Com a distância do Holocausto, aumentam as necessidade dos sobreviventes

Melissa Eddy

Em Berlim (Alemanha)

  • Guinness/Divulgação

    O sobrevivente do Holocausto Israel Kristal, de Haifa (Israel), foi declarado o homem mais velho do mundo, com 112 anos

    O sobrevivente do Holocausto Israel Kristal, de Haifa (Israel), foi declarado o homem mais velho do mundo, com 112 anos

O governo alemão está negociando com deputados judeus americanos para garantir que os milhares de sobreviventes do Holocausto mais pobres e fracos em todo o mundo recebam os cuidados intensivos de que necessitam para viver em casa seus últimos anos.

O Ministério das Finanças da Alemanha e a Conferência sobre Reivindicações Materiais Judaicas contra a Alemanha continuam tendo conversas regulares, mas o esforço para se chegar a um acordo adquiriu um novo sentido de urgência, porque os mais moços que precisam de cuidados em tempo integral já estão na casa dos 80 anos, e muitos têm mais de 100.

Com um número estimado em 100 mil vítimas do Holocausto vivendo nos EUA, aproximadamente um quinto dos sobreviventes no mundo todo, sua situação causou preocupação no Congresso, e na quinta-feira (28) os deputados apresentaram uma resolução pedindo que o governo alemão faça mais.

Os deputados Ted Deutch, democrata, e Ileana Ros-Lehtinen, republicana, ambos da Flórida, apresentaram a resolução pedindo que a Alemanha "reconheça o imperativo de financiar imediata e plenamente as necessidades médicas, de saúde mental e de longo prazo das vítimas, e fazê-lo com toda a transparência e responsabilidade para garantir todos os fundos para as vítimas do Holocausto".

O Ministério das Finanças alemão não respondeu a diversos pedidos de declarações.

A Conferência de Reivindicações cuida de 55 mil sobreviventes em dezenas de países ao redor do mundo, por meio de programas de indenizações e reparações financiados pelo governo alemão, que começaram há mais de 60 anos.

Mas, conforme os sobreviventes envelhecem, enfrentam cada vez mais necessidades de cuidados especiais, ligados à perseguição que sofreram e ao isolamento resultante da perda de parentes no Holocausto.

A atual rodada de negociações, que começou em janeiro e está prevista para terminar em junho, tenta encontrar uma maneira de suprir essas necessidades, disse Greg Schneider, o vice-presidente-executivo da Conferência.

O governo alemão atualmente fornece indenização a sobreviventes que são tratados em suas casas por até 25 horas semanais, com base em uma avaliação da necessidade individual.

Em muitos casos, porém, isso não é suficiente, deixando sobreviventes que estão mental e fisicamente frágeis, ou desmemoriados, sem qualquer pessoa para cuidar deles no fim de semana ou durante a noite.

Um elemento central das negociações é abolir os limites de horas semanais e criar um sistema mais flexível.

As autoridades alemãs advertiram que para que tal plano seja eficaz elas precisam avaliar quais necessidades não estão sendo atendidas e estruturar um programa baseado em um orçamento que pagaria pelos cuidados domiciliares dos casos mais necessitados nos próximos cinco a sete anos.

Entre os casos mais agudos estão os de pessoas que sofrem perda de memória agravada pelos gatilhos emocionais que afetam muitas vítimas em idade avançada.

Conforme sua memória falha, elas muitas vezes recordam de sua vida quando jovens, quando foram forçadas a deixar suas casas, jogadas em carroças e arrancadas de seus pais, que na maioria das vezes nunca mais viram.

"Quando você é um sobrevivente do Holocausto e relembra, volta ao ponto mais sombrio da história humana", disse Schneider.

Ele deu o exemplo de uma mulher do programa que tem demência e exige cuidados em tempo integral. Embora ainda viva com seu marido, também um sobrevivente, ela começa a gritar "Não vá, eles vão levá-lo embora, eles vão pegá-lo!" toda vez que ele tenta sair de casa.

"Ela vive em um mundo onde os nazistas ainda existem", disse Schneider.

Em resposta a uma carta do Congresso escrita ao ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, em dezembro, Jens Spahn, um vice-ministro que lidera as negociações em nome do governo alemão, disse que seu país reconhece que os níveis atuais de cuidados são "insuficientes para os que precisam de cuidados intensivos em longo prazo".

"Alguns sobreviventes exigem cuidado mais extenso, em alguns casos em tempo integral", escreveu Spahn na carta.

A Alemanha fez muitos pagamentos no valor de mais de 73,4 bilhões de euros (R$ 290 bilhões) em reparações e indenizações, sobretudo para judeus vítimas dos nazistas. A assistência aos sobreviventes idosos é apenas uma pequena parte dessas contribuições.

"Muitos de meus eleitores têm 80, 90 e até 100 anos, e nosso foco é garantir que suas necessidades sejam cobertas", disse Deutch.

"Venho tentando ajudar os sobreviventes desde que cheguei ao Congresso, há seis anos", explicou. "Embora reconheçamos que o que é feito pelos alemães é extremamente generoso, as necessidades dos sobreviventes não estão sendo supridas."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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