Motoristas da Uber trabalham de forma contraproducente? Economistas avaliam

Noam Scheiber

  • Roger Kisby/The New York Times

    Tatonia Snowden, 49, motorista da Uber em Nova York

    Tatonia Snowden, 49, motorista da Uber em Nova York

A empresa de carona compartilhada Uber é mais conhecida pela disrupção que está causando no setor de táxis. Agora parece estar provocando agitação também no setor de economia.

Por quase 20 anos, os economistas debatem como os taxistas decidem quando encerrar sua atividade diária. Isso pode parecer uma questão trivial, mas é uma que vai ao âmago da questão sobre se os seres humanos são fundamentalmente racionais, neste caso, se ganham sua renda de forma eficiente, como a disciplina tradicionalmente presume. 

De um lado está um grupo de economistas comportamentais que encontraram evidência de que muitos taxistas trabalham mais horas nos dias em que o movimento está fraco e menos horas quando há maior demanda, o oposto do que ditaria a racionalidade econômica, para não dizer o bom senso. 

Do outro lado está um grupo de economistas mais ortodoxos, que argumentam que esse hábito perverso é em grande parte uma ilusão por parte de certos pesquisadores. Assim que números mais precisos são consultados, eles argumentam, se percebe que os motoristas costumam trabalhar mais horas quando é de seu interesse financeiro fazê-lo. 

A questão tem implicações para outros trabalhadores, como produtores rurais e proprietários de pequenos negócios. E ganhou uma importância adicional à medida que cresce a economia de bicos (ou de compartilhamento), deixando mais pessoas na posição de decidir quantas tarefas realizar por dia, da montagem de móveis à marcação de fotos. 

Então, quem está certo? É aí onde entra a Uber. Quando um dos pesquisadores da empresa, usando seus dados altamente detalhados sobre o horário de trabalho dos motoristas e viagens, entrou no debate com um artigo neste ano, os resultados foram intrigantes. 

No geral, havia pouca evidência de que os motoristas estavam dirigindo menos quando podiam ganhar mais por hora do que o habitual. Mas isso não valia para grande parte dos novos motoristas. Muitos desses motoristas pareciam ter uma meta de renda em mente e paravam quando se aproximavam dela, fazendo com que parassem mais cedo quando a remuneração por hora deles era maior e trabalhando mais quando a remuneração era baixa. 

(A remuneração por hora dos taxistas geralmente reflete quão ocupados estão; a tarifa que podem cobrar não muda inesperadamente. No caso dos motoristas da Uber, a remuneração por hora reflete tanto o quanto estão ocupados quanto as tarifas, já que a Uber pode aumentar preços quando a demanda é alta.) 

"Uma fração substancial, apesar de não a maioria, dos parceiros de fato ingressa no mercado com comportamento de meta de renda", escreveu o autor do artigo, Michael Sheldon, um cientista de dados da Uber. O comportamento então "é aprendido rapidamente em prol de uma tomada de decisão mais eficaz". 

Na prática, o que Sheldon disse é que os seres humanos geralmente racionais que a maioria dos economistas presume existir não nascem assim, mas se fazem com o passar do tempo, ao menos no que se refere à atividade da Uber. 

As evidências da Uber acentuam alguns pontos sobre os quais ambos os lados do debate já concordavam, como a ideia de que os motoristas conseguem ganhar mais dinheiro por horas trabalhadas à medida que ganham experiência. 

"O efeito do aprendizado não perturba nenhum princípio da economia", disse Colin Camerer, um professor de economia do Instituto de Tecnologia da Califórnia e o principal autor do estudo pioneiro mostrando que muitos taxistas violam a ideia de racionalidade dos economistas. 

Henry Farber, um economista de Princeton e autor de vários estudos afirmando o ponto de vista tradicional, corroborou esse sentimento, dizendo que até mesmo seus trabalhos sugerem que iniciantes com frequência não dirigem o suficiente quando a demanda é intensa. "Novos motoristas que não aprendem isso deixam o negócio", ele disse. "Aqueles que permanecem tendem a aprender." 

Camerer e Richard Thaler, um professor de economia da Universidade de Chicago e coautor do artigo original, também apresentaram uma posição de meio-termo para a qual há amplo apoio: pode ser que os taxistas e outros trabalhadores estabeleçam metas como de renda ou apenas não sejam tão fanáticos em atingi-las. Eles podem simplesmente ignorar a meta quando sua remuneração por hora se estende além de uma certa quantidade em uma direção ou na outra. 

Mesmo assim, a questão sobre se muitos motoristas se atêm a uma meta de renda a ponto de trabalharem mais horas quando o trabalho paga menos que o habitual, e menos horas quando paga mais, abriu uma divisão crucial. 

A posição convencional é de que apesar de as pessoas poderem ficar aquém dos que os manuais econômicos recomendam, às vezes ficando aquém quando estão iniciando uma atividade agrícola, consertando refrigeradores ou dirigindo um táxi, elas geralmente não agem contra seu interesse próprio, como manter uma meta de renda que lhes prejudica. 

Os comportamentalistas, por sua vez, são muito mais abertos a essa possibilidade, apesar de terem moderado suas posições sobre até que ponto os motoristas fazem isso. 

Ao encontrar evidência de que muitas pessoas seguem uma meta de renda, mesmo que apenas até ganharem mais experiência, o estudo da Uber parece dar a Camerer e seus coautores uma pequena dose de razão, após anos de ceticismo por parte de colegas economistas. 

(Outros estudos confirmaram a conclusão do artigo original, mas muitos se apoiavam em dados relativamente rudimentares e, portanto, também eram vulneráveis a críticas.) 

Camerer notou que o exemplo da Uber é um caso especial e que pode não se aplicar a todos os motoristas, mas que outros motoristas podem apresentar uma probabilidade ainda maior de se ater a uma meta de renda, por contarem com menos informação sobre o que poderiam ganhar caso continuassem dirigindo. 

Farber, por sua vez, proclamou a conclusão da Uber como sendo "interessante" e disse que "para os novos motoristas, poderia significar que sem informação e muita experiência, eles usam o critério amplamente aceito". 

Mesmo assim, ele disse que não considera particularmente perturbador do ponto de vista intelectual o fato de muitos novos motoristas da Uber adotarem regras contraproducentes, e ainda menos se uma porção desses motoristas usar a plataforma para ganhar uma renda extra, que não necessitam para se sustentar. 

"Acho que passei a acreditar que as pessoas tendem a abrir mão de dinheiro quando não há a questão da sobrevivência, ou forças de mercado a pressionem a ganhar esse dinheiro", disse Farber. Ele prefere reservar uma decisão final após mais dados e uma maior análise. A Uber não costuma divulgar seus dados por razões de segredo comercial. 

Quanto a Sheldon, o autor do artigo da Uber, ele atribui suas conclusões à natureza aventureira de muitos motoristas do Uber, que são abertos a ingressar em território não familiar. É a própria não familiaridade da experiência de condução da Uber, ele especulou, que poderia explicar a tendência inicial de comportamento econômico irracional. 

Sheldon se mostrou menos aberto à ideia de que pessoas que não dependem da Uber para sobreviver contribuíram para o resultado de seu trabalho. Até onde a Uber pode dizer a partir de outras pesquisas, ele disse, aquele que trabalham de forma irregular respondem mais aos aumentos de tarifa do que os motoristas regulares, de qualquer faixa de renda. 

Seja qual for o caso, o resultado parece ter uma implicação muito óbvia: qualquer um que tente se dar bem na economia de bicos deve escolher uma plataforma favorita ou duas e se ater a ela, em vez de saltar constantemente de um tipo de atividade para outra.

 "Uma maior experiência é melhor para os parceiros e para a própria plataforma", disse Sheldon. "Nós definitivamente queremos manter esses indivíduos engajados com a plataforma até aprenderem como atuar da melhor forma."

Uber sem motorista pode ser próximo passo da empresa

  •  

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos