Afegãos vão à guerra pelo governo sírio e deixam famílias angustiadas

Kareem Fahim

Em Herat (Afeganistão)

  • Sergey Ponomarev/The New York Times

    Homens da brigada afegã deixam suas famílias para lutar na guerra da Síria

    Homens da brigada afegã deixam suas famílias para lutar na guerra da Síria

Uma mulher aqui nesta cidade afegã disse que suplicou a seu filho que não fosse lutar na guerra na Síria, mas ele foi de qualquer maneira, deixando para trás sua mulher e três filhos. Um homem que ouviu a história se aproximou para contar que seu filho também havia partido dois meses antes e desde então a família esperava com angústia notícias dele.

Outra mulher, Khadija, cujo filho Hassan aderiu às brigadas afegãs que lutam pelo governo sírio, disse que ele foi levado ao conflito violento pelos mesmos motivos que a maioria dos jovens do bairro decidiu ir: "Não encontrava trabalho".

Um adolescente parado perto do grupo, escutando os pais, explicou que essas não são histórias isoladas entre os afegãos xiitas de Herat. O bairro "está cheio delas", disse ele.

O Afeganistão se esvaziou conforme seus cidadãos fugiam da pobreza e da guerra, muitos buscando trabalho no Paquistão, no Irã ou em países do golfo Pérsico ou arriscando-se à perigosa jornada para a Europa. Mas esse padrão específico de emigração --milhares de jovens entrando no vizinho Irã e depois seguindo para a luta junto com o governo sírio e seus aliados-- provocou uma angústia extrema nas famílias daqui e no governo afegão, especialmente durante o último ano.

Ao deixar um país destruído por décadas de guerra, os jovens afegãos que tomam o rumo da Síria caem no perigo das sangrentas linhas de frente de Aleppo, Homs ou outros campos de batalha. A mídia noticiosa estatal do Irã e algumas autoridades afegãs sugerem que centenas deles foram mortos em batalhas no último ano.

Milhares de afegãos, na maioria muçulmanos xiitas da minoria étnica hazara, lutaram na Síria nos últimos anos, servindo em brigadas que apoiam o governo do presidente Bashar al Assad, segundo seus parentes e comandantes na Síria. A maioria dos afegãos recrutados vem da diáspora afegã no Irã, um aliado crucial do governo Assad. Mas cada vez mais homens têm vindo diretamente do Afeganistão no último ano, em parte por causa da situação cada vez mais difícil da economia afegã, segundo parentes e autoridades.

A promessa de salários urgentemente necessários --ou pelo menos uma indenização por ferimentos ou a morte, geralmente paga pelo governo iraniano-- pouco fez para reconfortar as famílias abandonadas ou reduzir seu arrependimento e tristeza por ver seus filhos partirem.

No caso de Khadija, a decisão de seu filho Hassan de ir à Síria ocorreu depois que seu marido, que é deficiente, perdeu sua terra. Mas ela insistiu que ela e o marido não pediram que Hassan fosse.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Afegãos deportados do Irã ficarão em abrigo temporário em Herat , Afeganistão

O êxodo também salientou o fracasso do governo em atenuar o sofrimento dos hazaras, há muito marginalizados no Afeganistão e discriminados pelos muçulmanos xiitas. Diante do espetáculo embaraçoso de seus cidadãos lutando por um governo estrangeiro, o governo afegão também teve de enfrentar a perda de homens capazes, num momento em que está desesperado por recrutas para lutar na guerra interna contra os insurgentes do Taleban.

Embora os afegãos que partem para a Síria logo enfrentem as misérias de outra guerra incessante, eles já têm uma vantagem sobre alguns outros migrantes afegãos: têm menor probabilidade de serem deportados e obrigados a voltar ao Afeganistão. No cruzamento da fronteira com o Irã, a cerca de 90 minutos de carro de Herat, pelo menos 30 ônibus chegam várias vezes por semana cheios de afegãos deportados do Irã. Alguns levam famílias que viveram ilegalmente no Irã durante anos.

Mas a maioria dos afegãos deportados eram jovens --alguns com apenas 10 anos, segundo profissionais de ajuda da Organização Internacional para Migrações-- que cruzaram a fronteira desesperados para encontrar trabalho. Muitos disseramque voltariam ao Irã assim que possível.

Alguns combatentes afegãos rumaram para a Síria por motivos religiosos, por verem a batalha como uma guerra contra os extremistas sunitas ou decidirem defender os locais sagrados xiitas na Síria ao lado de outros milicianos xiitas do Líbano ou do Iraque. Outros foram coagidos ou enganados para lutar, segundo grupos de direitos humanos. Mas a maioria foi atraída por benefícios financeiros, incluindo a promessa de residência legal para os combatentes e suas famílias no Irã, disse Abdul Rahim Ghulami. Ele é uma autoridade local em Herat que disse que seu cunhado comandava uma unidade afegã que luta em Aleppo.

O governo do Irã oferece algumas semanas de treinamento e leva os homem de avião para a Síria, onde eles se unem a uma das brigadas afegãs. Essas unidades são às vezes vistas com suspeita por seus próprios aliados: em entrevistas na Síria, alguns dos outros combatentes de milícias pró-governo desprezam os afegãos por serem jovens demais e mal treinados.

Um dono de loja em Damasco chamado Ahmed, que trabalha perto da mesquita Zayyida Zainab, local reverenciado pelos xiitas, disse que o número de combatentes afegãos que guardam a mesquita aumentou nos últimos seis meses. Eram um grupo triste que se queixava da vida no Irã ou no Afeganistão quando conversava com eles, disse Ahmed, mas que tinham poucas opções para sustentar suas famílias. Pelo menos quando os homens morrem, tornam-se mártires em uma guerra santa, acrescentou Ahmed, que só deu seu primeiro nome por medo de ser castigado.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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