Por ajuda na crise dos refugiados, UE ignora repressão na Turquia

Tim Arango e Ceylan Yeginsu

Em Istambul (Turquia)

  • ADEM ALTAN/AFP

    Recep Tayyip Erdogan, presidente turco

    Recep Tayyip Erdogan, presidente turco

O contraste era chocante: poucos dias depois de a polícia ter invadido a redação de um jornal de oposição, usando gás lacrimogêneo e canhões de água, o primeiro-ministro da Turquia foi recebido em Bruxelas com ofertas de bilhões de euros em ajuda, a abolição dos vistos para turcos nas viagens à Europa e perspectivas renovadas de adesão à União Europeia (UE).

A justaposição salientou o enigma que a Europa enfrenta ao buscar soluções para sua pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Para conseguir a ajuda desesperadamente necessária da Turquia para conter o fluxo de migrantes ao continente, as autoridades europeias parecem dispostas a ignorar o que, segundo críticos, é uma marcha constante do presidente Recep Tayyip Erdogan rumo ao autoritarismo.

É um momento de fraqueza europeia que a liderança turca parece ávida para capitalizar. Ao chegar a Bruxelas esta semana, o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu aumentou a aposta: pediu mais ajuda financeira do que havia sido negociado e exigiu a abolição dos vistos até junho, e se ofereceu para receber de volta alguns migrantes que chegaram à Europa.

A oferta turca foi considerada um "avanço", na terça-feira (8), pela chanceler alemã, Angela Merkel, e Donald Tusk, o presidente do Conselho Europeu, falou sobre um "entendimento comum" entre Europa e Turquia. Eles disseram que pretendem tratar dos detalhes em uma reunião de cúpula em 17 e 18 de março.

Mas as críticas às medidas de repressão à mídia na Turquia foram brandas. O presidente francês, François Hollande, disse: "A cooperação com a Turquia não significa que não devamos ser extremamente vigilantes sobre a liberdade de imprensa."

Mais de 1 milhão de pessoas que fugiram da guerra e das dificuldades no Oriente Médio e outras regiões chegaram às praias da Europa, e a crise dos refugiados alterou de modo significativo o equilíbrio de poder entre a Turquia e a Europa. A afiliação à UE já foi considerada um atrativo para induzir a Turquia a implementar reformas democráticas. Agora é oferecida como um estímulo à ajuda turca para conter o fluxo de refugiados, enquanto a Europa, segundo os críticos, prefere deixar de lado seus valores para garantir a cooperação turca.

"Mais direitos e liberdades para a população da Turquia foram o motivo pelo qual apoiei a acessão", disse Marietje Schaake, deputada holandesa no Parlamento Europeu. Mas hoje, diz ela, "vemos a concessão de princípios na mera esperança de soluções para os desafios da Europa ao lidar com solicitantes de asilo e migrantes".

Além da repressão à mídia, os críticos estão preocupados com o recrudescimento da luta no sudeste da Turquia, entre o Exército e rebeldes curdos. Eles dizem que a Europa deveria se esforçar para levar os dois lados a retomar as negociações de paz.

Selahattin Demirtas, o principal líder político curdo, cujo partido conseguiu pela primeira vez representação no Parlamento em eleições no ano passado, disse que a crise de refugiados levou a Europa a ficar, de modo geral, calada sobre a guerra renovada no sudeste. Ele criticou a Europa por ceder às exigências da Turquia e não adotar uma posição mais dura com Ancara quanto a seus problemas internos.

"Chantagear os países europeus em relação à crise dos refugiados é algo que a UE não deve desprezar", disse Demirtas à imprensa na segunda-feira (7). "A UE deve considerar isto uma chantagem, o que não está de acordo com os valores europeus."

Em anos anteriores, as negociações para o ingresso da Turquia na UE levaram mais democracia ao país, segundo analistas. Para ficar mais alinhada aos valores europeus, a Turquia aboliu a pena de morte, legalizou a educação e a transmissão de notícias em língua curda, concedeu mais direitos às minorias não muçulmanas e restringiu a influência dos militares na política. Agora isso está mudando.

"As relações UE-Turquia hoje são meramente transacionais", disse Mustafa Akyol, um colunista turco que às vezes colabora com o "New York Times". "Nós podemos lhes dar isto, vocês podem nos dar aquilo. Vocês recebem de volta alguns refugiados, nós dispensamos vocês dos vistos. Não se trata de a Turquia tornar-se uma democracia liberal no estilo europeu."

Erdogan, a figura política predominante na Turquia desde 2003, já adotou reformas democráticas na esperança de obter a afiliação à UE. Mas nos últimos anos, conforme essas esperanças se esvaíam, os primeiros avanços retrocederam. Houve uma dura repressão aos manifestos contra o governo no verão de 2013. Houve uma investigação sobre corrupção que levou o governo a expurgar o judiciário e a polícia de supostos inimigos. E houve uma erosão da liberdade de imprensa.

Hoje, em vez de ser o líder de uma brilhante democracia islâmica, Erdogan, que continua extremamente popular entre sua base conservadora religiosa, é muitas vezes comparado com o presidente russo Vladimir Putin, um líder autoritário com pouca consideração pela liberdade de expressão.

Salientando essa virada na Turquia, enquanto Davutoglu se reunia com líderes europeus na segunda-feira, as autoridades turcas, apoiadas por uma decisão judicial, ocuparam a agência de notícia Cihan. Assim como o jornal "Zaman", que foi invadido na semana passada, a Cihan é ligada ao religioso muçulmano Fethullah Gulen, um adversário de Erdogan que vive no exílio.

Enquanto prosseguiam as negociações em Bruxelas na segunda, Erdogan fez um discurso em Ancara, no qual denunciou os europeus por descumprirem sua promessa de mais de 3 bilhões de euros (cerca de R$ 12 bilhões) em ajuda aos refugiados.

"Eles prometeram nos dar 3 bilhões de euros, e quatro meses se passaram desde então", disse ele. "O primeiro-ministro está em Bruxelas hoje. Espero que ele volte com o dinheiro, os 3 bilhões de euros."

Ativistas, defensores da liberdade de imprensa e liberais turcos que antes contavam com a perspectiva de afiliação à UE para produzir mais reformas democráticas reagiram com desânimo às críticas abafadas da Europa ao que é, para eles, um comportamento cada vez mais antidemocrático da Turquia. "A UE está determinada a se deixar ser humilhada?", indagou, em um comunicado na segunda-feira, Christophe Deloire, secretário-geral do grupo de direitos civis Repórteres Sem Fronteiras. Ele comentou que a ocupação do "Zaman" havia ocorrido enquanto Tusk visitava Ancara, na semana passada.

Svante Cornell, um analista da Turquia e diretor do Instituto Ásia Central-Cáucaso, uma organização de pesquisa, disse que as várias repressões à mídia noticiosa "ilustram plenamente a charada que se tornaram as relações entre UE e Turquia". "O momento da ação do governo turco contra o 'Zaman' foi uma arrogância", disse ele, "sugerindo que o governo Erdogan nem sequer tenta fingir que respeita as normas e os valores europeus".

Nesta semana, o "Zaman", agora supervisionado por fiduciários nomeados pela Justiça, rapidamente trocou suas constantes críticas ao governo por uma voz de apoio, transformação claramente ilustrada pelos títulos na primeira página sobre a reunião de cúpula em Bruxelas.

"Luz verde da UE para exigências da Turquia", dizia um deles, enquanto outro comemorava a "abertura das viagens sem visto à Europa".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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