Rebeldes e Assad trocam acusações sobre fim da água potável em Damasco

Ben Hubbard

Em Beirute

  • LOUAI BESHARA/AFP

Para milhões de residentes de Damasco, as longas preocupações sobre o rumo da guerra na Síria foram substituídas por preocupações a respeito de onde se conseguir água suficiente para lavar a louça, lavar roupa ou tomar um banho.

Por quase duas semanas, a capital síria e seu entorno foram afligidos por uma crise de água que secou as torneiras, causou longas filas nos poços e forçou as pessoas a fazerem render os poucos recursos que conseguissem encontrar.

"Quando o mundo fica difícil para nós, damos um jeito", disse uma mulher em um vídeo postado no Facebook mostrando como ela improvisa usando uma garrafa de refrigerante para lavar xícaras. "Quando você corta a água, cavamos para ter água. Quando você corta a torneira, fazemos uma torneira."

Assim como a maior parte dos problemas da Síria, a crise de água em Damasco é um sintoma da guerra, que matou centenas de milhares de pessoas, deslocou cerca de metade da população pré-guerra de 22 milhões do país e deixou seu território dividido em zonas controladas pelo governo, rebeldes armados e grupos jihadistas.

Embora um cessar-fogo intermediado pela Rússia e pela Turquia e anunciado na semana passada tenha reduzido a violência no geral em todo o país, ele não deteve os combates em todos os lugares, nem resolveu o que acontece quando os recursos necessários a um lado são controlados por seus inimigos, como parece ser o caso com a água de Damasco.

Historicamente, a maior parte da água para a capital, que é controlada pelo governo do presidente Bashar al-Assad, vinha do Vale de Barada, norte da cidade, que é controlado por rebeldes que querem derrubar Assad.

A crise começou no dia 22 de dezembro, quando a água parou de correr. Cada lado acusou o outro de causar danos à infraestrutura perto da fonte, interrompendo o fluxo de água.

Ativistas antigoverno postaram fotos na internet, com a intenção de mostrar estruturas em volta da fonte que eles dizem ter sido danificadas por barris explosivos lançados por helicópteros do governo. O governo primeiro acusou os rebeldes de poluírem a água, e então de danificarem a infraestrutura.

Jens Laerke, um porta-voz para o escritório humanitário das Nações Unidas em Genebra, disse por e-mail na terça-feira que "tomar como alvo a infraestrutura hídrica" seria a causa da interrupção.

"Mas não estamos em uma posição de dizer por quem", ele disse. "A área tem sido cenário de muitos combates, então não pudemos acessá-la."

Agora falta água para 5,5 milhões de pessoas em Damasco e proximidades, o que elevou o risco de doenças transmitidas pela água, especialmente entre crianças, ele disse.

Os combates perto do Vale de Barada continuaram, apesar do cessar-fogo.

Ativistas antigoverno dizem que as forças governamentais e os combatentes da organização Hezbollah, do Líbano, continuaram a atacar a área em uma aparente tentativa de tomá-la. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que monitora o conflito a partir do Reino Unido através de uma rede de contatos na Síria, disse que o governo lançou 15 ataques aéreos contra a região na segunda-feira, entre conflitos entre rebeldes e forças pró-governamentais.

O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, acusou o governo sírio e seus aliados de violarem o cessar-fogo, dizendo que a nova onda de violência poderia descarrilar negociações de paz que seriam realizadas em Astana, capital do Cazaquistão, no dia 23 de janeiro. Grupos rebeldes ameaçaram boicotar as negociações caso os ataques do governo não cessassem.

Poucos residentes de Damasco esperam muito das negociações ou têm tempo para pensar nelas. Embora em geral eles estejam a salvo da violência que destruiu outras partes do país, eles já vinham passando dificuldades em um inverno frio de preços altos e escassos suprimentos antes da crise da água, piorando as coisas.

O governo sírio procurou aliviar a crise trazendo água em caminhões a partir de poços em torno da cidade, e a ONU recuperou 120 poços para cobrir cerca de um terço das necessidades diárias da cidade, disse o porta-voz Laerke.

Mas muitos residentes disseram não ter recebido nada. Alguns deles estavam comprando água de homens com carros-tanque particulares, enquanto outros aproveitavam qualquer coisa que conseguissem pegar.

Um comerciante de 50 anos disse que não tomava banho há 10 dias, mas que ele e seus filhos iam à mesquita todos os dias para lavar as mãos, pés e rosto, uma alternativa não disponível para as mulheres da casa.

Ele disse que em casa estavam usando utensílios de plástico porque não podiam lavar a louça.

Uma mulher de 60 anos disse não ter água corrente em casa há 10 dias. Seus dois filhos passaram horas todos os dias na fila para encher galões no poço de sua mesquita. Eles usam essa água para beber e lavar a louça, coletando a parte usada para dar descarga.

"O sonho da minha família é tomar uma ducha quente", ela disse, falando sob condição de anonimato por temer repercussões por se comunicar com um veículo de mídia estrangeira sem permissão do governo. "Tornou-se nossa maior esperança em Damasco ter água o suficiente para tomar banho e lavar roupa na lavadora automática."

Ela se mostrou com raiva pelo fato de a mídia estatal da Síria dizer pouco sobre a crise de água, preferindo focar nas batalhas militares com os rebeldes.

"Estamos fartos de notícias sobre operações militares", ela disse. "Queremos notícias sobre a água e sobre os horários de fornecimento de água."

Apesar da crise hídrica, as condições em Damasco são muito melhores do que as de Aleppo, ao norte, antigo epicentro comercial do país, onde forças sírias e russas venceram no mês passado após prolongados bombardeios sobre sua região leste. Embora o cessar-fogo pareça estar se mantendo no local, os bairros do leste, antes tomados por rebeldes, agora são terrenos abandonados, de acordo com oficiais de ajuda da ONU.

"Nada nos preparou para o que vimos", contou Sajjad Malik, coordenador humanitário temporário da ONU para a Síria, aos repórteres, em uma coletiva de imprensa por telefone a partir de Aleppo. "A infraestrutura foi destruída em quase todos os bairros."

Malik disse que mais de 100 trabalhadores humanitários da ONU de diversas agências estavam ajudando equipes de defesa civil a remover destroços e fornecer em caráter emergencial alimentos, água, abrigo e cuidados médicos na cidade, onde um dia 4 milhões de pessoas chegaram a viver.

Ele estima que 1,5 milhão de pessoas permaneçam em Aleppo, a maior parte na parte oeste, incluindo cerca de 400 mil sírios deslocados de outras áreas. Ele também disse que milhares de residentes deslocados do lado leste estavam começando a voltar, ainda que suas casas e comércios estivessem seriamente danificados ou destruídos.

"Eles estão começando a falar em reconstruir suas vidas e seus meios de subsistência", disse Malik. Mas ele alertou que "a reconstrução de Aleppo vai exigir muito mais tempo e muito mais recursos do que temos agora."

* Contribuíram para a reportagem: Hwaida Saad (Beirute), Maher Samaan (Paris), um funcionário do "The New York Times"  (Damasco) e Rick Gladstone (Nova York)

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