Cerimônias de vítimas afegãs viram uma grande cena pública de lamento

Mujib Mashal, Zahra Nader e Jawad Sukhanyar

Em Cabul (Afeganistão)

  • Adam Ferguson/The New York Times

    Enterro das vítimas do atentado no Afeganistão causa comoção

    Enterro das vítimas do atentado no Afeganistão causa comoção

Ao longo de grande parte da tarde de domingo, uma escavadora aplainava a área de terra, enquanto homens com pás e picaretas abriam covas, quatro fileiras de cerca de 20, tão próximas uma das outras que se os mortos pudessem estender seus braços, eles tocariam os de seus vizinhos.

Nas horas que se seguiram, quase duas dúzias dos pelo menos 80 manifestantes mortos em um atentado a bomba reivindicado pelo Estado Islâmico, no sábado, foram enterrados aqui, em cerimônias que se sobrepunham e que se misturavam em uma grande cena pública de lamento. Enquanto a oração final para um corpo baixado à sepultura era recitada, terra era jogada com pá sobre o corpo na sepultura ao lado.

"Oh, irmãos, mais devagar! Mais devagar!" pedia um enlutado ao lado da sepultura de Muhammad Hassan, um operário de construção de 25 anos morto no atentado, aos homens que jogavam terra na sepultura vizinha. Terra estava cobrindo o turbante branco do mulá agachado sobre a lápide de Hassan, lendo a partir de um pequeno livro de orações.

O ataque contra manifestantes pacíficos em Cabul, que eram em sua maioria da minoria étnica hazara, provocou protestos internacionais, em parte por ser a primeira vez que a liderança do Estado Islâmico na Síria reivindicou a responsabilidade por um ataque tão mortal no Afeganistão.

Mas alguns aqui expressaram ceticismo de que o grupo terrorista, cujos combatentes no Afeganistão estão concentrados no leste, esteve por trás dele. O detalhe mal parecia importar para outros, que veem o atentado como mais outro em uma longa série de ataques resultantes de uma guerra caótica e sem fim. Muitos dos enlutados que enterravam seus mortos na colina, ou continuavam protestando perto de um centro de convenções, acusavam de forma amarga o governo afegão por fracassar em proteger seu povo, independente de qual seja a ameaça.

Os manifestantes no sábado marchavam para exigir melhores serviços e infraestrutura para as áreas hazaras do Afeganistão. Em vez disso, eles se somaram à longa lista de vítimas hazaras por causa de suas diferenças religiosas ou afiliações políticas. Eles há muito são tratados como cidadãos de segunda classe, foram perseguidos pelo regime Taleban e, ao longo do ano passado, são cada vez mais visados pelo braço do Estado Islâmico no Afeganistão por causa de suas crenças xiitas.

As histórias de muitas vítimas mostram um ciclo de violência que continua atingindo as vidas afegãs por gerações.

Hassan, enterrado na sepultura Nº4, tinha perdido seu pai para o governo comunista do Afeganistão quando era pequeno, disse seu tio, Hajji Muhammad Safi Jaffary, que o criou. Agora, outro ato de violência priva os filhos de Hassan, um menino de 5 anos e uma menina ainda bebê, do pai deles.

"Eu sinto a cicatriz do meu irmão e agora isto", disse Jaffary. "Eu o amava mais que meus próprios filhos. Eu perdi uma parte de mim."

Sharif Doulatshani, um funcionário do Ministério da Educação, foi morto com quase a mesma idade que seu pai tinha quando morreu, na faixa dos 30 anos. Doulatshani e seu irmão foram criados  por sua mãe sozinha, e ele agora deixa uma esposa e uma filha pequena.

As famílias também falaram sobre as buscas dolorosas antes de conseguirem encontrar os corpos de seus entes queridos nos hospitais de Cabul, sobrecarregados pelas vítimas do ataque.

Na noite de domingo, Muhammad Daud e sua família ainda procuravam por seu primo, Aziz Muhammad, um estudante de pós-graduação em direito internacional de 27 anos que estava participando dos protestos. Eles já tinham procurado em quatro hospitais sem sucesso.

"Em um hospital com 400 leitos, eles nos levaram até uma pilha de sacos cheios de carne humana e nos disseram para procurar por ele", disse Daud. "Não foi possível encontrá-lo naqueles sacos."

Antes de chegarem à colina, a maioria dos corpos fez uma parada para uma oração fúnebre em um centro de convenções no oeste de Cabul. Grande parte do protesto que prossegue contra o governo, retirado da rotatória onde ocorreu a explosão, também foi transferido para o centro de convenções.

A reivindicação principal do protesto é o fornecimento de eletricidade, assim como estradas e infraestrutura, para a província de Bamian, uma região dominada pelos hazaras no centro do Afeganistão. Após tentar por semanas conter a manifestação, insistindo que mais serviços passaram a ser fornecidos às comunidades hazaras ao longo do último ano, o governo do presidente Ashraf Ghani permitiu que a marcha ocorresse no sábado. Ainda assim, as autoridades disseram que consideravam os protestos como sendo manipulados pela oposição política.

Na colina, homens de todas as idades continuavam abrindo sepulturas à medida que os corpos chegavam. Lápides, cada uma contendo o nome e número da sepultura da vítima escrito em tinta vermelha em ambos os lados, eram descarregadas dos veículos e carregadas por pessoas em suas costas até o alto da colina.

Os mulás tinham dificuldade para arrumar tempo para todas as orações finais. Khadim Hussain Hassany disse que realizou as orações finais para cinco vítimas, enquanto Naser Mahdawi realizou três.

Ahmad Jawad, um funcionário de 20 anos de uma loja de eletrônicos, disse que escapou por pouco da explosão durante o protesto. Após posar para uma foto com seus amigos, ele caminho para a lateral para ajudar a armar uma tenda de protesto.

"Todos aqueles amigos na foto, todos viraram mártires", ele disse, fazendo uma pausa na abertura das sepulturas para eles.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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