Carta aberta à mulher que mandou minha família voltar para a China

Michael Luo*

Cara senhora:

Talvez eu devesse tê-la ignorado, oferecido a outra face. Eu, minha família e alguns amigos tínhamos acabado de sair da igreja, no Upper East Side de Manhattan. Estávamos indo almoçar, tentando ver se havia lugar no restaurante coreano no final da rua. Você estava com pressa, estava chovendo, e nosso carrinho de bebê e um bando de asiáticos estavam no seu caminho.

Mas fiquei sinceramente pasmo quando você gritou para nós da outra ponta do quarteirão: "Voltem para a China!"

Hesitei por um segundo, e depois corri para confrontá-la. Isso deve tê-la surpreendido. Você sacou seu iPhone na frente do Equinox e ameaçou chamar a polícia. Pensando agora, foi cômico. Você é que deveria ser denunciada, especialmente depois que fui embora e você me mandou voltar para meu país, aos gritos, junto com um xingamento.

"Eu nasci neste país!", gritei de volta.

Pareceu meio bobo. Mas como mais eu poderia provar que pertencia a este país?

É claro que essa não foi minha primeira experiência com insultos racistas. Pergunte a qualquer americano de origem asiática, e eles logo evocarão lembranças de provocações no pátio da escola, ou experiências perturbadoras na rua ou no mercado. Quando postei no Twitter sobre isso, uma avalanche de pessoas respondeu.

Mas, por algum motivo, dessa vez me pareceu diferente. Sim, provavelmente tem a ver com o atual clima político.

Enquanto caminhava de volta para casa, uma pontada de tristeza tomou conta de mim.

Você estava usando uma bela capa de chuva. Seu iPhone era um 6 Plus. Você poderia ser mãe de uma colega de escola de uma das minhas filhas. Você parecia, bem… normal. Mas você tinha esses sentimentos dentro de você, e a realidade é que muita gente neste país também tem neste momento.

Talvez você não saiba disso, mas os insultos que você proferiu contra minha família atingem o cerne da experiência dos americanos de origem asiática. É com essa persistente sensação de estranheza que muitos de nós lutam todos os dias. É a impressão de que, não importa o que fazemos, não importa o quão bem-sucedidos nós somos, não importa os amigos que fazemos, nós não pertencemos a este país. Somos estrangeiros. Não somos americanos. É um dos motivos pelos quais a reportagem da Fox News exibida outro dia sobre Chinatown, com o caratê e os nunchakus e o inglês com sotaque, gerou tanta revolta.

Meus pais fugiram da China continental para Taiwan antes da tomada comunista. Eles vieram para os Estados Unidos fazer pós-graduação, criaram dois filhos, ambos formados em Harvard. Eu trabalho no "New York Times". É uma minoria modelo, de fato.

No entanto, de alguma forma muitas vezes ainda me sinto como um forasteiro.

Penso se minhas duas filhas que estavam comigo hoje também se sentirão assim para sempre.

Sim, o tanto que recebi de apoio pela internet, incluindo do prefeito Bill de Blasio, foi gratificante.

Mas depois minha filha de 7 anos, que testemunhou toda a cena, ficou perguntando para minha mulher: "Por que ela falou para a gente voltar para a China? A gente não é da China."

Não, não somos, disse minha mulher, que tentou explicar por que você pode ter dito isso e por que as pessoas não deveriam julgar os outros.

Ela disse à minha filha que somos dos Estados Unidos, mas que as pessoas às vezes não entendem isso.

Espero que agora você entenda.

Atenciosamente,

Michael Luo

* Michael Luo é editor-adjunto do caderno de Cidades e editor da equipe do Race/Related do "The New York Times"

Tradutor: UOL

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