Escolhido de Trump para Defesa é firme opositor da prática da tortura

Sheri Fink e Helene Cooper*

  • Al Drago/The New York Times

    James Mattis, a escolha do presidente eleito Donald Trump para a Defesa, em Washington

    James Mattis, a escolha do presidente eleito Donald Trump para a Defesa, em Washington

O corpo do prisioneiro iraquiano foi encontrado nu e seriamente machucado em 2003, do lado de fora de um centro de detenção no sul do Iraque administrado pelos Fuzileiros Navais dos EUA. O homem de 52 anos havia sido espancado, privado de sono, forçado a permanecer em pé por longos períodos e interrogado pelos fuzileiros navais sobre seu suposto papel em uma emboscada fatal contra forças americanas.

James N. Mattis, o candidato do presidente eleito Donald Trump para secretário da Defesa, era na época um general e comandante da divisão dos Fuzileiros Navais no Iraque responsável pelo centro. Ele logo convocou uma investigação sobre a morte, que levou à corte marcial, e baniu as técnicas severas usadas na prisão.

"O general Mattis protestou muito contra isso", testemunhou Ralph Dengler, na época um tenente-coronel, em uma audiência militar em janeiro de 2004.

Ele acrescentou que o comandante, que chegou horas após a descoberta em uma visita planejada com seu correspondente britânico, havia imediatamente descrito a morte como "a pior coisa que havia acontecido" sob sua supervisão durante a guerra do Iraque.

"Fiquei surpreso por ele ter se afetado tanto por aquilo, considerando as muitas outras mortes, inclusive de americanos", disse Dengler.

Colegas dizem que a forma como o general lidou com o episódio reflete suas posições firmes contra a tortura e os maus tratos a prisioneiros, que são compartilhadas por muitos líderes militares e poderiam colocá-los em oposição com o novo comandante-em-chefe.

Trump, em uma entrevista ao "New York Times" concedida no final de novembro, disse que ele havia ficado surpreso em saber que o homem que ele estava considerando para liderar os 2,2 milhões de militares do país não acreditava em tortura.

Durante a campanha presidencial, Trump defendeu a volta da hoje banida prática da tortura por afogamento simulado, acrescentando que "somente um idiota diria que isso não funciona."

Mattis não apoia técnicas abusivas, muito menos o afogamento simulado. "Dê-me um maço de cigarros e umas cervejas", ele disse a Trump durante seu encontro em novembro, de acordo com o presidente eleito, "e eu me sairei melhor com isso do que com tortura".

As crenças do general foram moldadas por sua formação militar, mas também por suas experiências em lidar com questões relacionadas à tortura ou aos maus tratos, de acordo com uma análise de sua carreira de quase meio século e entrevistas com ex-colegas e amigos.

Mattis liderou o Comando Central dos EUA de agosto de 2010 a março de 2013. O tenente-coronel T.G. Taylor, que foi porta-voz de Mattis durante boa parte desse período, disse em uma entrevista que o comandante havia falado que os Estados Unidos precisavam manter sua ética.

Não conseguir sustentar princípios importantes "torna mais fácil para um soldado ou um fuzileiro naval se perguntar: 'Pelo quê estou lutando?'", disse Taylor.

"Isso é algo do qual o general Mattis está bem ciente", acrescentou.

Quando era um jovem oficial, Mattis teria sido instruído sobre as leis da guerra, incluindo as Convenções de Genebra, que, entre outras proteções, requerem um tratamento humano de prisioneiros de guerra.

Um fuzileiro naval que se alistou em 1969 enquanto frequentava a faculdade —parte de um programa do ROTC (Reserve Officers' Training Corps) durante o auge da Guerra do Vietnã— ele não enviou para o Vietnã. Mas, segundo muitos de seus amigos, ele acreditava que os prisioneiros de guerra americanos tinham uma maior probabilidade de serem torturados pelos vietcongues se os Estados Unidos torturassem prisioneiros inimigos.

Em 2006, Mattis apoiou o general David H. Petraeus do Exército dos EUA e outros líderes militares na elaboração de um novo manual de campo de contrainsurgência que destacasse os limites para as táticas de interrogação.

"Tortura e tratamento cruel, desumano e degradante nunca é uma opção moralmente permissível, ainda que vidas dependam da obtenção de informações", dizia o manual. "Perca legitimidade moral e você perde a guerra."

Mais tarde Mattis concordou, em uma audiência do Comitê das Forças Armadas do Senado, que era inapropriado para os militares apoiarem o uso de técnicas abusivas em detentos, inclusive afogamento simulado, nudez forçada e privação sensorial, táticas infligidas contra prisioneiros durante interrogatórios em prisões secretas da CIA nos anos após os ataques terroristas de 2001.

Essas técnicas haviam sido baseadas em um programa de treinamento militar operado pela Agência Conjunta de Recuperação de Pessoal, que depois passou para o comando do general.

Esse programa, o Survival, Evasion, Resistance and Escape (sobrevivência, evasão, resistência e fuga), também conhecido como Sere, expôs soldados americanos e outros militares a técnicas que um inimigo que violasse as leis da guerra poderia usar de forma que os americanos pudessem estar mais bem preparados para resistir a eles.

A experiência em geral levava os aprendizes a concluir que prisioneiros de guerra torturados dirão qualquer coisa que eles precisem para permanecer vivos, seja verdade ou não.

Uma investigação recente feita pelo "The New York Times" descobriu que muitos suspeitos de terrorismo submetidos a táticas severas nas prisões da CIA ou em prisões militares americanas tinham persistentes problemas de saúde mental similares aos sofridos por alguns ex-prisioneiros de guerra americanos que sofreram abusos terríveis no Vietnã ou na Coreia.

Como comandante no Afeganistão e depois no Iraque, e como líder geral do esforço de guerra americano, Mattis muitas vezes teve de lidar com as consequências do tratamento que a CIA dava a prisioneiros e as duras condições no centro de detenção militar na baía de Guantánamo, em Cuba.

Elas se tornaram uma poderosa ferramenta de recrutamento para jihadistas que ameaçavam as forças americanas em campo.

Ozier Muhammad/The New York Times
27.mar.2003 - O general James Mattis com dois de seus comandantes, próximo ao Eufrates, no Iraque

Ao testemunhar em uma audiência no Senado em 2015 depois de se aposentar, Mattis se mostrou contrário à soltura, antes do fim das hostilidades, de prisioneiros que haviam lutado contra os Estados Unidos. No entanto, ele acrescentou que eles deveriam ser tratados de forma humana, de acordo com as leis nacionais e internacionais.

"Eu seguiria as Convenções de Genebra e os manteria, com supervisão da Cruz Vermelha, até que a guerra termine", ele disse aos legisladores.

O general sentia que a tortura não era efetiva na obtenção de informações. "Em toda sua carreira, ele acreditou que ela simplesmente não dava bons resultados", disse um oficial de alta patente aposentado americano que é próximo de Mattis, mas que falou sob condição de anonimato por medo de isolar Trump.

A referência ao "maço de cigarros", de acordo com pessoas que serviram junto com o general, reflete dois princípios que são incutidos em futuros líderes militares: que informações obtidas por meio de tortura não são confiáveis, e que construir boas relações pode ajudar muito.

"Não sei o que se passa em sua cabeça, mas o que o general Mattis estava dizendo é que oferecer um mínimo de amizade e humanidade a alguém em uma situação desesperadora tem muito mais sucesso do que torturas físicas", disse Taylor.

Hope Hicks, porta-voz da equipe de transição de Trump, recusou pedidos para mais detalhes a respeito das conversas do presidente eleito com Mattis ou sobre a fonte das crenças de Mattis ou qualquer outra opinião que Trump tenha emitido sobre o uso de tortura. Mattis se negou a ser entrevistado.

Muitos líderes militares dos EUA sustentam que o fato de o governo Bush ter se afastado de práticas tradicionais permitindo técnicas rigorosas coercitivas —advogados do governo disseram que elas não se enquadravam na definição legal de tortura, e declararam que os detentos não eram protegidos pelas Convenções de Genebra— manchava a reputação dos Estados Unidos e não dava resultados.

"São ineficientes, são crimes de guerra, vão contra nossos valores, nossa ética etc.", disse Donald J. Guter, um contra-almirante aposentado e reitor da Faculdade de Direito do Sul do Texas, ao explicar sua objeção a tratamentos brutais.

"Uma razão muito prática é o fato de que elas abrem as portas para que nossos próprios soldados sejam torturados, e não temos base para fazer objeções. Se torturamos, nós perdemos quem somos."

* Com contribuição de Eric Schmitt

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