Opinião: O murchar árabe

Roger Cohen

  • Cui Xinyu/Xinhua

    Mulheres passam por veículos blindados na praça Tahrir, no Cairo (Egito)

    Mulheres passam por veículos blindados na praça Tahrir, no Cairo (Egito)

Há pouco mais de cinco anos eu estava com meu colega Robert F. Worth no apartamento de Pierre Sioufi, que dava vista para a praça Tahrir no Cairo. Nós assistíamos enquanto a população egípcia se levantava para derrubar a ditadura de 30 anos de Hosni Mubarak e reivindicar sua cidadania, representação, dignidade e o primado da lei.

Os membros barbados da Irmandade Muçulmana, com suas peles marcadas pela tortura sofrida pelas mãos das forças de segurança de Mubarak, abraçaram os liberais seculares egípcios e declararam uma causa comum. Homens e mulheres jovens, com seus olhos cheios de convicção, proclamavam que os 18 dias em Tahrir deram pela primeira vez significado às suas vidas, ao demonstrarem o poder de promover mudanças. Eles descobriram a ação; eles construiriam um Egito melhor. Alaa Al Aswany, um romancista egípcio, disse à multidão: "A revolução é um novo nascimento, não apenas para o Egito, mas também individual. É como se apaixonar: você se torna uma pessoa melhor".

Aqueles foram dias inebriantes. Era impossível a não suspensão da descrença. O exército estava impassível, a Irmandade estava contida e os jovens árabes, empoderados pelo Twitter, em ascensão. A libertação se desenrolou em uma onda não vista desde 1989.

Após a queda menos de um mês antes do ditador tunisiano Zine El Abidine Ben Ali, parecia que o confronto árabe congelado de décadas entre ditadores cínicos e islamitas reprimidos, fecundo na incubação de terroristas jihadistas, estava dando lugar à possibilidade de sociedades mais inclusivas.

Se o Egito, lar de cerca de um quarto da população do mundo árabe, pudesse ver o nascimento de uma cidadania significativa, a humilhação árabe purulenta seria substituída por uma dignidade empoderadora. O Ocidente poderia escapar de seu lugar na mente árabe, repleta de conspiração, de facilitador hipócrita de toda iniquidade. Isso promoveria de forma muito mais poderosa a sua segurança do que qualquer guerra em terras muçulmanas distantes.

Mas não era para ser. Passados cinco anos, Tahrir mais se parece um sonho. Leia o novo livro notável de Worth, "A Rage for Order: The Middle East in Turmoil, From Tahrir Square to ISIS" (Fúria por ordem: o Oriente Médio em turbulência, da praça Tahrir até o Estado Islâmico, em tradução livre, ainda não lançado no Brasil) e chore. O abismo entre o espírito cívico da praça e a brutal teocracia do Estado Islâmico revela a extensão do fracasso.

O livro é uma crônica escrita de forma bela sobre os apuros das pessoas comuns, das esperanças, vidas, famílias e sociedades despedaçadas. Worth escava as feridas pessoais que revelam as traições maiores. Em toda parte fora a Tunísia, seitas, tribos e a Mukhabarat (polícia secreta) provaram ser mais fortes que a aspiração por instituições capazes de mediar as diferenças e promover a elusiva "karama", ou dignidade, que, como nota Worth, era a "palavra de ordem de todos os levantes".

Quem deve ser culpado por esse fracasso épico? A Irmandade Muçulmana, por renegar sua promessa de não disputar a primeira eleição presidencial pós-levante do Egito? O Exército egípcio e o corrupto "Estado profundo", por nunca terem dado a Mohamed Morsi da Irmandade ("o primeiro presidente democraticamente eleito do país em seis mil anos de história") as condições de governar? O próprio Morsi, por seus tolos esforços para tomar poder, rigidez inepta e incapacidade de perceber que precisava demonstrar que era o presidente de todos, não apenas da Irmandade? Os liberais egípcios, por abandonarem tão rapidamente a ideia da democracia e ficarem ao lado do homem forte militar Abdel-Fattah al-Sissi e seu golpe sanguinário, que nunca foi condenado pelos EUA?

Ou teria sido Bashar Assad da Síria, por enterrar o levante sírio em rios de sangue? Ou o dinheiro saudita, empregado cinicamente contra todo agente de transformação liberalizante? Ou o hesitante governo Obama que, em relação ao Irã em 2009 e à Síria desde 2011, se envolveu em uma "justificada" cautela enquanto os ventos da mudança sopravam pelo Oriente Médio? O Ocidente irresponsável, que interveio na Líbia apenas para abandoná-la? Ou simplesmente a impossibilidade de promover sociedades mais liberais e representativas em uma região onde o Islã político invoca não o poder do povo, mas a autoridade de Deus que tudo permeia?

Worth não julga. Ele revela. Ele nota as concessões notáveis na Tunísia entre o partido islamita, o Ennahda, e a velha guarda secular que permitiram que esse pequeno país, sozinho, realizasse algo com as esperanças de 2011.

Liderança conta. A Tunísia encontrou um líder em Rached Ghannouchi, um islamita cujo longo exílio no Reino Unido lhe ensinou a sabedoria salvadora do dar e receber democrático. Em outras partes do mundo árabe, não há nada que lembre uma liderança.

Mas, com força igual, Worth demonstra como o fracasso de 2011 levou muitos que buscavam a dignidade, mas não a encontraram, a procurarem por ela nas terras agora controladas pelo Estado Islâmico. Quando o sonho dos levantes evaporou, ele escreve, "muitos se entregaram à apatia ou ao desespero, ou mesmo à nostalgia pelos velhos regimes que atacavam. Mas alguns correram para o século sétimo à procura do mesmo prêmio", um lugar "que pudessem considerar seu, um Estado que protegesse seus súditos da humilhação e desespero".

Esta última sentença chocante de "A Rege for Order" é a medida do dilema mundial nas ruínas manchadas de sangue da Primavera Árabe. Afinal, como alguém poderia ver as práticas bárbaras do Estado Islâmico nesses termos?

Crise no Egito
Crise no
Egito

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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