Caos de 2016 leva Partido Republicano a considerar mudanças nas primárias

Jeremy W. Peters

Em Washington (EUA)

  • David Goldman/AP

    9.fev.2016 - Eleitor vota durante primárias dos EUA em Manchester, New Hampshire

    9.fev.2016 - Eleitor vota durante primárias dos EUA em Manchester, New Hampshire

Os líderes do Partido Republicano deram início a deliberações internas sobre possíveis mudanças fundamentais na forma como seus candidatos presidenciais são escolhidos, um reconhecimento de que o processo caótico deste ano apresentou falhas sérias e ajudou a exacerbar tensões dentro do partido. 

Em uma mudança significativa, representantes do Partido Republicano disseram que agora parece improvável que os quatro Estados que votam primeiro mantenham sua posição prezada no calendário eleitoral, com Nevada sendo a baixa mais provável. 

Os líderes do partido estão até mesmo considerando diluir o status tradicional de Iowa, New Hampshire e Carolina de Sul como porteiros da corrida presidencial. De acordo com uma proposta, outros Estados seriam adicionados a esses para votarem no mesmo dia, como forma de dar a um maior número de eleitores um papel significativo mais cedo. 

Mas em uma medida que limitaria acentuadamente quem pode participar das primárias presidenciais, muitos ativistas do partido também estão pressionando por barrar eleitores independentes de votarem nas disputas republicanas, argumentando que as primárias abertas em alguns Estados permitiram que Donald Trump, de cujas convicções conservadores eles desconfiam profundamente, se transformasse no virtual candidato do partido. 

Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul também certamente montarão uma forte resistência quando as mudanças forem debatidas em julho, na Convenção Nacional Republicana em Cleveland, onde os dirigentes do partido estão planejando considerar uma série de revisões nas regras e procedimentos. Normalmente ignoradas e em grande parte irrelevantes em recentes eleições presidenciais, as regras do partido ganharam considerável atenção neste ano à medida que os republicanos se viam diante da perspectiva de ter sua primeira convenção disputada em 40 anos. 

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As ansiedades em torno da justiça do sistema, incitadas por Trump quando acreditava que poderia perder a indicação, espelham o debate amargo que está ocorrendo no Partido Democrata. Os democratas se veem em uma situação semelhante antes de sua convenção, na Filadélfia, sobre como tratar das supostas falhas em seu processo de indicação, condenado pelo senador Bernie Sanders de Vermont como sendo injusto e corrupto. 

Diante da insatisfação com as regras em ambos os partidos, disseram seus representantes, alguma combinação de mudanças para 2020 é quase certa. 

Mas os partidos devem equilibrar uma série conflitante de prioridades. A primeira é preservar o entusiasmo e o interesse que motivaram um número recorde de eleitores a participarem das primárias deste ano. A segunda é assegurar que a capacidade dos partidos de selecionar e então escolher seus candidatos não se torne obsoleta por uma enxurrada de novatos com pouca lealdade partidária. 

A pergunta central que tanto republicanos quanto democratas estão tentando responder após as longas e desgastantes campanhas das primárias é uma que chega à identidade do partido político americano moderno: quem deve ser autorizado a participar do processo de indicação do candidato presidencial? 

"Este é um momento histórico", disse Elaine Kamarck, uma integrante sênior da Instituição Brookings e uma especialista no sistema de indicação presidencial, que apontou que os partidos podem vir a escolher dois caminhos muito diferentes. 

"Uma possibilidade é a de que o sistema se torne ainda mais público do que é", disse Kamarck. Ela sugeriu que os partidos poderiam abrir suas primárias a ainda mais eleitores, como uma forma de reduzir a influência de ativistas e líderes. "Do outro lado há a possibilidade de o partido retomar sua prerrogativa de escolher seus candidatos", ela disse. 

Segundo ela, "a questão neste ponto é em qual direção ele deve seguir?" 

O sistema de superdelegados no Partido Democrata se tornou alvo de críticas fervorosas por Sanders e seus simpatizantes, devido ao papel exagerado que dá aos membros da elite do partido na escolha do candidato. Este seria um alvo óbvio para reforma, disseram os democratas. 

Mas as mudanças sendo consideradas pelos republicanos estão mais adiantadas no processo de discussão. E incluem várias propostas para alteração do calendário político, que tradicionalmente começa em Iowa como primeiro Estado a votar, seguido por New Hampshire, Carolina do Sul e, desde 2008, Nevada. 

Em uma possibilidade apresentada pelo membros do Comitê Nacional Republicano, os primeiros Estados a votar manteriam seu status especial. Porém mais Estados seriam adicionados ao processo mais cedo, cada um casado a um Estado próximo que votaria no mesmo dia. Assim, Iowa ainda realizaria a primeira disputa em 2020, mas no mesmo dia que Minnesota. New Hampshire votaria em seguida, mas no mesmo dia que Massachusetts. E as primárias de mesmo dia mudariam: em 2024, a primária em Iowa ocorreria no mesmo dia que a de Dakota do Sul, e New Hampshire no mesmo dia que no Maine. 

"Acho que haverá uma discussão séria sobre os primeiros Estados a votar e como esse processo funcionará", disse Henry Barbour, o comissário nacional do Mississippi e um membro do Comitê de Regras da convenção. 

Outras mudanças sendo consideradas incluem algumas que aboliriam o sistema de primeiros Estados existente e o substituiria por um rodízio de Estados que votariam juntos com base em uma série de fatores comuns, como tamanho da população e geografia. 

Propostas para reduzir a influência de Iowa, New Hampshire e Carolina do Sul parecem surgir a cada quatro anos em ambos os partidos. Mas a tradição é uma força poderosa difícil de superar: mesmo depois que a disputa republicana de Iowa de 2012 terminou sem um vencedor claro, devido a um problema na apuração dos votos, reacendendo as queixas de um Estado pequeno e insular ter uma influência desproporcional indevida, os esforços para destronar Iowa fracassaram. 

Uma das discussões mais carregadas ocorrendo dentro do partido é em torno de restringir a votação nas primárias presidenciais a republicanos registrados. O motivo é a indicação iminente de Trump, um ex-democrata que tem algumas posições muito em desacordo com a ortodoxia predominante do partido. 

Trump venceu as primárias em New Hampshire e Carolina do Sul, onde os eleitores não precisam ser membros do partido. Isso levou parte da ala conservadora do partido, incluindo muitos apoiadores do senador Ted Cruz do Texas, a questionar se os independentes estavam exercendo influência demais nas disputas republicanas. 

"Acho que essa é provavelmente a maior discussão de todas", disse Ron Kaufman, o comissário nacional republicano de Massachusetts e um líder veterano do partido. 

É claro, quaisquer mudanças feitas agora não tratarão do imprevisível. Os republicanos achavam que as reformas realizadas depois da campanha de 2012, como a limitação do número de debates e redução do calendário de indicação, ajudariam a tornar o processo menos imprevisível. Não foi o que aconteceu. 

Segundo Kamarck, "o problema é sempre se ver travando a última batalha". 

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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