas à deriva teriam arremessado a Europa em um caos. E, sim, porque ela tem coração.

Merkel fez o certo. Mas a Alemanha não pode receber mais um milhão de refugiados em 2016. Como o presidente da Alemanha, Joachim Gauck, disse recentemente, "uma estratégia de limitação pode ser necessária tanto do ponto de vista moral quanto político para preservar a capacidade de funcionamento do Estado."

Mas estabelecer limites não é só uma questão da Alemanha. É uma questão da Síria. É uma questão da Turquia. É uma questão da Rússia. É uma questão dos Estados Unidos. É uma questão da Europa. 

Merkel precisa que a Europa tenha uma fronteira externa ativa se ela quiser permanecer sem fronteiras dentro da zona de Schengen com suas mais de 20 nações. "Sem fronteira europeia, sem Schengen!", me disse Thomas Kleine-Brockhoff, conselheiro-chefe de Gauck.

Ela precisa que a guerra na Síria termine, mas o mais recente plano dos Estados Unidos e da Rússia para o fim das hostilidades parece fraco. Ela precisa que a Turquia, em troca de bilhões de euros, controle o êxodo dos refugiados. Mas a Turquia está jogando um jogo de extorsão.

Gordon Welters/The New York Times
O histórico aeroporto de Tempelhof, em Berlim, tornou-se um centro para refugiados

Na Rússia, ela precisa da cooperação do presidente Vladimir Putin, mas a estratégia dele é minar uma Europa unida, e um fluxo "armado" de refugiados consegue justamente isso.

Dmitri Medvedev, o primeiro-ministro russo, declarou em Munique no último fim de semana: "Estamos nos encaminhando rápido para um período de uma nova Guerra Fria". E perguntou: "Estamos em 2016 ou 1962?"

Em torno de Aleppo, uma miniguerra mundial se desdobra.

Merkel precisa que os Estados Unidos estabeleçam uma área segura no norte da Síria e coloquem pressão sobre a Turquia, do contrário a insustentável atual situação persistirá. Se os Estados Unidos não estão preparados para reverter os avanços russos e iranianos na Síria, eles precisam ajudar a administrar as consequências.

O conceito europeu não se via fragilizado dessa maneira desde que a marcha pela unidade começou nos anos 1950. A Alemanha está repleta de "Putinversteher", que são basicamente simpatizantes de Putin, como Schroeder.

Michael Naumann, um ex-ministro da Cultura, me contou: "Os Estados Unidos nos abandonaram; somos as crianças órfãs no playground, e tem um valentão, o Putin. É simples assim."

Se o estratagema para os refugiados de Merkel der errado, as reverberações serão sentidas em toda parte. O país está em estado de tensão.

Uma mulher me contou sobre como uma vez, na classe de sua filha, o celular de uma refugiada síria de 15 anos tocou. O toque era o chamado de um muezim para as orações, e a professora soltou: "Daqui a pouco você virá com um cinturão de explosivos!" Houve constrangimento geral, com pedidos de desculpas e cartas de pais.

Fui até Nauen, uma sombria cidade perto de Berlim onde é alta a taxa de desemprego. Em agosto, um ginásio que iria abrigar refugiados foi incendiado. O esqueleto carbonizado do prédio, com seus pilares escurecidos, continua de pé. Está prevista a construção de um novo centro de emergência para refugiados ali perto, com vista para esse violento símbolo de ódio. Nauen está com os nervos à flor da pele.

A escala do desafio da Alemanha fica evidente no aeroporto de Tempelhof, em Berlim, construído pelos nazistas, e usado em 1948 e 1949 para o Bloqueio de Berlim. Ali já há 2.600 refugiados, que podem chegar a 7 mil.

Falei com dois jovens refugiados de Aleppo, Mahmoud Sultan e Mulham (que preferiu não dar seu sobrenome). Eles não queriam ir embora. Mas, como Mulham colocou, "Você tem essa esperança de que a guerra vai acabar. Por um, dois ou três anos, você fica com essa esperança. Você pensa, devo algo a meu país e vou ficar. Até que no quinto ano você percebe que há cinco guerras acontecendo! Os rebeldes contra Assad, o Estado Islâmico contra o Exército Livre da Síria, os sauditas contra o Irã, os curdos contra o Estado Islâmico, e a Rússia contra os Estados Unidos! E daí você perde a esperança".

Merkel precisa que essas guerras diminuam em intensidade, e que os aliados ocidentais se unam com um tanto da determinação que Tempelhof simboliza, se ela quiser acalmar a Alemanha, manter a Europa unida e sobreviver. Isso exigirá uma liderança que hoje se encontra escassa na caixa de ressonância da mídia social desses tempos sinistros.

Tradutor: UOL

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