A guerra do Afeganistão e a evolução de Obama

Mark Landler

Em Washington

  • Doug Mills/The New York Times

    1.mai.2012 - Membros do Exército escutam a discurso do presidente Barack Obama na base aérea de Bagram, no Afeganistão

    1.mai.2012 - Membros do Exército escutam a discurso do presidente Barack Obama na base aérea de Bagram, no Afeganistão

Os conselheiros do presidente Barack Obama se debateram com um problema difícil durante a primavera e o verão de 2015: como eles poderiam estabilizar o Afeganistão e ao mesmo tempo preservar o antigo objetivo de Obama de retirar as últimas tropas americanas antes do término de seu mandato?

No começo de agosto daquele ano, quando Obama convocou uma reunião do Conselho de Segurança Nacional, ele reconheceu uma dura nova realidade.

"Finalmente a febre cedeu nesta sala", disse o presidente para o grupo, de acordo com uma pessoa presente na reunião. "Não estamos mais em modo de construção nacional."

O que Obama quis dizer é que ninguém na Sala de Crise achava que os Estados Unidos —após 14 anos de guerra, bilhões de dólares gastos e mais de 2 mil vidas americanas perdidas— algum dia conseguiriam transformar o Afeganistão em algo parecido com uma democracia capaz de se defender.

O candidato anti-guerra de 2008 que havia prometido melhorar a situação do Afeganistão —a "guerra boa", em comparação com a "guerra má" de George W. Bush no Iraque— havia reconhecido que a mais longa operação militar na história dos Estados Unidos não terminaria durante seu mandato.

O presidente otimista que chegou a pensar que o Afeganistão podia ser vencido se tornou, através de uma dura experiência, o comandante-em-chefe de uma guerra interminável.

Doug Mills/The New York Times
O presidente Barack Obama saúda militares na base aérea de Bagram, no Afeganistão

"No que diz respeito a ajudar essas sociedades a se estabilizarem e criar um ambiente mais seguro e uma vida melhor para seus povos, precisamos entender", ele disse em setembro, "que esse é um trabalho longo e árduo."

Quando chegou julho de 2008, o candidato democrata à presidência Obama havia adotado o Afeganistão como prioridade no lugar do Iraque.

"Essa é uma guerra que precisamos vencer", ele declarou.

Quando Obama tomou posse em janeiro de 2009, ele ordenou que um ex-analista de inteligência, Bruce Riedel, fizesse uma rápida revisão da política para o Afeganistão. Mas mesmo antes que esta fosse completa, ele aceitou uma recomendação do Pentágono de enviar 17 mil soldados adicionais para o Afeganistão, totalizando quase 70 mil soldados americanos em solo.

Quando chegou o outono de 2009, com o Taleban demonstrando uma força cada vez maior, os comandantes militares de Obama o incentivaram a adotar uma ambiciosa estratégia de contrainsurgência que havia ajudado a virar a guerra no Iraque —uma doutrina cara, demorada e exigente em tropas para tentar conquistar os locais construindo estradas, pontes, escolas e um governo operante.

A estratégia requereria até 40 mil americanos e americanas uniformizados a mais no Afeganistão, disseram-lhe seus conselheiros.

"Ainda havia a sensação de sucesso pela intensificação da presença militar no Iraque, e a narrativa de contrainsurgência que havia tornado os militares os salvadores da guerra do Iraque", disse Vali R. Nasr, um ex-conselheiro do Departamento de Estado. "Não acredito que Obama estivesse em uma posição de discutir com os militares no Afeganistão, e impor o que seria sua visão de mundo."

Embora Obama tenha concordado, depois de meses de debates internos, em enviar 30 mil soldados adicionais para o Afeganistão, ele estabeleceu um rígido cronograma para a missão, dizendo que eles teriam de ser retirados a partir de julho de 2011. Seus assistentes disseram mais tarde que ele se sentiu controlado por militares que haviam lhe apresentado uma estreita gama de opções em vez de uma escolha verdadeira.

Até alguns ex-comandantes militares concordaram, dizendo que o envio de tropas foi estabelecido de uma forma que fazia com que escolher um número menor —como 20 mil, por exemplo— parecesse o caminho para uma derrota certa.

"Obama acredita que as forças militares possam fazer muita coisa", disse Benjamin J. Rhodes, vice-conselheiro de segurança nacional. "Elas podem vencer guerras e estabilizar conflitos. Mas as forças armadas não conseguem criar uma cultura política ou construir uma sociedade."

Quando chegou ao final de seu primeiro mandato, Obama havia mudado a ponto de abraçar totalmente o conceito do "Afeganistão bom o suficiente". A frase se referia à migração do pensamento de uma construção nacional para uma política que se contentasse em acabar com os terroristas, evitando que o Taleban invadisse o país e dando prioridade a retirar as tropas.

Em agosto de 2010, havia 100 mil soldados americanos em solo no Afeganistão expulsando o Taleban em algumas áreas críticas. Apesar de progressos desiguais na campanha militar, Ryan Crocker, um diplomata que havia reaberto a embaixada americana em Cabul em 2002 e atuou novamente como embaixador no país em 2011, lembra-se de ter pensado: "Uau, está ótimo aqui!"

A incursão dos SEALs da Marinha que matou Osama Bin Laden no Paquistão em maio de 2011 reforçou a convicção de Obama de que ele estava a caminho de declarar o fim da guerra.

Doug Mills/The New York Times
Os presidentes dos EUA, Barack Obama, e do Afeganistão, Hamid Karzai, se encontram em Cabul, capital afegã

À meia-noite do dia 1º de maio de 2012, o Air Force One chegou para levar o presidente em uma viagem secreta até o Afeganistão. Ele iria assinar um acordo estratégico de parceria com o presidente Hamid Karzai que estabelecia os termos para as relações após 2014, quando os Estados Unidos estavam programados para retirar suas tropas de combate e entregar a segurança do Afeganistão para os afegãos.

O acordo prometia uma "parceria duradoura" entre os Estados Unidos e o Afeganistão. No entanto, as promessas escondiam uma realidade mais dura: Obama havia acelerado o cronograma para retirar as tropas americanas, e ele estava olhando para além da guerra.

Quando Karzai se recusou a assinar um acordo de segurança de longo prazo com Washington, Obama desistiu dele e passou a focar em seu sucessor, Ashraf Ghani. A experiência deixou uma impressão duradoura no presidente, de acordo com seus assistentes. Ele concluiu que sem o parceiro certo, era impossível que os Estados Unidos tivessem sucesso, não importa o quanto de soldados ou dinheiro ele despejasse em um país.

Foi uma percepção que Obama aplicou em suas relações com outros países, desde o Paquistão até Israel, onde os relacionamentos fracos com seus líderes obstruíam um progresso. "A parte mais subestimada da política externa", disse Rhodes, "é lidar com parceiros equivocados."

Quando Obama convocou o Conselho de Segurança Nacional naquele dia de agosto de 2015, o Taleban estava se reagrupando novamente.

À medida que o Estado Islâmico foi se tornando uma ameaça calamitosa o suficiente para se reenviar tropas americanas ao Iraque, Obama se sentiu compelido a mudar sua orientação quanto ao Afeganistão. "O EI prosperou em um vácuo no Iraque, apontando para um vácuo similar no Afeganistão", disse Rhodes.

Mas enquanto o conselho de guerra de Obama se reunia naquela manhã de agosto, o nível de apoio americano continuava sendo tema de intenso debate.

O vice-presidente Joe Biden argumentou que o país voltaria a um caos. "Não importa se saímos amanhã ou daqui a dez anos", ele declarou, de acordo com os presentes na sala.

Gabriella Demczuk/The New York Times
O presidente Barack Obama se prepara para discursar na Academia Militar em West Point, Nova York

O general Martin E. Dempsey, que sucedeu Mullen como presidente do Estado-Maior Conjunto, recomendou que os Estados Unidos mantivessem uma presença militar em Cabul, em Bagram e algumas bases no leste e no sul. Os 10 mil soldados no país executariam uma missão singular e brutal na qual matariam suspeitos de terrorismo e impediriam que o país saísse de controle.

Obama gostou da ideia. Ele disse que estava alinhada com os princípios que ele havia exposto em um discurso de 2014 na Academia Militar dos EUA, no qual ele disse que os Estados Unidos treinariam e equipariam exércitos estrangeiros, mas deixariam os combates diretos com eles. Ele reconheceu que isso significaria entregar o Afeganistão ao seu sucessor como uma questão inacabada.

"Isso vai para a política do que estou deixando para o próximo presidente", disse ele ao grupo, de acordo com um dos participantes. "Meu interesse não é comprometê-los a 10 anos de X", ele acrescentou, referindo-se ao número de soldados, "mas sim apresentar uma visão e dar os primeiros passos para essa visão".

Na entrevista de setembro, Obama contestou a sugestão de que sua política havia falhado. Afinal, ele havia reduzido o número de tropas americanas para menos de 10 mil, partindo de um número de 100 mil. Eles estavam treinando e ajudando as tropas afegãs, ainda que a linha entre isso e um combate real às vezes não fosse clara.

"O Afeganistão era um dos países mais pobres do mundo, com as mais baixas taxas de alfabetização, antes de chegarmos lá. E continua sendo", disse Obama. O país "estava arrasado com todo tipo de divisão étnica e tribal antes de chegarmos lá. Ainda está lá".

No final, o Afeganistão se tornou um modelo para um novo tipo de guerra. Um conflito crônico, atravessando um arco de estados instáveis, do qual os Estados Unidos são um participante, se não o ator principal.

Em uma reunião de cúpula da Otan em Varsóvia, na Polônia, realizada em julho, Obama reconheceu que essa perspectiva decepcionaria um público americano que ainda sofre de fadiga de combate. "Será muito difícil para nós conseguirmos a satisfação de um MacArthur em seu encontro com o imperador [do Japão], com o término oficial de uma guerra", ele disse.

Tradutor: UOL

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