Em sua passagem por Havana, Obama levou um pouco do século 21 para a ilha

Julie Hirschfeld Davis

Em Havana (Cuba)

  • Ramon Espinosa/ AP

A Casa Branca garantiu que o sinal de internet sem fio dentro do Gran Teatro de Havana estivesse forte e rápido na semana passada, quando o presidente Barack Obama apresentou sua tese de mudança à população cubana. Ele falou em evolução e em esquecer antigas feridas anteriores ao seu nascimento. E desafiou diretamente o presidente cubano, Raúl Castro, sentado no salão, a contestar suas ideias.

Fora do edifício e por toda Cuba, o acesso à internet varia de demorado a inexistente, e a mudança é igualmente lenta.

As feridas de que Obama falou são os problemas que definem a vida de Raúl Castro e a de seu irmão mais velho, Fidel.
Os 30 anos de diferença entre Obama, 54, e Castro, 84, ajudam a explicar o abismo que separa os dois líderes, vivamente exposto na semana passada, quando o presidente americano fez uma visita histórica a Cuba.

A viagem de Obama foi calculada para salientar o contraste de gerações e apelar a um público mais jovem tanto em Cuba quanto nos EUA, apresentando sua visão de um reaquecimento como o caminho inevitável para o futuro, e a hostilidade e o isolamento que existiram antes como o vestígio mofado de outro século.

"Ele se movia com seu porte fluido, jovial, contrastando fortemente com Raúl e sua rígida pose militar", disse Richard Feinberg, um professor sênior na Iniciativa para a América Latina no Instituto Brookings, que viajou a Cuba na semana passada para testemunhar a visita.

"Seu discurso se concentrou constantemente na mudança de gerações, na juventude, no futuro, em vamos deixar o passado para trás", acrescentou Feinberg. "Muitas dessas coisas não precisavam ser ditas --você tinha a representação visual que passava a mensagem."

Em uma entrevista coletiva na última segunda-feira (21) no Palácio Revolucionário, Obama estava confiante e em seu elemento quando se dirigiu a repórteres e ouviu perguntas, enquanto Raúl, desacostumado a tais intercâmbios e parecendo irritado com o fone de tradução, mostrava sua idade.

"A imagem icônica foi Castro se enervando com algumas críticas muito brandas à situação dos direitos humanos em Cuba", disse Michael C. Desch, professor de ciência política na Universidade de Notre Dame.

"O 'gestalt' da visita de Obama foi muito 'Eu sei que você está de saída, e vou falar à população cubana sobre como será o futuro depois de você'."

Foi uma mensagem que Obama passou visualmente, além de verbalmente. Em Cuba, onde dois terços da população são negros ou mestiços --e Castro e a maioria de seu governo são brancos--, um presidente americano mulato personifica possibilidades que a maioria dos cubanos considera fora de alcance.

Obama, que construiu sua primeira campanha presidencial em torno do apoio dos eleitores jovens e temas de mudança de geração, atrai os jovens aonde quer que vá. Fóruns em universidades ou com jovens líderes que atuam em suas comunidades são comuns em suas viagens, e Cuba não foi exceção.

Em um evento sobre empreendedorismo em Havana, Obama ofereceu incentivo aos jovens cubanos que tentam abrir empresas na economia estatal do país. Ele levou consigo Brian Chesky, o fundador de 34 anos da empresa de hospedagem online Airbnb, e disse ao público: "Vocês podem ver como ele é jovem".

Mais tarde, em seu discurso ao povo cubano no Gran Teatro, Obama dirigiu o mesmo argumento a Castro, que escutava sentado em um balcão do outro lado.

"Se você não puder acessar a informação online, se não puder ser exposto a diferentes ponto de vista, não alcançará seu pleno potencial, e com o tempo os jovens perderão a esperança", disse Obama.

"Sei que essas questões são delicadas, especialmente vindas de um presidente americano", acrescentou.

A mensagem de Obama se baseia na realidade política da população cubana em mudança, tanto nos EUA como na ilha.
Enquanto os cubano-americanos mais velhos tendem a abrigar sentimentos de raiva e ressentimento contra o governo comunista do país, levando-os a defender o embargo e o isolamento, uma geração mais jovem tem menos investimento emocional nessas disputas de décadas atrás. Do mesmo modo, enquanto muitos membros de gerações anteriores que continuaram na ilha têm uma ligação visceral com a revolução e tudo o que se seguiu, seus filhos e netos podem ter poucas lembranças das raízes de ressentimento contra os EUA.

Falando diretamente à perspectiva deles, Obama disse em seu discurso: "Eu conheço a história, mas me recuso a ficar preso nela".

Uma pesquisa The New York Times /CBS conduzida antes da viagem do presidente e divulgada na semana passada ilustra a divisão. Entre os pesquisados nos EUA entre 18 e 29 anos de idade, 64% disseram aprovar a abordagem de Cuba por Obama, contra 49% dos de 30 anos ou mais. Enquanto a pesquisa mostrou o apoio geral da maioria a sua política, com 52% a favor e 30% contra, as pessoas de 65 anos ou mais eram substancialmente mais negativas, com 42% reprovando-a.

Grandes porcentagens de jovens disseram que o restabelecimento das relações com Cuba seria bom para os EUA, segundo a pesquisa, enquanto uma minoria de idosos o aprovava.

Obama se deslocou por Havana na limusine preta chamada de "a Fera", por ruas que pareciam congeladas no tempo, cheias de carros americanos dos anos 1950.

"Você dirige por Havana e diz: 'Esta economia não funciona'", disse ele mais tarde. "Parece que funcionava nos anos 50."

Do mesmo modo, o teatro onde ele falou à população cubana tem a mesma aparência de 88 anos atrás, quando Calvin Coolidge, o último presidente americano em exercício a visitar Cuba, falou lá em uma reunião de cúpula do hemisfério ocidental.

Desta vez, porém, a equipe de Obama se certificou de que houvesse cobertura de internet suficiente para que sua mensagem de mudança e transformação fosse postada no Twitter, transmitida o mais longe possível.

E então, com a mesma rapidez, o presidente terminou de falar e o sinal perdeu a força. Obama deixou Cuba pouco depois, seu cortejo passando por placas com antigos slogans revolucionários e retratos de Fidel Castro bem mais jovem.

Giovanni Russonello colaborou na reportagem

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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