O pequeno Rhode Island de repente ganha papel relevante nas primárias presidenciais

Jess Bidgood

Em Warwick, Rhode Island (EUA)

  • M. Scott Brauer/The New York Times

    Sede da campanha do republicano Donald Trump no shopping center Airport Plaza, em Warwick, Rhode Island

    Sede da campanha do republicano Donald Trump no shopping center Airport Plaza, em Warwick, Rhode Island

Na maioria dos anos, a primária presidencial aqui é um assunto passageiro, com candidatos correndo pelo Estado como motoristas que pegam o caminho mais curto de Boston a Nova York. Mas esta temporada eleitoral imprevisível transformou até a primária tardia de Rhode Island e a pilha insignificante de delegados em um prêmio cobiçado, colocando este pequeno Estado sob os holofotes das primárias antes da votação desta terça-feira (26).

"Pela primeira vez em muito tempo a primária de Rhode Island realmente importa", disse alegremente Larry Berman, um assessor do presidente da Câmara estadual.

As campanhas de antigamente seriam perdoadas por dar pouca atenção a Rhode Island, que tem 33 delegados democratas e apenas 19 do lado republicano.

Charles Bullock, um professor de ciência política na Universidade da Geórgia, disse que Rhode Island tendia a ter um papel significativo na temporada de primárias só em disputas cerradas como a de 1976 entre Ronald Reagan e Gerald Ford, ou em 2008, quando Hillary Clinton tentava recuperar o terreno perdido para Barack Obama.

Mas, segundo Bullock, com Donald Trump "tentando alcançar 1.237 [delegados] no lado republicano, conseguir 19 pode ser importante". No lado democrata, disse ele, "Bernie Sanders precisa conseguir tudo o que puder".

Tanto Hillary como o governador John Kasich visitaram o Estado no sábado, e Sanders realizou um comício em Providence na manhã de domingo, deliciando os interessados por política em um Estado acostumado com a posição de observador na política presidencial (e em outras coisas também).

"Geralmente os dados já foram lançados, e é na verdade apenas uma formalidade", disse Bob Durant, 51, um advogado que fazia telefonemas na sede da campanha de Kasich aqui na semana passada. Mas neste ano, com os candidatos ainda arrebanhando delegados, "literalmente cada voto conta", disse ele.

Uma primária presidencial disputada em Rhode Island --um Estado compacto, com cerca de 1 milhão de habitantes, a população de uma cidade grande-- é por necessidade um assunto íntimo.

"O círculo de líderes em Rhode Island é muito pequeno, muito ativo --e absolutamente todo mundo conhece todo mundo", disse James A. Morone, diretor do Centro Taubman para Política Americana e Políticas na Universidade Brown. "É como uma grande família italiana."

As campanhas para os três candidatos republicanos remanescentes, por exemplo, se desenrolam no mesmo shopping center: uma construção estreita entre um aeroporto e uma estrada congestionada aqui na cidade operária de Warwick.

Em uma tarde da semana passada, as pessoas montavam placas no escritório de campanha de Trump, feitas com um recorte em papelão do candidato com uma águia careca. Várias portas adiante, voluntários para o senador Ted Cruz preparavam e-mails e do outro lado do shopping um punhado de voluntários faziam telefonemas para Kasich.

M. Scott Brauer/The New York Times
Cartaz do republicano John Kasich no shopping center Airport Plaza, onde fica sua sede de campanha em Warwick, Rhode Island

Jean Hudson, 65, estava no estacionamento no meio disso tudo e disse estar adorando que a maior importância política finalmente havia conseguido cobertura para seu Estado na Fox News, sua rede preferida de notícias a cabo.

"Ouço nosso nome citado com maior frequência", disse Hudson, feliz. "Mesmo quando temos furacões e temporadas, eles falam sobre Massachusetts e Connecticut, nunca sobre Rhode Island. É como se não existíssemos."

O establishment democrata do Estado colocou a maior parte de seu peso atrás de Hillary --e isso também teve um pequeno toque de "Lil' Rhody".

Quando Bill Clinton fazia campanha na semana passada, também aqui em Warwick, o presidente da Câmara estadual, Nicholas A. Mattiello, ligou antes para uma pizzaria na cidade vizinha de Cranston para garantir que haveria comida vegana para o ex-presidente, hoje um herbívoro dedicado.

Até Morone andou recebendo perguntas na primária, de estranhos que o reconheceram de suas aparições na TV. Não é um fato totalmente incomum em um Estado tão pequeno, embora Morone esteja mais acostumado a ser indagado sobre as disputas locais do que as nacionais.

"Cheguei à estação de trens esta manhã e alguém se aproximou de mim e disse: 'O que está acontecendo? Quem vai ganhar em Rhode Island?' E eu geralmente não ouço esse tipo de coisa", disse Morone.

A primária aqui poderá dar aos observadores informações valiosas sobre a dinâmica da disputa, porque, segundo Morone, Rhode Island é demograficamente semelhante a Massachusetts, onde Trump conseguiu uma vitória arrasadora em março.

Assim, a primária desta terça-feira --uma das cinco na Costa Leste-- será mais um teste de sua popularidade em um Estado com grande porcentagem de eleitores brancos, independentes ou de tendência democrata.

"É uma medida muito boa do que aconteceu com a campanha de Trump conforme ele recebe esse tipo de ataque devastador que vem sofrendo", disse Morone.

O candidato do Partido Democrata ganhou Rhode Island em nove das últimas dez eleições presidenciais (sendo a exceção a vitória de Reagan na reeleição de 1984).

Wendy Schiller, professora de ciência política em Brown, descreveu Rhode Island como um "Estado unionista, democrata, de coração colarinho-azul", mas onde Trump poderá atrair os eleitores.

"Se Trump realmente se sair bem aqui", disse ela, "se Hillary Clinton perder aqui para Bernie Sanders, realmente sugere uma maneira em que a campanha de Trump poderá tentar atrair uma parcela de votos democratas em novembro".

Deixando de lado as especulações, alguns moradores do Estado estão simplesmente tentando se divertir com seu momento sob os holofotes presidenciais.

Vejam Denise Rachiele, que ficou surpresa ao ver um escritório de campanha --o de Trump-- aparecer a algumas portas de distância de sua pet shop. Agora suas vitrines estão decoradas com falsos cartazes de campanha para seu gato, Stump.

"Ele sentiu que era mais qualificado, ou pelo menos tão qualificado quanto Trump", brincou Rachiele, que disse ainda não ter decidido em quem votará na terça.
 

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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