Prefeito dos EUA cria "missão" paralela para ajudar imigrantes cubanos

Liz Robbins

  • Angel Franco/The New York Times

O dr. Felix Roque estava impaciente. No final de dezembro, Roque, um especialista em dor e prefeito de West New York, Nova Jersey, cancelou seus compromissos e tomou um avião para a Costa Rica. 

Ele era um homem em uma missão pessoal: milhares de imigrantes cubanos se acumularam na América Central, na esperança de usar uma peculiaridade da lei de imigração da época da Guerra Fria para entrar nos Estados Unidos. A intenção dele era abrir o caminho. 

Enquanto as autoridades do governo pedem paciência e as agências internacionais de refugiados dizem estar trabalhando em uma solução, Roque, que nasceu em Cuba, interveio, gastando mais de US$ 200 mil do próprio bolso para ajudar mais de 150 cubanos em rota para os Estados Unidos, trazendo inclusive 10 para Nova Jersey, com mais a caminho. 

Roque até mesmo deu um nome à sua agência improvisada de refugiados –a chamando de "La Ruta de Roque", ou "A Rota do Roque". "Não posso esperar pela burocracia", disse Roque, 59 anos, em sua clínica neste mês. "Se você não pode ajudar essas pessoas, deixe-me tentar." 

Mas as autoridades do governo e internacionais de refugiados na Costa Rica veem a ação de Roque como uma interferência, dizendo que ele está sabotando o sistema de refugiados. Roque critica a lentidão do governo e tem pago do próprio bolso por alimentos, abrigo e medicamentos para os imigrantes, assim como passagens de ônibus para aqueles que ficaram sem dinheiro ao cruzarem a fronteira nos Estados Unidos. 

"Eu saltei na água sem saber do que se tratava", disse Roque, que chegou a Nova Jersey quando tinha 11 anos. "Tendo Deus como testemunha, eu não tinha ideia do que estava fazendo e improvisei." "Sei que sou louco", ele acrescentou, mostrando as mensagens de texto de agradecimento de cubanos, "mas no final, realmente acredito que estou fazendo uma diferença".

Mas alguns dizem que ele está causando mais problemas do que ajudando. 

Roeland de Wilde, o chefe da missão na Costa Rica da Organização Internacional para as Migrações, disse que os esforços de Roque por meio de uma terceira parte –uma agência de viagens costarriquenha– não são coordenados com as autoridades de migrações e nem com as autoridades de gestão de emergência. Ele disse que falou com Roque em dezembro e pediu a ele que enviasse uma mensagem aos cubanos para que aguardassem pela ação do governo. 

No início deste mês, o governo costarriquenho acertou com o governo mexicano para que os imigrantes cubanos fossem levados de avião para o México e de lá, levados de ônibus para a fronteira com os Estados Unidos. 

Após uma disputa com o agente usado por Roque em torno do preço dos voos, as autoridades costarriquenhas disseram em uma coletiva de imprensa, na semana passada, que o governo não estava lucrando com eles e pediu aos imigrantes cubanos que tomassem os voos oficiais, caso contrário o programa seria cancelado. Os voos desde então passaram a estar lotados. 

A atual onda de imigração cubana se deve à Lei de Ajuste Cubano de 1966: se os cubanos botarem os pés em solo americano, eles têm direito a residência permanente um ano e um dia depois. Mas se forem pegos na água –viajando de barco para a Flórida– são obrigados a retornar para Cuba. 

À medida que as relações entre os dois países começaram a se normalizar a partir de 2014, alguns cubanos passaram a temer o fim de seu status especial, de modo que milhares decidiram partir. Incapazes de requerer diretamente visto para os Estados Unidos, muitos voaram para o Equador, passando de um país a outro por terra na direção norte, até o Texas. Mas os governos da América Central não estavam preparados para a invasão. Em dezembro, o Equador passou a exigir vistos de viagem. 

Alonso Alan Correa, 39 anos, o vice-prefeito de La Cruz, Costa Rica, disse que no pico da imigração, sua cidade de 7 mil habitantes absorveu 4 mil imigrantes cubanos, muitos dos quais estavam dormindo em tendas em quadras de basquete. Ele apreciou as doações de alimentos por Roque. 

"Nós tínhamos e temos uma situação que é complexa de lidar, de modo que apreciamos quando as pessoas ajudam de qualquer forma", disse Alan em espanhol, por meio de um intérprete. "Sinto que Roque tem a melhor das intenções. Presumo que ele tenha feito algumas declarações criticando a forma como os cubanos foram tratados; isso é o que pode ter irritado algumas pessoas." 

Sentado sob uma pintura quase em tamanho real de si mesmo em seu gabinete, Roque rejeitou as sugestões de que seu esforço humanitário cubano seja um projeto por vaidade visando recuperar sua imagem. 

Em Honduras, ele conseguiu passagens de ônibus para 130 pessoas para a Guatemala e depois para o México. Na Costa Rica, ele pagou para que 38 pessoas dormissem em quartos de hotel para escaparem dos campos. Lá, ele atendeu doentes e feridos, incluindo um menino de 5 anos, Samuelito, que precisava urgentemente de seu remédio para o coração. 

Neste mês, disse Roque, ele acompanhou 32 cubanos em um ônibus que fretou para cruzar a fronteira do México para Laredo, Texas. Samuelito estava nele; Roque arranjou consultas para ele em cardiologistas em Nova Jersey. 

Até o momento, apenas uma dúzia de cubanos se estabeleceu em North Hudson County, antes um ímã para imigrantes cubanos que trabalhavam em suas fábricas de bordados e apelidada de "Havana no Hudson". Essa distinção desapareceu juntamente com as fábricas, e agora, disse Roque, a maioria dos cubanos segue para cidades de clima mais quente. 

Uma família de três se mudou para Cliffside Park, Nova Jersey, lar da assistente de Roque, Pilar Montero, a diretora de fato da La Ruta de Roque, conhecida como Mapi. Yeleine Céspedes Fernandez, 29 anos, que estudou enfermagem em Cuba, detalhou sua jornada perigosa de seis meses por nove países acompanhada de sua prima, Liliana Borges Fernandez, uma advogada, e sua mãe, Nolvis Fernandez Garcia. 

Céspedes se apresentou a Montero no campo de refugiados e, três semanas depois, após chegarem a Brownsville, Texas, Roque pagou pelas passagens de ônibus delas para Nova Jersey. "Sou eternamente grata", disse Céspedes. "Se dependesse do dr. Roque e de Mapi, eles trariam todos os cubanos para cá." 

O site de arrecadação de fundos para o La Ruta de Roque levantou apenas US$ 1.325 (cerca de R$ 5.340). 

A esposa de Roque está grávida de seis meses e ele reconheceu que ela não está contente com suas viagens improvisadas. Ele chama a si mesmo de "maníaco", um multitarefas inveterado atualmente obcecado com os refugiados cubanos. 

"Estou trabalhando para um sujeito maluco", disse Montero, 53 anos, uma produtora de televisão e assessora de imprensa nascida no Chile. "Mas quantas pessoas dependem dele no momento?" ela acrescentou, apontando para a família Fernandez ao seu lado.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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