Sem o EI, moradores de Mossul agora enfrentam a desconfiança entre si

Tim Arango

Em Irbil (Iraque)

  • Goran Tomasevic/ Reuters

    Jovem segura uma bandeira branca diante de soldados iraquianos em Mossul

    Jovem segura uma bandeira branca diante de soldados iraquianos em Mossul

Há mais de dois anos, um fazendeiro cristão septuagenário chamado Mosa Zachariah fugiu de seu vilarejo perto de Mossul com, como ele colocou, apenas as calças que estava vestindo. Ele deixou para trás sua casa, "toneladas de trigo" e uma BMW.

Mas agora que sua cidade, um dos primeiros alvos das forças de segurança iraquianas enquanto avançam para a própria Mossul, foi libertada das forças do Estado Islâmico, não é júbilo o que ele sente, mas medo do que o espera caso tente retornar. Ele falou melancolicamente sobre a diversidade de sua cidade como algo completamente inatingível agora.

"Naquela época, muçulmanos e cristãos eram como irmãos", ele disse.

Musab Juma, um xiita que vivia na área de Mossul, também disse que não voltaria. Ele se mudou para Najaf, no sul do Iraque, onde tem uma barraca de comida e decorou sua casa com velhas fotos e antiguidades de sua cidade natal. Os yazidis, curdos e shabaks, outras minorias que já foram peças vitais da tapeçaria humana de Mossul, também partiram. E muitos árabes sunitas, que compõem grande parte da população de Mossul, também disseram que não pretendem voltar, mesmo tendo seus pais e avôs enterrados ali.

Antes do início da ocupação pelo Estado Islâmico há mais de dois anos, Mossul era a cidade mais diversa do Iraque. Sua rica cultura, que remontava aos antigos assírios, e reputação de tolerância a tornavam um símbolo vital de um Iraque que poderia ao menos aspirar em ser um país unificado.

Agora, enquanto os civis exilados de Mossul assistem a batalha por sua cidade se desdobrar, a única coisa que parecem ter em comum é a crença de que antes compartilhavam uma história especial que nunca mais voltará.

Parte dessa crença, mas não toda, foi destruída após a invasão liderada pelos Estados Unidos ao Iraque em 2003, quando muitos cristãos se sentiram ameaçados e fugiram, enquanto árabes e curdos lutavam em torno de antigas animosidades. Mossul, lar de muitos ex-oficiais do exército baathista que repentinamente se viram afastados do poder após a invasão, se transformou em um centro da insurreição sunita e um reduto da Al Qaeda no Iraque, a precursora do Estado Islâmico.

"Até 2003, a comunidade de Mossul vivia em coexistência pacífica, mas depois disso, as coisas mudaram", disse Jafar Khaleel, 46 anos, que deixou Mossul em 2014, após a tomada pelo Estado Islâmico. "Os sunitas não confiam nos xiitas. Os shabaks não vivem junto com cristãos. Foi isso o que a ocupação americana deixou para trás."

Emoção nas ruínas de Mossul

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Na época, havia um pacto social para as minorias do Iraque que ao menos garantia segurança em troca da tolerância pela tirania e falta de liberdades pessoais sob o governo de Saddam Hussein, liderado por uma elite da minoria sunita da população do Iraque. Hoje, há ampla nostalgia por aquela época, apesar de não ser compartilhada por grande parte da maioria xiita do Iraque, agora no poder.

"Por gerações, a vida foi normal ali", disse Sabah Salim Dawood, uma cristã de 62 anos de Mossul. "Nas fábricas, nas fazendas, nos escritórios, ninguém perguntava: 'O que você é?'"

Agora há um senso de dissolução que parece permanente.

"Um homem não consegue descrever em palavras aquilo que perdeu", disse Omar Ahmed, 29 anos, que trabalhava no Ministério da Saúde de Mossul e agora está exilado na região curda no norte.

Caminhar recentemente por uma igreja saqueada em Bartella, uma cidade de maioria cristã à beira de Mossul, revelou ser uma elegia pelo que foi perdido.

Algumas paredes foram incendiadas, outras cobertas por pichações do Estado Islâmico. Uma tábua branca em uma parede na ante-sala lista as tarefas diárias dos recrutas do Estado Islâmico: exercícios físicos, instruções sobre armas e lições sobre a lei Shariah. Espalhadas pelo chão estavam lembranças empoeiradas daqueles que antes rezavam aqui: livros cristãos, cópias de um jornal publicado pela igreja caldaica, uma figura de Papai Noel, fotos de alunas e uma rosa de plástico.

Um velho guia de turismo iraquiano dos anos 80 celebrava Mossul como sendo uma cidade cuja rica história como local de grandes conquistas árabes, significativos para o passado pré-islâmico da região, a tornavam uma "cidade de grande importância". Seu apelido como "a cidade das duas primaveras", porque o clima do outono e da primavera são muito semelhantes, era uma prova de sua habitabilidade.

"Desde 1969, um Festival da Primavera é realizado todo ano em Mossul", apontava o guia de turismo. "Procissões de flores e danças folclóricas por milhares de pessoas de todos os segmentos da sociedade dão alegria ao lugar."

Os moradores de Mossul têm seu próprio dialeto e piadas, muitas delas baseadas na reputação deles de serem sovinas, que remonta à fome de 1917, quando sofreram quando o Império Otomano se apossou da comida da cidade para alimentar seu exército faminto. O restante do Iraque é conhecido por sua generosidade, mas uma piada comum diz que a única vez em que um morador de Mossul convidará alguém para almoçar é durante o Ramadã, quando todos jejuam.

Mesmo assim, a cidade também é conhecida por sua comida, especialmente o quibe de Mossul, discos chatos de trigo bulgur recheados com carne moída, que são famosos por todo o Iraque. Há abundância de herança cultural, e vestígios de impérios: igrejas antigas, mosteiros, tumbas, templos e um museu de antiguidades que é importante não apenas para Mossul, mas para todo o Oriente Médio. Quase tudo foi destruído ou depredado pelo Estado Islâmico.

Recuperar a cidade socialmente "levará muito, muito tempo", disse Rasha al-Aqeedi, uma árabe sunita de Mossul que atualmente vive em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, onde é pesquisadora do Centro Al-Mesbar de Estudos e Pesquisa e escreve sobre sua cidade natal. "Acho que todos viverão isolados. Os yazidis se isolarão. Os cristãos se isolarão. Os sunitas se isolarão."

Crianças em campo de refugiados no Iraque sonham em voltar a estudar

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Na infância, ela recordou, sua sala de aula tinha sete cristãos, sete ou oito curdos, dois ou três yazidis, um ou dois xiitas, os demais eram árabes sunitas. Quatro ou cinco línguas eram faladas, ela disse, além de três religiões e duas seitas do Islã.

"Essa diversidade não era encontrada em nenhum outro lugar", ela disse. Ao caminhar para a escola, ela passava por uma estátua de um touro alado do período assírio, nos muros da cidade velha, que foi demolido pelo Estado Islâmico.

"Realmente lamento o fato de ter considerado essas coisas como certas", ela disse.

Talvez o mais doloroso seja ver antigos amigos se tornarem inimigos.

Muhammad Sayed, 26 anos, é xiita, assim, para ele, havia apenas uma escolha quando o Estado Islâmico tomou Mossul: partir ou ser morto. Assim como muitos xiitas da cidade, ele acabou se mudando para Najaf, uma cidade sagrada para sua seita, onde agora faz pão e o vende nas ruas.

"O Estado Islâmico destruiu minha infância e minhas lembranças", ele disse. "Ele transformou alguns dos meus amigos em terroristas assassinos, alguns dos amigos com os quais estudei no primário e no colegial, e dos quais tenho as mais belas lembranças. Mas eles se juntaram aos terroristas e, para eles, eu me tornei um infiel."

A tarefa de tentar voltar a unir o Iraque é muito complicada. Mas para os iraquianos que foram deslocados, tudo se resume a uma única e simples emoção humana.

"O grande problema no Iraque é lidar com o medo", disse Falah Mustafa, o ministro das Relações Exteriores da região curda, em um recente painel de discussão em Irbil, sobre o futuro de Mossul. "É extremamente doloroso ser traído por seu vizinho."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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