Enquanto Trump pede por muro na fronteira mexicana, contrabandistas cavam túneis

Ron Nixon

Em Nogales, Arizona (EUA)

  • Caitlin O'Hara/The New York Times

Em uma terraplanagem que se estende ao longo da alta cerca de aço que separa esta cidade de fronteira de sua cidade irmã mexicana, um trecho de concreto novo com uma data gravada nele se destaca, marcando a saída de um túnel que agentes da Patrulha de Fronteira fecharam em maio.

Outras dezenas como ele serpenteiam ao redor da cidade, parte de uma vasta rede subterrânea que os cartéis das drogas mexicanos utilizam há anos para canalizar centenas de quilos de drogas ilícitas para os Estados Unidos. Quando os agentes da Patrulha de Fronteira encontram os túneis, eles despejam concreto para selá-los e gravam a data em que foram fechados.

Mas eles têm dificuldade em vencer as escavações. Na última sexta-feira, a Patrulha de Fronteira, em uma operação conjunta com as autoridades mexicanas, descobriu um túnel inacabado que começava em um cemitério mexicano.

"O relógio passa a correr assim que completam um túnel", disse Kevin Hecht, um especialista em túneis da Patrulha de Fronteira. "Eles sabem que nós os encontraremos. Mas mesmo que apenas uma carga passe pelo túnel até o encontrarmos, eles o consideram um sucesso."

Apesar de Donald Trump, o candidato presidencial republicano, ter transformado a construção de um muro na fronteira em um elemento central de sua campanha, a cerca aqui com 9 metros tem feito pouco para deter os traficantes. Ela apenas ajudou a levá-los ao subsolo.

Os agentes da Patrulha de Fronteira não conseguem ouvir os contrabandistas escavando e não sabem quantos túneis existem, uma falha na segurança da fronteira que especialistas em segurança doméstica dizem tornar inútil a conversa sobre um muro.

"A Patrulha de Fronteira tem feito um trabalho incrível, considerando seus recursos", disse o general Barry R. McCaffrey, o diretor de políticas de combate às drogas da Casa Branca durante o governo Clinton. "Mas seria um exagero dizer que a fronteira e as comunidades de fronteira estão seguras quando a agência carece de uma habilidade confiante de detecção dos túneis que cruzam a fronteira. Nenhum muro resolverá isso."

Durante seu discurso sobre imigração na quarta-feira no Arizona, Trump disse que seu plano de segurança na fronteira usaria a melhor tecnologia disponível, incluindo sensores acima do solo e no subsolo para "encontrar e desmontar os túneis, mantendo os cartéis criminosos de fora".

Mas não existe tecnologia para detecção dos túneis de forma confiável e especialistas disseram que pode levar anos até que um sistema desses seja desenvolvido.

Desde a descoberta do primeiro túnel em 1990 em Douglas, Arizona, as autoridades de fronteira dizem ter encontrado quase 200 outros ao longo dos 3.141 quilômetros da fronteira entre os Estados Unidos e México, a maioria no Arizona e na Califórnia. Os túneis são tão numerosos na área de Nogales que os agentes da Patrulha de Fronteira descrevem o solo sob a cidade como um "queijo suíço".

Hecht disse que os contrabandistas cavam túneis principalmente no sistema de drenagem compartilhado pelas duas cidades. Outros são escavados de prédios no México até porões de casas no lado americano. Um túnel foi escavado sob um ponto de entrada altamente policiado.

 

Avanços tecnológicos como radar de solo para detecção de movimento, centenas de câmeras de alta tecnologia com lentes de visão noturna e drones sobrevoando transformaram drasticamente a segurança na fronteira. Essas ferramentas ajudaram os investigadores federais a monitorar e prender centenas de suspeitos de contrabando, assim como a apreensão de toneladas de maconha, metanfetaminas e cocaína. Robôs por controle remoto ajudam agentes a explorar túneis que são arriscados demais para a entrada de humanos.

O governo americano gasta centenas de milhões de dólares em pesquisa na esperança de encontrar uma forma de detectar os túneis, mas a maioria desses esforços termina em decepção. Mais recentemente, o Diretório de Ciência e Tecnologia do Departamento de Segurança Interna concluiu que nenhum dos métodos usados atualmente para detecção de túneis subterrâneos era "necessariamente adequado às necessidades operacionais dos agentes da Patrulha de Fronteira".

Na ausência de tecnologia para detecção dos túneis, as autoridades da Patrulha de Fronteira trabalham com as autoridades mexicanas na obtenção de informantes e patrulhamento da fronteira, incluindo a infraestrutura de água e esgoto, à procura de atividade suspeita. Cerca da metade dos agentes da Patrulha da Fronteira daqui foi treinada para trabalho subterrâneo.

"Mas se você não sabe de algo, você não simplesmente não sabe", disse R. Gil Kerlikowske, o comissário da Agência Americana de Aduana e Proteção de Fronteiras, que reconheceu que podem existir muito mais túneis.

Parte do problema na detecção de túneis, dizem especialistas como Paul Bauman, um geofísico canadense, é o próprio solo. Encontrar o que há sob a superfície não é tão simples como disparar ondas de radar ou eletromagnéticas no solo, ele disse.

Com rachaduras subterrâneas, lençóis freáticos, raízes de árvores e cavernas, é difícil dizer o que é um túnel e o que não é, ele disse.

Bauman, que trabalhou com as Forças de Defesa de Israel em seus esforços para encontrar túneis, disse que a maioria dos dispositivos utilizados para detecção de túneis foi desenvolvida para indústrias encontrarem petróleo ou depósitos minerais, não túneis do narcotráfico.

Carey M. Rappaport, um professor de engenharia elétrica e de computação na Universidade do Nordeste, em Boston, disse que a profundidade de muitos túneis também representa um desafio tecnológico. Alguns podem chegar a 30 metros de profundidade, fora do alcance da maioria dos aparelhos de radar de solo e sensores.

"O solo é muito bom em guardar segredos", disse Rappaport, que também trabalhou com os governos americano e israelense em métodos de detecção de túneis.

Em um projeto de lei orçamentária da defesa de 2016, o Congresso destinou cerca de US$ 120 milhões para um projeto conjunto do Departamento de Defesa e das Forças de Defesa de Israel para detecção de túneis. Israel está entre vários países, incluindo Egito, Jordânia e Coreia do Sul, que já enfrentaram problemas sérios com grupos hostis usando túneis para realizar ataques. As autoridades americanas esperam que a tecnologia desenvolvida em Israel possa auxiliar nos esforços na fronteira mexicana.

Uma porta-voz do Ministério da Defesa israelense se recusou a comentar.

O Diretório de Ciência e Tecnologia do Departamento de Segurança Interna também está gastando vários milhões de dólares por ano no financiamento de pesquisa para detecção de túneis.

Em San Diego, uma força-tarefa de agentes do Departamento de Imigração e Aduana, Investigações de Segurança Interna, Patrulha de Fronteira e da Administração de Combate às Drogas experimentou uma série de tecnologias para detecção de túneis, assim como seus colegas em Nogales.

Uma das ferramentas é um aparelho de radar de solo que parece um grande cortador de grama. O aparelho, que visa localizar linhas subterrâneas de empresas de serviços públicos e falhas na construção de estradas, dispara ondas de radar a cerca de 3 metros no solo. Uma tela mostra vários tons que identificam anomalias subterrâneas que poderiam ser túneis.

Mas com frequência isso não é profundo o bastante. "Nunca encontramos um túnel as utilizando", disse David Shaw, um agente especial encarregado das Investigações de Segurança Interna, em San Diego.

Shaw disse que a força-tarefa emprega principalmente técnicas de investigação à moda antiga, como o cultivo de informantes nos cartéis ou fazer com que donos de negócios e moradores denunciem atividades suspeitas.

Foi assim que o mais recente túnel em San Diego foi descoberto em abril. Sua saída ficava em uma área isolada por cerca no distrito de depósitos industriais de Otay Mesa, a cerca de 450 metros da fronteira.

Segundo Wendi Lee, uma agente da Patrulha de Fronteira, os donos de negócios do outro lado da rua alertaram a agência sobre atividades que consideravam suspeitas. O túnel, escondido sob uma caçamba de lixo, tinha cerca de 700 metros de extensão. As autoridades apreenderam cerca de 1 tonelada de cocaína e 6 toneladas de maconha. O túnel foi um dos descobertos na área nos últimos anos.

"Os contrabandistas continuam cavando túneis porque eles funcionam", disse Shaw.

Mesmo assim, alguns agentes da lei dizem que seus esforços parecem estar surtindo efeito. Dados da Segurança Interna mostram que menos túneis foram descobertos nos últimos anos.

Entretanto, Hecht, da Patrulha de Fronteira em Nogales, disse que o número de túneis descobertos não deve ser usado como medida de sucesso.

"Para cada túnel que encontramos, sentimos que eles estão abrindo outro em algum lugar e que podem ser mais criativos em ocultá-lo", ele disse. "No ano que vem, posso encontrar 10. Até que exista algum dispositivo no mercado que nos ajude a detectá-los com precisão, não temos como saber."

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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