Hillary enfrenta resistência de comunidade haitiana após missão ao país

Yamiche Alcindor

  • Larry Downing/AP

    Hillary e Bill Clinton no Haiti em 2012

    Hillary e Bill Clinton no Haiti em 2012

Carregando cornetas, cartazes escritos à mão e garrafas de gasolina para botar fogo em pneus, um grupo de homens marchou até um dos muitos protestos em Porto Príncipe, que paralisaram partes da capital haitiana neste ano. 

Eles estavam furiosos com seu presidente, que permitiu o colapso do Parlamento e não realizou as eleições previstas. Eles estavam furiosos com a Organização das Nações Unidas (ONU), por não assegurar uma eleição justa para seu sucessor. E estavam furiosos com a ex-secretária de Estado americana, Hillary Clinton, que ajudou a colocá-lo no poder. 

"Está vendo todas estas pessoas aqui?" disse um dos manifestantes, envolto na bandeira haitiana, Jean Renold Cenatus, que disse estar desempregado. "É por causa do que a sra. Clinton fez há cinco anos que estamos nesta situação." 

Em suas vidas pós-2000 como cidadãos globais, Hillary Clinton e o ex-presidente Bill Clinton estão ligados ao Haiti mais estreitamente do que a qualquer outro país. Como emissário especial da ONU, Bill Clinton ajudou a levantar centenas de milhões de dólares ao país depois do terremoto devastador que sofreu em 2010. Hillary Clinton veio quatro vezes ao Haiti como secretária de Estado e direcionou bilhões de dólares em ajuda americana. 

Mas enquanto disputa pelo cargo mais poderoso do mundo e o Haiti mergulha em mais outro abismo político, um segmento enérgico de haitianos e haitiano-americanos fala do casal Clinton com o mesmo desprezo que reservam para alguns de seus antigos líderes. 

Em blogs amplamente lidos, em protestos em Porto Príncipe e no lado de fora do escritório de campanha de Hillary Clinton no Brooklyn, e em populares programas de rádio na Flórida, local das eleições primárias da última terça-feira (15), ela e seu marido se transformaram nos principais alvos de culpa pelos problemas do país. 

Entre a ladainha de queixas contra eles estão: menos da metade dos empregos prometidos no parque industrial, construído depois que 366 agricultores foram expulsos de suas terras, se materializou. Muitos milhões de dólares destinados aos esforços de ajuda humanitária ainda não foram gastos. O irmão de Hillary, Tony Rodham, está envolvido em negócios na ilha, gerando especulação de acordos com informação privilegiada. 

"O voto em Hillary Clinton significa ainda mais corrupção, ainda mais morte e destruição para nosso povo", disse Dahoud Andre, um apresentador de um programa de rádio em Nova York que ajudou a organizar os protestos contra o casal Clinton. "Significa mais haitianos deixando o Haiti e sem poder viver em nosso país." 

E agora, um presidente que Hillary Clinton ajudou a ser eleito revelou ser mais um na longa lista de líderes problemáticos. 

Não se sabe se o desalento em torno de Hillary na comunidade haitiana no sul da Flórida pode prejudicá-la em uma eventual eleição geral em novembro. Estimados 150 mil eleitores haitiano-americanos vivem na Flórida, o Estado onde 537 votos decidiram a eleição de 2000.

Mas eles também votam em peso nos democratas, segundo Fernand R. Amandi, o sócio principal da Bendixen & Amandi International, uma firma de pesquisa de opinião em Miami que realizou amplas sondagens entre os haitiano-americanos. 

Para muitos haitianos, o momento mais significativo do período de Hillary como secretária de Estado foi em 2011, quando ela voou para o Haiti para pressionar o presidente René Préval a aceitar a participação de Michel Martelly, um músico popular conhecido como "Sweet Micky", no segundo turno da eleição para o sucessor de Préval. Martelly ficou em terceiro no primeiro turno, mas a Organização dos Estados Americanos acreditava que o homem que ficou em segundo, o escolhido de Préval, tinha se beneficiado de fraude eleitoral. 

Na noite da eleição do segundo turno, vencida por Martelly, a chefe de gabinete de Hillary, Cheryl D. Mills, escreveu uma nota de parabenização aos principais diplomatas americanos no Haiti. 

"Vocês foram ótimos na eleição", escreveu Mills em uma mensagem divulgada pelo Departamento de Estado entre uma série de e-mails de Hillary. Ela escreveu que pagaria o jantar na sua próxima visita ao país: "Podemos discutir o andamento da apuração! Brincadeirinha. Mais ou menos. :)" 

A intenção do e-mail de Mills podia ser irônica, mas alimentou a suspeita entre os haitianos, mesmo que sem provas, de que os Estados Unidos manipularam a eleição para colocar um presidente fantoche. 

E à medida que Martelly lentamente concentrou o poder ao seu redor e deu cargos importantes para amigos com passado criminoso, a mulher que ajudou a colocá-lo no segundo turno passou a ser atacada. (Martelly deixou a presidência no mês passado, como previsto, mas sem contar com um sucessor.)

Depois que Hillary declarou sua candidatura à presidência, chamadas começaram a ser feitas ao programa de rádio de Andre, como uma em junho, na qual uma mulher lamentou o fato de ela e seu falecido pai terem apoiado Hillary e terem doado dinheiro para a campanha dela.

"Quando fazem coisas boas, devemos aplaudir", disse a mulher em francês crioulo. "Mas quando fazem coisas ruins, devemos denunciá-las por não serem boas. E Hillary Clinton não é boa." 

As atividades de Tony Rodham, o irmão de Hillary, são mencionadas com frequência nos programas. No ano passado um livro, "Clinton Cash" (Dinheiro de Clinton, em tradução livre, não lançado no Brasil), de Peter Schweizer, revelou que em 2013, Tony Rodham foi adicionado ao conselho consultivo de uma empresa que é dona de uma mina de ouro no Haiti.

Tanto ele quanto o presidente-executivo da empresa disseram ao jornal "The Washington Post" que se conheceram em um encontro da Iniciativa Global Clinton, uma divisão da Fundação Clinton. Representantes da fundação disseram que não tiveram nenhum envolvimento no ingresso de Tony Rodham na empresa de mineração. 

Tony Rodham e vários sócios também tentaram sem sucesso um contrato de US$ 22 milhões para reconstrução de casas no país enquanto Bill Clinton liderava a missão de recuperação.

Apesar da inexistência de evidência de que Rodham teve tratamento preferencial, seus empreendimentos rapidamente se viram envoltos em rumores, ouvidos com frequência nas ruas e no rádio, de que o casal Clinton estava ocupado comprando terras no Haiti para obter lucro. 

Ativistas como Ezili Dantò, uma advogada de direitos humanos que fundou a Rede de Liderança dos Advogados Haitianos, diz que não pode deixar de acreditar que Hillary deu uma mão ao seu irmão. 

"Ela é vista como sendo liberal e alguém que respeita os direitos humanos, os direitos dos trabalhadores e assim por diante", disse Dantò. "Mas não foi a experiência que tivemos com ela no Haiti."

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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