Rússia marca pontos políticos na Ucrânia, União Europeia e Síria. E agora?

Neil Macfarquhar*

Em Moscou (Rússia)

  • Pavel Golovkin/AP

    23.fev.2016 - O presidente russo, Vladimir Putin, no centro da imagem, participa de cerimônia militar em Moscou

    23.fev.2016 - O presidente russo, Vladimir Putin, no centro da imagem, participa de cerimônia militar em Moscou

A trégua parcial que Rússia e Estados Unidos concordaram em declarar sobre a Síria coroou uma espécie de tripla aposta em política externa para o presidente Vladimir Putin, em que o Kremlin assumiu um papel chave no Oriente Médio, a Ucrânia naufragou e a União Europeia (UE) desenvolveu rachaduras como um pote mal esmaltado.

Por trás do que poderá ser um ponto alto para Putin, porém, surgem em três direções perguntas sobre a jogada final da Rússia.

Na Síria, Moscou alcançou sua principal meta de reforçar o governo do presidente Bashar al Assad, que há muito tempo é o principal aliado árabe do Kremlin. Mas seus objetivos definitivos permanecem obscuros, no mínimo, navegar uma saída digna do confuso conflito.

Na Ucrânia, a Rússia mantém um compromisso público de implementar um acordo de paz que já fez um ano. Lutas renovadas nas regiões separatistas apoiadas pela Rússia, entretanto, sugerem que Moscou busca desestabilizar ainda mais o governo de Kiev, já oscilante devido a disputas políticas internas.

Na Europa, Putin quer aprofundar as fissuras na UE, esperando romper o consenso dos 28 países sobre as sanções econômicas impostas à Rússia devido à anexação da Crimeia em 2014. O Kremlin recentemente ativou sua máquina de propaganda para maldizer a chanceler alemã, Angela Merkel, vista aqui como a figura central no confronto contra Moscou, pintando-a como estéril e seu país sofrendo de violenta indigestão pelo excesso de imigrantes.

O público-alvo dessas conquistas é o povão russo, em parte para distraí-lo de suas crescentes dificuldades econômicas.

"Na tela, podemos ver que somos tão fortes, tão importantes, tão grandes", disse com sarcasmo o professor de ciência política Nikolai Petrov, da Escola de Economia Superior de Moscou.

Putin anunciou na TV, na noite da última segunda-feira, o acordo de "cessação de hostilidades" na Síria, salientando sua importância como uma iniciativa conjunta russo-americana. O presidente russo já havia se manifestado nostálgico dos dias em que apenas duas superpotências dominavam o mundo como colossos que solucionavam problemas, antes da implosão da União Soviética.

"A Rússia conduzirá o trabalho necessário com Damasco e a legítima liderança síria", disse Putin, enquanto os EUA farão o mesmo com seus aliados e grupos de oposição. "Tenho certeza de que as ações conjuntas acordadas com o lado americano serão suficientes para reverter radicalmente a situação na Síria."

Havia mais. Putin queria deixar claro que a intervenção russa na Síria evitaria o tipo de colapso catastrófico que ocorreu no Iraque, no Líbano e no Iêmen, agrupados de modo improvável com as revoluções "coloridas" apoiadas pelos EUA na Ucrânia em 2004 e na Geórgia em 2003. A Síria, disse ele, serviria como exemplo de "atos responsáveis".

"Temos claras conquistas. A principal é que agora todo mundo fala conosco", disse em um programa de entrevistas na TV o ex-deputado russo Boris Nadezhdin.
"O regime de Assad, ou o governo legítimo da Síria, ficou no poder", acrescentou ele. "Precisamos de um acordo político e parar de gastar somas enormes em uma corrida armamentista."

A Síria ainda é um caso não resolvido, porém, e o custo diário de cerca de US$ 3 milhões da operação no país é amplamente considerado razoável.

As forças de Assad quase cercaram Aleppo, há muito um ponto forte da oposição. Elas intensificarão a luta antes que a trégua parcial comece no sábado e poderão continuar os ataques depois disso.

Em última instância, analistas dizem que a Rússia quer se manter em cena pelo tempo suficiente para supervisionar a transição do governo na Síria, para garantir que Damasco continue sendo uma capital amiga, e para mostrar que uma transição política pode ser alcançada por meio de negociações, e não mudança de regime. Assad acaba de anunciar eleições parlamentares para 13 de abril.

Quanto tempo esse processo vai durar, "dependerá da situação, que é muito complicada neste momento", disse Aleksandr Shumilin, um especialista graduado em Oriente Médio na Academia de Ciências da Rússia.

Entre as complicações está que Assad, que se tornou mais ousado com o apoio da Rússia e do Irã, disse recentemente que pretende retomar o controle de toda a Síria. Se a Rússia ajudar a superar a oposição na parte oeste do país, só o Estado Islâmico permaneceria como um adversário de peso.

Isto colocaria a Rússia na posição imprevisível de apoiar Damasco durante o longo e sangrento período necessário para desalojar os militantes islâmicos.

O governo sírio deveria "seguir a liderança da Rússia para resolver esta crise", disse Vitaly Churkin, embaixador russo na ONU, ao jornal "Kommersant". Se o governo sírio acha que "não há necessidade de trégua e que temos de lutar até o fim", disse ele, "então esse conflito vai durar muito tempo".

(*Ivan Nechepurenko colaborou na reportagem.)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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