O sofrimento de uma mãe: afegã tem três filhos mortos no mesmo dia

Mujib Mashal*

Em Cabul (Afeganistão)

  • Rahmat Gul/ AP

    Garoto carrega uma pá em cemitério coberto por neve em Cabul, Afeganistão

    Garoto carrega uma pá em cemitério coberto por neve em Cabul, Afeganistão

Durante anos, Shaima trabalhou para dar um lar à sua família em um bairro superpovoado de Cabul, no fim de um beco estreito à sombra de uma montanha.

A casa improvisada que ela aluga está cheia de lembranças de uma família que já teve muitas crianças, um marido, uma família próspera.

Mas para Shaima os objetos são um lembrete diário das perdas que a consomem: o relógio batendo na parede recém-pintada de verde, para a festa de um casamento que não acontecerá; as pequenas xícaras de metal para água benta, para uma futura peregrinação a Meca; a simples espátula guardada como suvenir doloroso e as muitas fotografias, emolduradas ou não, de seus filhos.

"Eu lavei isto e guardei", diz ela, tirando a espátula do armário. "Nunca vou perder isto, porque as mãos de Amanullah a tocaram."

Mohammed Amanullah é um dos três filhos, todos policiais, que Shaima perdeu na guerra no mesmo dia do mês passado, quando militantes talebans atacaram seu posto avançado na província meridional de Kandahar.

Os homens estão morrendo em números recorde no Afeganistão, em uma guerra que já dura 15 anos e que segundo os dois lados não será ganha no campo de batalha.

Com frequência, são homens que esgotaram todas as oportunidades de viver honestamente, antes de se renderem a uma arma e US$ 200 por mês (cerca de R$ 620). Quando eles morrem, seus restos às vezes voltam para seus filhos e famílias. E para mães como Shaima.

O marido de Shaima ficou paralisado por uma doença durante a última década de sua vida. Então ela criou sozinha os nove filhos, entre os quais duas meninas. Shaima, cujo marido morreu em 2013, suportou uma vida de dificuldade e pobreza, trabalhando duro para garantir que seus filhos fossem bons adultos. Ela temia que os meninos se tornassem ladrões ou viciados em drogas, como tantos outros jovens nas ruas de cidades de todo o Afeganistão.

Mas ela perdeu três deles em um só dia. De repente.

Mohammed Zahir, que estava noivo e se casaria em breve, e Mohammed Jawed são os outros dois mortos no ataque taleban --seus nomes foram adicionados à longa lista de membros das forças de segurança afegãs que tombam ano após ano.

Em uma manhã recente coberta de neve, antes do funeral de seus filhos, Shaima parecia exausta, seus olhos fundos dentro de círculos escuros. Ela usava um xale branco imaculado, sob o qual havia amarrado sua cabeça com uma bandana --para reduzir as dores crônicas que a impedem de dormir em paz. Não tinha mais lágrimas para derramar, e após dias de lamentação sua voz estava rouca.

Mas ela se mantinha ereta; é uma mulher orgulhosa por ter criado uma família digna diante de tantas dificuldades.

Os três irmãos, de 18, 20 e 28 anos, foram enterrados lado a lado na montanha perto de sua casa. Na noite do enterro houve uma nevasca forte. De manhã cedo, a neve cristalina cobria o cemitério. Não havia pegadas, humanas ou de animais. Os três túmulos tinham se tornado parte da paisagem.

Quando homens da segurança como os três irmãos morrem, muitas vezes em grande número, a maioria das mortes é inicialmente negada pelo governo. Depois, elas se tornam parte da contagem, um número impreciso e sem alma, muitas vezes arredondado como se os envolvidos não tivessem histórias próprias.

Nos últimos anos, a coalizão liderada pelos EUA que combate os talebans se resumiu a uma pequena missão. Conforme os afegãos se encarregaram da guerra, o número de mortes cresceu tão depressa que nem a Otan nem o governo afegão o revela com facilidade.

Durante apenas 11 meses de 2016, 6.785 soldados afegãos foram mortos, segundo o inspetor-geral dos EUA para a Reconstrução do Afeganistão. (Outras fontes dizem que o número é maior.) É o triplo do número de americanos mortos em toda a guerra de 15 anos. Outros 11.777 homens foram feridos.

Esse é apenas um lado da guerra.

Ninguém sabe quantos talebans morreram no mesmo período. Mas muitos estimam que foram mais que o número das forças afegãs. Os rebeldes não têm capacidade de evacuar e cuidar dos feridos em batalha e enfrentam o mortífero poder aéreo dos EUA e do Afeganistão.

No lado taleban, também há inúmeras mães com histórias de perda.

Uma delas, no bairro de Sangin, na província de Helmand, sul do país, perdeu três filhos lutando pelos talebans em um período de oito meses. Mohammed Ibrahim, de 30 anos, tinha um filho e uma filha. Mohammed Ismail, 26, tinha uma filha. E Mohammed Ishaq estava com 21 anos.

A mãe, viúva, ficou com as viúvas dos filhos, três netos e um outro filho adolescente.

"A mãe deles está completamente perdida agora", disse Haji Naqibullah, um sobrinho do marido da mulher. "Até um coração de pedra teria derretido."

Não há cobertura telefônica em Sangin, a não ser em uma pequena cabine na metade do bazar controlada pelo governo. Chegamos a Naqibullah com a ajuda do lojista que cuida da cabine. Naqibullah, que é civil, atravessou a linha de batalha para falar conosco por telefone sobre a provação da mulher.

Mantendo o costume do povo pashtun das áreas rurais do Afeganistão, que protege ferozmente a privacidade das mulheres, ele relutou em dar o nome da mãe. Disse que ela estava doente e incapaz de fazer a viagem de 20 minutos de Malmoon, sua aldeia e um enclave taleban, até a cabine telefônica. O relato da morte de seus filhos foi mais tarde confirmado por idosos da tribo de Malmoon que haviam fugido do recrudescimento das lutas.

Naqibullah disse que os três filhos da mulher tinham deixado a aldeia para seguir a educação religiosa básica. Quando voltaram para casa, em Malmoon, tinham poucas opções além de pegar em armas para os militantes que controlavam a aldeia.

"Você sabe que nas aldeias, especialmente nas áreas controladas pelos talebans, não há mais nada para os jovens além de ser combatentes."

Ele disse que as unidades talebans no sul muitas vezes são tão localizadas que quando um combatente morre o comandante visita a família para prestar condolências. Ele leva um carneiro para sacrificar e então pergunta se outro irmão poderia pegar suas armas em seu lugar.

"Desse modo eles vão substituindo pai por irmãos e tios", explicou. "Até que acabem."

Dias depois de Naqibullah conversar conosco pela segunda vez, a luta irrompeu de novo no bazar de Sangin. Os talebans escavaram túneis sob alguns postos restantes do Exército e detonaram explosivos. Morreram entre 10 e mais de 20 soldados, e muitos corpos ficaram nas ruínas durante dias.

O telefone do bazar ficou mudo.

Em Cabul, Shaima trabalhou em vários empregos ao longo dos anos para cuidar de seus nove filhos e do marido. Limpou apartamentos de autoridades do governo e lavou roupas para os abastados nos bairros finos de Cabul. Na temporada de colheitas, ela saía de casa antes do amanhecer, com um dos filhos correndo atrás dela e puxando sua burqa. Nos arredores da cidade, homens cavavam a terra com pás e ela ficava horas agachada colhendo batatas e cebolas.

"Eu podia ceifar trigo melhor que qualquer homem", lembra ela. "Eu pegava a foice e simplesmente cortava."

Como último emprego, Shaima trabalhou no Ministério de Telecomunicações do Afeganistão, limpando os escritórios de seu quartel-general de 18 andares. Dois anos atrás, após dez anos e seis meses de serviço, ela se aposentou, aos 73. Pensou que poderia descansar. Suas duas filhas estavam casadas e os sete filhos não tinham se tornado ladrões ou viciados.

Quando Shaima se aposentou, os filhos procuraram todas as oportunidades de trabalho.

Zahir passou anos como peão no Irã. Amanullah trabalhou como aprendiz de mecânico desde os 7 anos. Jawed, adolescente, vendia sorvetes com um carrinho que tocava uma música simples enquanto percorria os becos, então mudou para sementes de girassol torradas à beira da estrada.

Mas um após outro eles se encaminharam para as forças de segurança do Afeganistão. Quando a guerra ganhou força, Shaima tinha seis filhos servindo nos recantos mais distantes do país --três como policiais no bairro de Maiwand, em Kandahar, dois na cidade sitiada de Farah, no oeste, e um como comando do Exército na província de Logar, ao sul de Cabul. Um sétimo filho, Mohammed Asef, está no Irã há cerca de dez anos, trabalhando como servente.

Então, há cerca de duas semanas, veio o telefonema. Um dos primos foi avisado primeiro.

Um dia depois que a notícia da morte de seus três filhos chegou a Cabul, Farhad, o comando do Exército, fez a perigosa viagem de ônibus até Kandahar para recolher os corpos. Parentes souberam e começaram a chegar à casa. Shaima ainda não sabia de nada, mas quando passaram a chegar primos que ela não via há anos ela percebeu que havia algo errado.

Então começou a chorar. Mas não sabia o que tinha acontecido, com qual de seus seis filhos. Então chorou por cada um deles, citando um após o outro, até que seu irmão mais velho sentou-se ao seu lado e deu a notícia.

"Vamos construir três casas novas para seus filhos --reze por eles", disse-lhe o irmão, Mohammed Yasin.

Os dois filhos de Shaima que estavam em Farah, depois que receberam a notícia das mortes, não conseguiram chegar em casa a tempo. Não tinham dinheiro para passagens de ônibus, e seu comandante disse que não podia lhes dar os cerca de US$ 30 necessários.

Parentes em Cabul foram até a estação rodoviária e pagaram pelas passagens, então telefonaram para Farah para que os irmãos pudessem embarcar. Mas era tarde.

"Eu não pude ver os corpos de meus irmãos antes que fossem enterrados", disse Humayoon, que chegou de Farah um dia depois do funeral. "Levamos nossas vidas nas palmas das mãos para defender nossos comandantes, em situações em que as balas pousam ao nosso redor. E eles não puderam nos dar 900 afghanis para uma passagem, para que eu pudesse ver meus irmãos martirizados."

Humayoon e seu irmão Aref estão planejando voltar ao campo de batalha em Farah quando terminar sua licença. A cidade continua cercada, e as forças afegãs sofreram grandes baixas lá. Aref lembrou de uma noite escura quando enterraram 12 companheiros, cavando sepulturas sob os faróis dos Ford Rangers da polícia.

Quando perguntada sobre sua reação à volta dos filhos ao campo de batalha, Shaima suspirou. Então disse: "Se eles ficarem aqui, vão se tornar ladrões ou viciados. O que mais há para fazer?"

* Taimoor Shah colaborou na reportagem, de Kandahar, Afeganistão.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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