Vinhedos da Toscana são ameaçados pelo excesso de javalis na região

Gaia Pianigiani

Em Gaiole in Chianti (Itália)

Cercas estão sendo erguidas. Fala-se em uma insurreição brutal e destrutiva, invasões e um massacre que pode chegar a centenas de milhares nos próximos anos. Se isso soa como uma guerra, o campo de batalha fica nos prezados vinhedos de Chianti, a famosa região vinícola da Itália, no coração das colinas arredondadas da Toscana.

E o inimigo? Uma explosão da população de javalis e veados, que saboreiam as doces uvas e os brotos tenros das videiras, mas que também fazem parte da famosa paisagem da região, das tradições de caça e da culinária.

Por muito tempo deixado que crescessem como parte dessa herança, os ungulados selvagens, o grupo ao qual essas espécies pertencem, agora são quatro vezes mais numerosos na Toscana do que em outras regiões italianas. Na Europa, apenas em partes da Áustria há mais.

Os fazendeiros e produtores de vinho daqui dizem que a população agora ameaça o ecossistema delicado da Toscana, além de provocar centenas de acidentes de carro por ano e prejudicar a produção de seu valioso Chianti Classico.

O prejuízo é estimado em US$ 11 milhões a US$ 16 milhões por ano em colheita perdida. Também há o preço de erguer e manter as cercas, que provaram ser controversas, devido às críticas de que estragam a beleza do interior toscano.

"Agora vivemos cercados", disse Francesco Ricasoli, dono da propriedade Barone Ricasoli, que inclui 810 hectares de mata de carvalhos e castanheiras onde os javalis e cervos vivem e se escondem, assim como mais de 200 hectares de vinhedos, onde adoram se alimentar.

Apesar de herdeiro de um dos homens mais proeminentes da Toscana –Bettino Ricasoli, duas vezes primeiro-ministro da Itália e criador da receita do vinho Chianti moderno no século 19– até mesmo ele está na defensiva contra a investida.

"Nossos vinhedos são bem protegidos", disse Ricasoli, "mas nossos campos são vítimas das invasões recorrentes de cervos e javalis selvagens e apresentam buracos que mais parecem trilhas de Ho Chi Minh".

"Não é a Chianti que sonhamos", ele disse. "Era hora de a região agir."

E ela agiu. Em fevereiro, após anos de lamentação, a região aprovou uma lei visando diminuir drasticamente o número de cervos e javalis ao longo dos próximos três anos, reduzindo a população dos atuais mais de 400 mil para cerca de 150 mil.

"Esta lei é ao menos um primeiro passo", disse Marco Remaschi, o secretário de agricultura da região da Toscana, que reconheceu que a proliferação das espécies daqui foi "em grande parte subestimada e não controlada".

"Agora precisamos aplicá-la bem, e fazer com que caçadores, fazendeiros e ambientalistas entendam que é do interesse de todos reduzir o número de javalis e cervos, para que a Toscana volte à normalidade", disse Remaschi.

Mas a lei, ao que parece, resolveu uma discussão e deu início a várias outras.

Ela prolonga a caça além da temporada regular de três meses para caçadores profissionais ou licenciados, mas permite que sejam caçados apenas javalis e cervos de certa idade e gênero, dentro de procedimentos estabelecidos.

Os caçadores, é claro, prefeririam simplesmente caçar os animais como de costume, soltando cães para espantá-los da floresta para áreas onde os caçadores, dispostos em fila, podem atirar à vontade. Eles consideram o método mais eficiente do que a caça seletiva.

A lei também amplia a área onde a caça pode ocorrer, incluindo, sob rígidas condições, campos, parques, vinhedos e até mesmo mais áreas urbanas. Os ambientalistas temem a militarização do pacato interior da Toscana.

Mas a lei não acrescenta nada para desencorajar os caçadores de deixarem comida para atrair suas presas, uma prática que os ambientalistas e produtores de vinho culpam por ter contribuído para a explosão da população de javalis e por atrair os animais para os campos onde causam estragos.

Nas montanhas acima do Castelo Brolio, uma fortaleza que data do século 11, na propriedade Barone Ricasoli, Massimiliano Biagi, o diretor técnico, e seus colegas dizem que encontraram vans pertencentes aos "cinghialai", como são conhecidos os caçadores de javalis, lotadas com cestas de pão e milho.

Os caçadores contam outra história.

"Primeiro, alimentar animais selvagens é proibido, a menos que seja autorizado", disse Marco Cocchi, um gerente da associação de caçadores Federcaccia, na Toscana.

"Mesmo se o fizessem, por que alimentariam os animas nas áreas protegidas onde não podem atirar neles?" ele disse. "Nós também queremos limitar essa proliferação. E essa lei é ineficiente e fornece meios inadequados para redução do número de ungulados selvagens na Toscana."

Assim, cercas continuam sendo erguidas. Elas também são fonte de descontentamento, mas para alguns são a única solução.

Por meio de agitadas batalhas burocráticas com as autoridades locais, Paolo De Marchi, o produtor do famoso vinho Chianti Classico Isole e Olena, começou a cercar seus vinhedos no oeste de Chianti já nos anos 90.

Hoje, todos os vinhedos Isole e Olena contam com autorização para permanecer cercados, contando agora com um perímetro de malha de aço revestida de zinco de 2 metros de altura, com portões de acesso à floresta adjacente.

"Agora conseguimos evitar uma quebra completa da produção, reduzindo os danos em 90%", disse De Marchi.

Valeu a pena a despesa, cerca de US$ 110 mil para os arbustos perenes e loureiros, para embelezar as cercas e preservar a beleza da paisagem, ele disse.

Mas outras propriedades na Toscana permanecem vulneráveis às invasões violentas de cervos e javalis, provocando uma espécie de corrida armamentista.

Alguns produtores de vinho tentaram pequenos canhões para manter os animais de fora. Outros usam cercas elétricas. A mais nova ferramenta e menos invasiva, mas uma que ainda está sendo aprimorada, é uma máquina que produz frequências ultra-altas que apenas os animais podem ouvir e que os afugentam.

"Estamos sofrendo enormes danos por causa desse fenômeno descontrolado", disse Roberto Da Frassini, o diretor técnico que se juntou à propriedade Tenuta di Nozzole, no norte de Chianti, em 2011.

Da Frassini disse que vê a situação piorar ano a ano. "Não conseguimos nem mesmo colher em alguns vinhedos, especialmente os adjacentes à floresta", ele disse. "As plantas foram mortas pelos cervos ou as uvas foram comidas pelos javalis."

A Tenuta di Nozzole levantou cerca de 9,5 quilômetros de cercas nos últimos dois anos. Apenas em 2015, disse Da Frassini, ele investiu cerca de US$ 90 mil na construção de cercas, em vez de comprar nova tecnologia para a adega.

"É extremamente feio, nós sabemos", disse Da Frassini. "É como construir um campo nos vinhedos, mas qual é a alternativa?"

"Não vivemos de filosofia", ele acrescentou. "A paisagem da Toscana é bela por ser moldada pelo ser humano. Mas não posso preservá-la se não pagarmos os salários."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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