Uma verdade conveniente sobre o comércio eletrônico: seu custo ambiental

Matt Richtel

  • Jim Wilson/The New York TImes

    Embalagens enchem latas de lixo reciclável em San Francisco, nos EUA

    Embalagens enchem latas de lixo reciclável em San Francisco, nos EUA

Ruchit Garg, um empreendedor do Vale do Silício, diz temer que algo não esteja certo em seu hábito de compras pela Internet. A cada nova entrega à sua porta –às vezes várias por dia– ele enfrenta a fonte de sua culpa e frustração: outra caixa de papelão.

Então, quando abre a entrega, com frequência ele se depara com uma verdadeira boneca russa de caixas dentro de caixas para proteção de seus aparelhos eletrônicos, desodorante, roupas ou compras de mercado. Garg sempre separada o material para reciclagem, mas compartilhou recentemente suas preocupações pelo Twitter.

Um punhado de cientistas e autores de políticas estão pensando na mesma questão, no efeito a longo prazo de uma economia que se apoia cada vez mais na gratificação instantânea. Esse ciclo leva os consumidores a esperarem que até mesmo seus desejos mais modestos possam ser satisfeitos como necessidades urgentes, e nem sempre se sentem bem a respeito disso.

A nova corrida armamentista entre os varejistas de Internet é velocidade, fazendo com que o velho comercial da Federal Express --"Quando absoluta e positivamente precisa estar lá na manhã seguinte"-- parecer tão exótico quanto uma entrega por cavalo e carroça.

A Amazon se gabou em um comunicado de imprensa em dezembro sobre sua "entrega mais rápida de pedido até o momento" –um cliente de Miami que ansiava por uma embalagem de quatro frappuccinos de baunilha do Starbucks, que foi atendido em exatos 10 minutos.

Em 10 grandes regiões, o Google Express entrega em menos de duas horas itens de dezenas de lojas –incluindo brinquedos, medicamentos, ferragens e produtos para animais de estimação. A Postmates, uma nova empresa de San Francisco, promete entregas em menos de uma hora. Ela entregou quase um milhão de pacotes em dezembro.

Ao todo, o setor de comércio eletrônico de US$ 350 bilhões dobrou nos últimos cinco anos, com a Amazon determinando o ritmo. Seu serviço Prime para associados cresceu para mais de 50 milhões de assinantes, segundo uma estimativa. (E seu serviço mais rápido, Prime Now, "entrega aos clientes quase tudo em minutos", diz seu site.)

O Uber chama seu novo serviço UberRush de "sua frota de entrega por demanda"; a Jet Delivery oferece serviço especial em menos de duas horas; a Instacart pode entregar compras de mercado à sua porta em menos de uma hora.

O custo ambiental pode incluir a caixa de papelão adicional –35,4 milhões de toneladas de embalagens de papelão foram produzidas em 2014 nos Estados Unidos, com as empresas de comércio eletrônico entre os usuários que mais crescem– e as emissões dos cada vez mais personalizados serviços de transporte.

Jim Wilson/The New York Times
Ruchit Garg com produtos adquiridos online em Sunnyvale, na Califórnia (EUA)

"Há toda uma frota de caminhões circulando ininterruptamente pelos bairros", disse Dan Sperling, diretor fundador do Instituto de Estudos de Transportes da Universidade da Califórnia, em Davis, e um especialista em transportes do Conselho de Recursos do Ar da Califórnia.

Ele também está supervisionando uma nova força-tarefa estadual envolvendo empresas de transporte e autoridades do governo para tentar reduzir as emissões da frota, que inclui as entregas do comércio eletrônico.

Sperling disse que os consumidores têm tanta responsabilidade pelo custo ambiental das entregas quanto as empresas que fornecem os serviços velozes.

"Do ponto de vista da sustentabilidade, estamos caminhando na direção errada", ele disse.

Mas medir o efeito da economia do papelão é mais difícil.

Por exemplo, há possíveis compensações. Quando as pessoas compram mais online, elas podem usar menos o carro. E os serviços de entrega têm um incentivo imenso em encontrar as rotas mais eficientes, reduzindo seus custos de combustível e emissões.

Por sua vez, a Amazon disse que a entrega aos consumidores diretamente dos depósitos reduz a necessidade de redistribuição a milhares de lojas.

Até o momento, entretanto, os consumidores parecem estar comprando online e ainda dirigindo até as lojas físicas tanto quanto no passado, segundo Sperling e outros acadêmicos.

Um estudo recente explorou o efeito ambiental das compras pela Internet em Newark, Delaware, e apontou que o aumento do comércio eletrônico nos últimos anos pelos moradores locais representou um aumento de caminhões nas ruas e um aumento de emissões de gases do efeito estufa.

Ardeshi Faghri, um professor de engenharia civil da Universidade de Delaware, disse que o aumento de várias emissões –que ele estimou em 20% de 2001 a 2011– "pode se dever a vários motivos, mas achamos que as compras online e mais caminhões de entrega são realmente a principal causa".

"O comércio online não ajudou o meio ambiente", ele disse. "Ele o tornou pior."

Outros estudiosos dizem que, ao menos por ora, as compras online parecem estar complementando as lojas físicas, não as substituindo.

"As pessoas que compram online também gostam de ver e sentir as coisas", disse Cara Wang, uma professora associada do Instituto Politécnico Rensselaer, que estuda questões de transporte e escreveu um artigo sobre os hábitos dos consumidores online. "E precisam devolver coisas."

Wang e outros pesquisadores dizem que a demanda por entrega instantânea, em particular, cria desafios para as empresas de transporte que tentam ser eficientes. Em vez de transportarem grandes cargas para um único varejista, elas agora fazem mais entregas a esmo.

Muitos motoristas entregam apenas um item. Esse com frequência é o caso da Postmates, que conta com uma frota de 15 mil motoristas freelancers que entregam o que quer que o cliente encomende –um serviço como o Uber, mas para entregas.

O preço típico parte de US$ 5 (cerca de R$ 20) e uma taxa de serviço de 9% é aplicada sobre o preço do item. (A empresa diz que também conta com cerca de 5 mil entregadores que trabalham de bicicleta ou a pé em áreas urbanas densas.)

Apesar da reciclagem fazer os consumidores pensarem que estão ajudando o meio ambiente, o processo tem seus próprios custos, incluindo as emissões para entrega dos materiais aos centros de reciclagem, que usam muita energia e água.

Don Fullerton, um professor de finanças e um especialista em economia e meio ambiente da Universidade de Illinois, disse que uma possível solução seria tornar os varejistas responsáveis pelo recolhimento das caixas. Isso criaria incentivos para encontrarem soluções para as embalagens.

"E talvez não colocar uma caixa dentro de uma caixa", ele disse.

Robert Reed, um porta-voz da Recology, uma das principais empresas de reciclagem de San Francisco, que coleta 100 toneladas de papelão por dia, tem uma solução mais simples: "Reduzir o consumo", ele disse. "Reduzir o consumo."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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