Por que tantos americanos apoiam a candidatura de Donald Trump?

Declan Walsh

Em Phoenix (EUA)

  • Lucas Jackson/Reuters

"Donald!" gritou uma mulher na primeira fila na sede do Partido Republicano do Arizona. Na grande tela de TV diante dela, Donald Trump se apresentava para o confronto com Hillary Clinton no debate. Entre as 84 milhões de pessoas que assistiram ao primeiro debate presidencial da eleição geral, o público em Phoenix estava preparado para uma disputa de gladiadores.

Eles exerceram seu papel com gosto: gritando, vaiando ou gargalhando quando Hillary falava; vibrando e dando socos no ar por Trump. Ronald Reagan, o santo padroeiro do republicanismo moderno, ria de um retrato emoldurado no canto. Pizza era servida.

Parecia um bom lugar para fazer a pergunta que desconcerta tantos observadores fora dos Estados Unidos: por que tantos americanos apoiam Trump?

Leitores que enviam e-mails do exterior ficam surpresos com a agressividade, insultos e mentiras da campanha. Eles não entendem como uma disputa pela presidência americana pode ser dominada por discussões em torno de e-mails apagados, o local de nascimento de Obama ou candidatas de concurso de beleza.

Por todos os Estados Unidos, entretanto, a campanha trata-se de mais que isso. Eu passei os últimos 10 dias conversando com simpatizantes de Trump, à procura de respostas.

O Arizona, com seus desertos abrasadores e montanhas escarpadas, há muito é um reduto republicano, um local de política de inclinação conservadora e leis de porte de armas liberais. O mais proeminente defensor de Trump no Estado é o xerife Joe Arpaio, do condado de Maricopa, que se tornou notório por sua intolerância com imigrantes ilegais e por obrigar os presidiários a vestirem cuecas cor-de-rosa.

Na festa para o debate em Phoenix, o público de maioria branca era tomado por um clima evidente de expectativa. Após uma queda acentuada em agosto, Trump estava de novo em alta nas pesquisas. Será que ele conseguiria passar à frente de Hillary?

A primeira salva de aplausos ocorreu quando Trump disse que Hillary está "fazendo isso há 30 anos", com pouco o que mostrar por seus esforços. Mas à medida que o debate prosseguia e a energia de Trump começava a cair, o mesmo ocorreu no clima na sala. Na tela, Hillary ganhava confiança, lançando uma série de ataques. E como Trump tinha dificuldade para responder, o público no Arizona passou a mergulhar em silêncios cada vez mais longos.

Um eleitor de Trump na sala, que não quis ser identificado por temer ameaças não especificadas de eleitores de Hillary, disse que não espera que seu candidato seja tão polido quanto um político profissional. Ele estava disposto a aceitar o impertinente Trump como ele é, ele disse.

Outros presentes na festa do debate disseram ter ficado preocupados com o desempenho de Trump. Kathy Manie, vestindo um boné vermelho "Torne a América Grande de Novo", disse ter ficado decepcionada por Trump ter parecido despreparado para os ataques ensaiados de Hillary. "Ele podia ter falado de forma mais eloquente", ela disse. "Hillary sabia exatamente como provocá-lo e ele mordeu todas as iscas. Ele se empenhou o máximo que pôde, mas gostaria que as palavras dele tivessem sido mais fortes."

Manie não é a típica eleitora de Trump. Nascida em Trinidad, ela emigrou para os Estados Unidos há mais de duas décadas, quando tinha 21. Ela é uma assistente social e uma cristã praticante, e disse estar rezando pela vitória de Trump.

"Não posso suportar mais quatro anos de um democrata comandando este país", ela disse, porém preocupada que as forças da história estejam atuando contra sua preferência. "Estamos em um momento em que o mundo parece querer uma mulher na presidência."

Alguns simpatizantes de Trump são menos acessíveis. Na semana passada em Houston, eu fui expulso de um evento de Trump patrocinado por um grupo anti-imigração, que era contrário às minhas tentativas de entrevistar seus apoiadores. Antes que me pedissem para sair, um simpatizante de Trump se aproximou meio que de lado, fazendo comentários para mim sobre "serpentes na grama que picam as pessoas".

Dias depois, em uma feira de condado no sul do Arizona, representantes de um clube local de armas se recusaram a falar comigo. A única citação que obtive veio de suas camisetas, que diziam: "Hillary para a Prisão".

Porém muitos outros eleitores eram mais pensativos sobre seu apoio a Trump. No domingo, me encontrei com Dan Bell, um criador de gado que vive na fronteira do Arizona com o México e cujas terras são frequentemente invadidas por imigrantes e narcotraficantes. Bell é um fazendeiro clássico: um sujeito corpulento de olhos azuis, com chapéu de caubói, serenamente franco. Para ele, Trump representa uma mudança urgentemente necessária.

"Sim, há coisas que eu preferia que ele não tivesse dito", ele me disse enquanto percorríamos ao longo da fronteira em seu jipe, com chuva pingando contra o parabrisa. "Mas este país precisa de uma correção de curso. Ele é bem-sucedido nos negócios. Precisamos remover os políticos de carreira."

Esse é um sentimento comum entre os apoiadores de Trump: o candidato deles mistura um potente sentimento anti-establishment com um certo tipo de autenticidade americana. Eles podem não concordar com todos seus ataques mais escabrosos, apesar de algumas pessoas sim, mas o veem como arquétipo de um empresário bem-sucedido, apesar de fanfarrão. Para eles, Trump é uma pessoa cujas palavras devem ser ouvidas sem levar muito a sério.

Trump parece ter ficado irritado com o debate de segunda-feira, que foi amplamente visto como uma vitória de Hillary. Reagindo, ele culpou seu desempenho ruim ao moderador do debate ter sido tendencioso, assim como a um microfone defeituoso, além de ter ameaçado transformar a infidelidade conjugal de Bill Clinton em assunto no próximo debate, marcado para 9 de outubro em Saint Louis.

A sabedoria popular política entende que o desempenho imprevisível de Trump em debates, apesar de agradar seu principal eleitorado, não contribui para persuadir outros segmentos da sociedade, como mulheres e brancos com ensino superior, aqueles cujo apoio ele precisa desesperadamente. Os republicanos tradicionais o repudiam.

Na terça-feira, o jornal "The Arizona Republic", que nunca apoiou um democrata à presidência desde que começou a ser publicado em 1890, declarou formalmente seu apoio a Hillary. "O candidato republicano de 2016 não é um conservador e não está qualificado", disse o jornal.

Mas o saber popular já esteve errado tantas vezes nesta eleição a ponto de apenas tolos menosprezarem Trump.

Enquanto as pessoas chegavam à festa do debate na noite de segunda-feira em Phoenix, Phil Lovas, um membro da Assembleia Legislativa do Arizona que dirige a campanha de Trump no Estado, pedia às pessoas que levassem para casa um placa de Trump para fincar no gramado. "Temos 43 dias até elegermos o presidente Trump", ele disse. "Precisamos de sua ajuda."

O homem sentado ao meu lado, que permaneceu em silêncio durante grande parte do debate, interveio. "Presidente Trump", ele repetia, falando as palavras em um baixo murmúrio, como se as estivesse testando para saber como soavam.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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