Como negociar na bolsa de valores com base nos tuítes de Trump

Nathaniel Popper

Em San Francisco

  • Josh Haner/The New York Times

    Uso do Twitter por Donald Trump afeta o negócio de ações nos EUA

    Uso do Twitter por Donald Trump afeta o negócio de ações nos EUA

Há anos que a análise do Twitter para se tomar decisões sobre investimentos na Bolsa de Valores vem funcionando como um negócio. Firmas de negócios de alta frequência até embutiram esse tipo de análise em suas estratégias comerciais.

E então surgiu o @realdonaldtrump.

Passado quase um mês de Donald Trump na presidência, as melhores mentes algorítmicas de Wall Street e do Vale do Silício ainda estão tentando lidar com o fenômeno.

"Os hábitos de Trump no Twitter parecem ser tão erráticos quanto tudo que diz respeito a ele", disse em uma entrevista recente Max Braun, um funcionário do laboratório de pesquisas afiliado ao Google conhecido como X.

Braun construiu um robô automatizado, o Trump2Cash, que analisa os tuítes de Trump e depois automaticamente negocia ações das empresas que o presidente cita.

Mas, assim como outros em seu campo, Braun aprendeu que o comportamento de Trump nas mídias sociais nem sempre resulta de um jeito que a ciência poderia prever.

Depois que o presidente criticou a Nordstrom por deixar de vender a linha de roupas de sua filha, o robô previu que os comentários negativos de Trump sobre a loja de departamentos fariam com que o valor de suas ações caísse, mas em vez disso ele subiu 4,2% ao final do pregão. No entanto, as taxas de retorno do robô estavam altas, de acordo com um banco de dados que Braun está mantendo.

A ciência do pregão baseada no Twitter começou antes de Trump.

Contudo, o presidente é "uma máquina de volatilidade", disse Joe Gits, CEO da Social Market Analytics, que produz uma análise automatizada das mídias sociais para investidores profissionais. "Ele gera mais volatilidade do que qualquer outra coisa no mundo no momento, então essas ações vão se movimentar de uma forma ou de outra".

Gits notou que a longo prazo - ou mesmo dentro de poucas semanas - quase todas as empresas que foram alvo dos murros de Trump parecem ter se recuperado dos danos, sugerindo que os investidores estão "descontando" a determinação de Trump de atacar essas empresas.

Ações da Boeing, que foi atacada por Trump em dezembro devido ao custo de produção do Air Force One, inicialmente tiveram uma queda no valor, mas agora elas estão 12% mais valorizadas do que no dia do tuíte.

Mas Gits disse que qualquer firma fazendo negociações de curto prazo teve de levar em conta as declarações de Trump. Não foi algo fácil.

Joshua Bright/The New York Times
Rachel Mayer é cofundadora de uma startup que cria gatilhos automáticos de compra e venda para pequenos investidores, baseados em acontecimentos da vida real

Por exemplo, nos segundos após o tuíte de Trump sobre a Nordstrom, antes que as pessoas tivessem tempo suficiente de responder, ficou evidente que algoritmos automatizados de negociações haviam processado a informação e começaram ou a vender ou a apostar contra a Bolsa. O valor das ações da empresa caiu 1% dentro de um minuto. Mas essa queda logo se reverteu, e até o final do dia as ações haviam subido de forma significativa.

Essa complicada resposta é, em parte, resultado do fato de que operadores profissionais não são os únicos que estão tentando lidar com o mercado influenciado por Trump - dezenas de milhares de investidores de sofá estão observando a conta do presidente e fazendo negociações.

Rachel Mayer é cofundadora de uma startup de Nova York, a Trigger Finance, que cria gatilhos automáticos de compra e venda para pequenos investidores, baseados em acontecimentos da vida real. A empresa criou gatilhos para todos os tipos de sinais que influenciam a compra e a venda de ações - tais como mudanças nas políticas do Federal Reserve (Banco Central dos EUA) e grandes movimentações de preços de ações - mas os gatilhos que a empresa de Meyer construiu em torno da conta de Trump no Twitter têm sido de longe os mais populares, ganhando 10 mil assinantes.

Mayer, que costumava ser operadora de câmbio na JPMorgan Chase, disse que houve alguns indicativos de que muitos de seus assinantes viram o tuíte sobre a Nordstrom e decidiram comprar as ações como uma forma de protesto, assim como muitos consumidores disseram que apoiariam a loja depois do ataque do presidente.

Mayer afirmou que, com o tempo, as respostas do mercado às declarações de Trump pareciam ficar mais contidas, o que pode refletir um reconhecimento de que o latido do presidente é pior que sua mordida.

"O mercado não parece pensar que ele vai fazer qualquer outra coisa além de reclamar", ela disse.

Trump2Cash, o robô de Braun, está programado para segurar a ação até o fim do pregão do dia em que foi feito o tuíte. Se o sentimento for negativo, ele faz uma venda breve, ou uma aposta de que o preço vai cair, para se beneficiar da queda do preço.

Braun tem ajustado continuamente as regras que conduzem o Trump2Cash. Por exemplo, ele programou o robô para ignorar as menções de grupos de mídia, incluindo o The New York Times Co., porque eles equivaliam mais a ruídos do mercado do que a indicadores.

Mas Braun diz que ele não se importará se o robô acabar dando prejuízo - ele está vendo o Trump2Cash mais como um projeto de arte do que uma estratégia de investimentos, e pretende doar qualquer dinheiro que obtenha dos poucos milhares de dólares que investiu para a ONG Planned Parenthood e a American Civil Liberties Union, como sinal de repúdio à política de Trump.

"Tenho um conjunto muito peculiar de habilidades, habilidades que permitem me divertir um pouco com a incontinência emocional de Trump e talvez provocar mudanças positivas como consequência", escreveu Braun em um post no Medium, no qual apresentava o robô.

Tradutor: UOL

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