Alemanha se prepara para turbulência na era Trump

Max Fisher

Em Berlim (Alemanha)

  • Odd Andersen/AFP

    4.fev.2017 - Jovem protesta em Berlim, na Alemanha, com revista "Der Spiegel" cuja capa mostra Donald Trump com a cabeça decepada da Estátua da Liberdade

    4.fev.2017 - Jovem protesta em Berlim, na Alemanha, com revista "Der Spiegel" cuja capa mostra Donald Trump com a cabeça decepada da Estátua da Liberdade

Enquanto aliados por toda a Europa e Ásia se preparam para as mudanças promovidas pelo presidente Donald Trump, a Alemanha se encontra em uma posição singularmente difícil.

Sua economia e segurança nacional são particularmente dependentes do apoio americano, que agora parece em dúvida, e da unidade europeia, que está sob ataque e cada vez mais cabe à Alemanha mantê-la.

Mas a Alemanha é restringida pela crescente instabilidade de aliados como o Reino Unido e talvez até mesmo a França, pela ascensão de seu próprio movimento populista de extrema-direita e pelas persistentes sensibilidades culturais em relação a qualquer política que pareça militarista ou hegemônica.

Essas dinâmicas não são novas, mas cresce a tensão entre o papel com o qual a Alemanha se sente confortável e aquele que ela precisa assumir no palco mundial.

Um número cada vez maior de autoridades na Alemanha se pergunta se o país precisa de um Plano B para uma Europa pós-americana. Mas estão descobrindo que um plano desses exigiria custos e sacrifícios quase tão grandes quanto as consequências da inação.

'O século 20 acabou'

"Nós nos despedimos de seu embaixador no outro dia", disse Niels Annen, um parlamentar do Partido Social Democrata de centro-esquerda, que faz parte da coalizão de governo, referindo-se ao embaixador americano. "Ele tentou tranquilizar a todos, mas acho que ninguém acreditou nele."

Durante o café da manhã no restaurado Reichstag, uma construção elevada da era imperial, Annen se preocupava com um "retorno à geopolítica como no século 20, talvez no século 19".

A poucas mesas de distância estava sentado Frank-Walter Steinmeier, o ex-ministro das Relações Exteriores agora designado a se tornar presidente, que três dias depois declararia que, com a eleição de Trump, "o velho mundo do século 20 acabou" e que os alemães devem se preparar para mudanças drásticas.

A preocupação que irrita Annen, assim como grande parte das autoridades em Berlim, é a de que Trump não apenas retire a proteção americana, mas também ajude ativamente as crescentes ameaças internas e externas da Europa.

"A presença de alguém como o sr. Bannon na Casa Branca, que tem contatos com grupos fascistas, de extrema direita, aqui na Europa, é realmente preocupante", disse Annen, referindo-se ao estrategista-chefe de Trump, Stephen Bannon.

Ele também disse temer que Trump possa buscar melhorar os laços com Moscou "nos termos russos", afastando a Europa e potencialmente encorajando o crescente ameaça russa à unidade do continente.

Outros parlamentares temem que Trump já tenha minado a unidade europeia, por exemplo, ao recompensar a saída do Reino Unido da União Europeia com promessas de um acordo comercial acelerado.

"O que considero desestabilizador é seu anúncio de que fará acordos com países membros individuais, porque isso dividirá a UE", disse Franziska Brantner, uma parlamentar pelo Partido Verde. Ela também disse que teme que Trump esteja enfraquecendo a defesa coletiva da Europa ao questionar o valor da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental).

Um novo papel alemão

A maioria das nações, diante dessas ameaças, provavelmente estaria se mobilizando para responder.

A Alemanha é incomum. Ela assegurou seu lugar no mundo ao defender a ordem liberal por meio da formação de consenso e pacificação.

"Essa é uma bela ideia", disse Ulrich Kuhn, um membro do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, sobre esse modelo. Mas a Alemanha "está sendo confrontada com uma realidade na qual não podemos mais continuar dessa forma".

A maioria das potências depende ao menos em parte das formas tradicionais de poder. O Reino Unido tem seu poderio militar, a Índia tem seu domínio regional, Israel tem seu programa nuclear. A Alemanha tem evitado explicitamente esses ativos, lhe restando apenas ferramentas de "soft power" (poder suave, a influência por cultura e valores), particularmente seu poder econômico, o que apenas funciona na estrutura de uma ordem europeia liberal que agora parece incerta.

Agora, as elites políticas e o público na Alemanha estão debatendo sobre se e como seu país deve desenvolver formas mais tradicionais de poder.

Ao longo da última década, a Alemanha superou muitos dos tabus gerados pela era nazista e pela Segunda Guerra Mundial. Ela lidera em assuntos da zona do euro, envia um pequeno número de tropas a missões da Otan no exterior e organizou as recentes sanções contra a Rússia. O orgulho nacional continua sendo um assunto delicado, mas um que ao menos pode ser discutido.

Mesmo assim, a ideia da Alemanha como potência militar ou mesmo um poder hegemônico europeu, as prováveis exigências necessárias para lidar com os fardos e responsabilidades de uma importante potência europeia na era Trump, continua sendo difícil.

Mas a Alemanha pode não dispor mais do luxo de tempo para conciliar seus sentimentos contraditórios sobre seu lugar no mundo, especialmente diante de uma Rússia ressurgente e dos Estados Unidos intransigentes, assim como uma Europa assolada pelo populismo.

"Ainda não temos uma ideia de quem somos no mundo e quem queremos ser", disse Jana Puglierin, do Conselho de Relações Exteriores alemão. Isso dificulta enfrentar questões cada vez mais urgentes, ela disse, sobre "que papel devemos exercer, quem é a Alemanha, quão dominantes queremos ser".

'Estamos ficando sem parceiros'

Enquanto os Estados Unidos questionam abertamente o valor da União Europeia, seus países membros são atormentados por reações populistas, o que deixa seus líderes cada vez menos dispostos a tratar das crises da zona do euro e dos refugiados no momento em que são mais urgentes.

Em consequência, restou à Alemanha carregar a maior parte do fardo no momento em que está se tornando mais pesado.

"Estamos ficando sem parceiros", disse Annen.

Só que enquanto os Estados Unidos podiam dizer à Europa as duras verdades e pressionar seus líderes a tomarem decisões difíceis, a política continental e a memória fazem com que a Alemanha não possa assumir esse papel. Sua estatura regional lhe permite poder suficiente para pressionar algumas políticas a países menores, mas não o suficiente para forçar uma unidade em todas as questões. E exercícios anteriores de poder, como impor planos de austeridade que beneficiaram a economia da própria Alemanha, em detrimento de seus vizinhos mais pobres, não melhorou sua liderança regional.

"Nunca poderia ser uma política 'conosco ou contra nós', porque então esses países ficariam contra nós", disse Annen.

Um desafio ainda maior é representado pela Rússia, que está realizando ciberataques e se alinhando a movimentos populistas por toda a Europa. O medo é que o relaxamento dos compromissos de defesa entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental levem alguns países do Leste Europeu a se garantirem contra a aliança se submetendo a um grau de influência russa.

Caso a união de defesa europeia quebre sob pressão russa, temem os analistas, sua união política e econômica ruiria em seguida, deixando a Alemanha isolada em um momento em que não está equipada para seguir sozinha.

Os países do Leste Europeu podem se voltar para a Alemanha, cuja economia é quase três vezes maior que a da Rússia, para substituição das garantias de segurança americanas.

Mas as Forças Armadas alemãs carecem de muitos elementos básicos, como munição suficiente, para a qual depende das forças americanas. Mesmo com um rápido aumento de gastos, seriam precisos anos para que o país pudesse exercer um grande papel na defesa europeia, disse Kuhn.

"Não há substituto para os Estados Unidos em relação à segurança europeia", disse Norbert Rottgen, um parlamentar da União Democrata Cristã, o partido da chanceler Angela Merkel.

Caso a Alemanha busque se responsabilizar pela defesa coletiva europeia, o maior obstáculo pode ser o povo alemão.

Em 2015, uma pesquisa Pew entre os países membros da Otan apontou que apenas 38% dos alemães disseram que seu país deveria defender os aliados da Otan que fazem fronteira com a Rússia caso fossem atacados.

Uma ameaça americana

As autoridades dizem que apesar da prioridade ser estabelecer relações amistosas com o governo Trump, eles não são contrários a contra-atacar caso os Estados Unidos minem a União Europeia.

"Não podemos permitir nem mesmo que nosso aliado mais importante desmonte nossa realização mais histórica", disse Annen. "Isso é algo que nenhum governo deve aceitar sem dar uma resposta."

Por trás de portas fechadas, segundo um alto funcionário do governo alemão, as autoridades estão se preparando para o dia em que Berlim poderá ser forçada a tratar seus antigos aliados como uma ameaça, o que exigiria mudanças radicais na política externa alemã.

O funcionário pediu para permanecer anônimo devido a outro dilema enfrentado por Berlim com Trump: seus líderes devem preparar a Alemanha anunciando o que está em jogo, mas temem que se distanciem muito abertamente de Trump, isso o enfureceria, podendo causar o próprio rompimento que desejam evitar.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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