Editoriais dos jornais mostraram sua rejeição a Trump; os eleitores vão escutar?

Jim Rutenberg

  • Reprodução/USA Today

    Em 34 anos de história, o "USA Today" nunca havia se posicionado nas eleições presidenciais dos EUA

    Em 34 anos de história, o "USA Today" nunca havia se posicionado nas eleições presidenciais dos EUA

A revista "The Atlantic" só apoiou dois presidentes em sua história de 159 anos: Abraham Lincoln, em 1860, e Lyndon B. Johnson, em 1964.

O terceiro foi na última quarta-feira (05) à tarde, quando a revista postou um editorial apoiando Hillary Clinton para presidente e rejeitando Donald Trump como "o candidato mais ostensivamente desqualificado na história de 227 anos da Presidência americana". Para não deixar dúvidas, chamou-o de "demagogo, xenófobo, sexista, ignorante e mentiroso".

Na véspera, Graydon Carter, da "Vanity Fair", escreveu em sua carta do editor na edição de novembro: "Por meio de palavras ou ações, Trump promoveu a violência das armas, o preconceito, a ignorância, a intolerância, a mentira e praticamente tudo o mais que pode estar errado em uma sociedade".

Isso foi depois que o "USA Today" fez o primeiro apoio presidencial em sua história --ou, mais precisamente, um "desapoio", pois saiu contra Trump ("inadequado para a Presidência"), mas não a favor de Hillary Clinton ou de alguma alternativa.

Este é o momento no ciclo eleitoral em que os colunistas da mídia escrevem sobre se os endossos têm a ver com o resultado. A resposta é, geralmente, se não sempre, "não".

Trump encurta distância de Hillary, mostram pesquisas

Mas a pergunta ganha outra dimensão este ano por causa do mero peso dos endossos contra Trump. Eles são avassaladoramente contra ele, e continuam surgindo, em linguagem notável por sua crua condenação do candidato e seu tom de "salvem a República".

Os apoios vêm não somente dos suspeitos habituais da mídia da corrente dominante, mas também de jornais que nunca apoiaram um democrata ou não o faziam há muitas décadas --"The Dallas Morning News", "The Arizona Republic", "The Cincinnati Enquirer"--, ou nunca haviam apoiado um candidato presidencial, como o "USA Today".

"The Wall Street Journal" não chegou lá, pelo menos ainda não, mas um membro de seu conselho editorial de tendência conservadora, Dorothy Rabinowitz, chamou Trump de "inadequado".

O mais marcante é a sensação coletiva de alarme que eles transmitem --que Trump é um "demagogo perigoso" ("USA Today") cuja eleição representaria um "claro e presente perigo" ("The Washington Post", "The Cincinnati Enquirer"), ou, como disse o editor de "The Atlantic" Scott Stossel em uma entrevista na terça-feira, "uma potencial emergência nacional ou ameaça à República".

É a mesma linha básica que a revista usou quando decidiu quebrar sua promessa fundacional de ser "o órgão sem partido ou grupo" e endossou Johnson em 1964 e, de maneira mais dramática, Lincoln em 1860.

Entretanto, apesar de toda a decepção pan-ideológica nos conselhos editoriais dos EUA, uma enorme parte do país simplesmente não vê a coisa do mesmo modo.

As pesquisas nacionais não são ideais para se prever o resultado final no Colégio Eleitoral. Mas elas captam o sentimento do país. E neste momento a média de pesquisas do "The New York Times" --de várias pesquisas nacionais-- mostra que 41% do país escolheria Trump e não Hillary se a eleição fosse hoje. (Com 45%, ela ainda tem força.)

A divisão entre a opinião editorial e uma parcela significativa dos eleitores, especialmente os republicanos, existe há décadas. Mas esta campanha leva esse cisma a um nível totalmente novo --não só por causa da mistura de publicações que pesam contra o candidato republicano, mas também por causa do contraste entre sua visão apocalíptica de uma presidência Trump e a crença de seus seguidores em que ele de fato "tornará os EUA novamente grandes".

Mas enquanto a linguagem das advertências editoriais atinge níveis de decibéis cada vez mais altos, o mesmo acontece com a linguagem dos ataques contra a mídia da corrente dominante. Trump está instigando esses ataques, pintando a mídia como um dos "interesses especiais" que "usaram o sistema contra os americanos comuns", como ele disse em New Hampshire na semana passada.

O que nos leva à questão de quantas mentes tudo isso muda. Os apoiadores empedernidos de Trump sem dúvida verão os editoriais como mais evidências a favor da tese de Trump de que a mídia está em conluio. Trump disse recentemente algo parecido quando comemorou a perda de assinaturas que os apoios mais surpreendentes de Hillary causaram em alguns casos, dizendo em uma postagem no Twitter: "As pessoas são realmente inteligentes ao cancelar assinaturas dos jornais de Dallas e Arizona, e agora o 'USA Today' vai perder leitores! As pessoas entendem!"

(O apresentador da Fox Business Charles Gasparino ofereceu um possível motivo: "Um ódio invejosamente enraizado" de sua riqueza, "suas lindas mulheres" e seu sucesso na televisão.)

Conheça algumas curiosidades sobre as eleições americanas

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Uma pergunta poderosa é se eles influem entre os eleitores realmente indecisos. Isso é, e continuará sendo, difícil de determinar. Encontrei alguns dados interessantes do Google, que podem dar uma sensação do que as pessoas procuram em sua máquina de buscas onipresente.

As buscas por Clinton subiram quase 50% no condado de Dallas depois da recomendação do "The Dallas Morning News" no início de setembro, embora não tanto quanto por causa do nadador americano Ryan Lochte --depois de seu problema policial no Brasil-- ou para o jogo entre os Dallas Cowboys e os New York Giants. Ela virou tendência no condado de Hamilton em Cincinnati depois do apoio do "Enquirer", e em todo o Arizona depois do endosso do "Republic", embora dados de Hamilton County mostrem que ela estava listada atrás de temas como "avistamentos de palhaços" e "dia nacional do café".

Stossel, da "Atlantic", disse que tem consciência da divisão no país.

"As pessoas que apoiam Trump têm problemas legítimos, e ele está lhes falando de maneiras que têm clara repercussão", disse ele. (O editorial, cuja linguagem foi modulada pelo correspondente da Atlantic Jeffrey Goldberg, as aborda dizendo que Trump deixou de apresentar "políticas realistas para abordar" suas "legítimas ansiedades".)

Stossel sabe que o poder dos endossos pode ser limitado. Mas, disse ele, "esperamos que nosso endosso, juntamente com muitos destes outros, tenha um efeito amplificador que seja transmitido como marolas".

"Se isso afetar só algumas pessoas nas margens em alguns Estados chaves, poderá fazer uma diferença", disse ele.

"Diante de nossos endossos anteriores, estamos dois por dois", comentou ele. A marca ficará ou cairá em 8 de novembro.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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