Ignorei as notícias sobre Trump durante uma semana. Veja o que descobri

Farhad Manjoo

  • Kevin Lamarque/ Reuters

Passei a última semana ignorando o presidente Donald Trump. Apesar de eu normalmente ser viciado em política, não li, assisti ou ouvi uma única matéria sobre nada que se relacionasse ao nosso 45º presidente.

O que eu perdi, segundo muitos relatos, foi uma das semanas mais estranhas e imprevisíveis do noticiário na história da política moderna. Entre outras coisas, houve a renúncia do assessor de Segurança Nacional, Michael Flynn, e um vídeo do programa de Oprah Winfrey que levou à queda do nomeado para secretário do Trabalho, Andrew Puzder.

Meu objetivo não foi enfiar a cabeça na areia. Eu não abandonei o noticiário. Em vez disso, passei o mesmo tempo online que passo normalmente (todas as minhas horas acordado), mas dirigi toda a minha energia a procurar zonas livres de Trump.

Minha tese: eu queria ver o que poderia aprender sobre a mídia noticiosa moderna examinando quão profundamente Trump a havia dominado. De certo modo, minha experiência falhou: quase não consegui partes livres de Trump na imprensa.

Conforme a semana passava, porém, descobri várias verdades sobre nosso ecossistema de mídia digital. A cobertura de Trump poderá eclipsar a de qualquer ser humano em todos os tempos. Os motivos disso têm a ver tanto com ele como com a maneira como as redes sociais ampliam cada grande história até que ela engula o mundo. Embora possa ser importante cobrir o presidente, porém, comecei a me perguntar se estávamos dando uma overdose de Trump no noticiário, excluindo tudo o mais.

O presidente Trump é inescapável.

O novo presidente não apenas domina o noticiário nacional e político. Durante minha semana de tentativa de abstinência de Trump, percebi algo mais profundo: ele assumiu residência semipermanente em todos os canais de qualquer tipo, político ou não. Ele não é mais apenas a mensagem. Em muitos casos, ele se tornou o meio, o éter através do qual fluem todas as outras histórias.

Obviamente, quase todo canto do noticiário era um campo minado, mas minha intenção era manter-me informado e ao mesmo tempo evitar Trump. Ainda consultei os grandes sites de notícias, mas evitei seções que tendem a ser encharcadas de Trump e desviei os olhos enquanto percorria notícias que não eram de Trump. Passei mais tempo nos sites de notícias internacionais como a BBC e procurei sites com temas específicos que cobrem assuntos como ciência e finanças. Consultei sites de notícias sociais como Digg e Reddit, e ocasionalmente chequei o Twitter e o Facebook, mas com frequência tive de rolar a tela furiosamente para escapar de todas as postagens sobre Trump. (Algumas notícias eram inevitáveis: quando Flynn renunciou, um amigo jornalista me mandou um torpedo a respeito.)

Mesmo quando eu encontrava notícias que não eram sobre Trump, porém, grande parte delas estava entrelaçada a notícias sobre ele, por isso o efeito geral foi algo como tentar morder um bolo de frutas com castanhas sem pegar nenhuma fruta ou castanha.

Não eram apenas as notícias. A presença de Trump paira sobre muito mais. Lá está ele nos bastidores de "The Bachelor" e até de "The Big Bang Theory", cujo criador, Chuck Lorre, decidiu inserir mensagens anti-Trump nos créditos finais. Quer assistir a um programa de entrega de prêmios, como o Grammy ou o Golden Globes? Trump, Trump, Trump. E esportes? É, não. As políticas do presidente são uma força animadora na NBA. Ele foi o subtexto do Super Bowl: do jogo e dos comerciais, e talvez até do show no intervalo.

Aonde mais eu poderia ir? O Snapchat e o Instagram estavam relativamente seguros, mas o presidente ainda aparecia. Até a Amazon.com sugeria o papel higiênico de Trump como presente do Dia dos Namorados. (Comprei bijuterias para minha mulher.)

A fama de Trump pode quebrar todos os recordes.

Todos os presidentes são onipresentes. Mas é provável que nenhuma pessoa viva na história tenha sido tão famosa quanto Trump é hoje. É possível que nem mesmo as pessoas mais famosas ou infames do passado recente ou distante --por exemplo, Barack Obama, Osama Bin Laden, Bill Clinton, Richard Nixon, Michael Jackson, Muhammad Ali ou Adolf Hitler-- tenham dominado a mídia de modo tão absoluto em seu apogeu quanto Trump a domina hoje.

Estou me protegendo porque não há dados para verificar diretamente essa declaração. (É claro que não há análise de mídia para medir quantos canais cobriram Hitler no dia em que ele invadiu a Polônia.) Mas há algumas evidências circunstanciais bastante boas.

Considere os dados da mediaQuant, firma que mede "mídia conquistada" (earned media), que significa toda a cobertura que não é publicidade paga. Para calcular o valor do dólar na mídia conquistada, primeiro ela conta cada menção a uma determinada marca ou personalidade em praticamente todos os canais, de blogs ao Twitter ao noticiário noturno a "The New York Times". Depois ela avalia quanto custariam essas menções se alguém tivesse de pagar por elas como publicidade.

Em janeiro, Trump quebrou os recordes da mediaQuant. Em um único mês, ele recebeu US$ 817 milhões em cobertura, mais que qualquer pessoa já recebeu nos quatro anos desde que a empresa começou a analisar a mídia, segundo Paul Senatori, o diretor analítico da companhia. Na maior parte dos últimos quatro anos, o valor da mídia conquistada de Obama ficou em torno de US$ 200 milhões a US$ 500 milhões. O máximo que Hillary Clinton conseguiu durante a campanha presidencial foram US$ 430 milhões, em julho.

Não se trata apenas de que a cobertura de Trump supera a de qualquer outra pessoa. Hoje ele está superando quase todas as outras somadas. Senatori calculou recentemente o valor da cobertura das mil pessoas mais conhecidas do mundo, exceto Obama e Trump. A lista inclui Hillary Clinton, que em janeiro teve US$ 200 milhões em cobertura, Tom Brady (US$ 38 milhões), Kim Kardashian (US$ 36 milhões) e Vladimir Putin (US$ 30 milhões), até a milésima celebridade mais citada no banco de dados da mediaQuant, a atriz Madeleine Stowe (US$ 1.001).

A cobertura que essas mil pessoas conseguiram no mês passado somou US$ 721 milhões. Em outras palavras, Trump consegue cerca de US$ 100 milhões a mais em cobertura que as outras mil pessoas mais famosas juntas. E ele está prestes a equiparar ou superar seu recorde de janeiro em fevereiro, segundo os números preliminares de Senatori.

Como sabemos que Trump é mais comentado que qualquer outra pessoa já o foi? Hoje há mais pessoas no planeta que estão mais conectadas que nunca. O Facebook estima que cerca de 3,2 bilhões de pessoas tenham conexão com a internet. Em média, a população da Terra passa cerca de oito horas por dia consumindo mídia, segundo a firma de pesquisas de mercado Zenith. Assim, quase por definição, qualquer pessoa que domine a mídia hoje será lida, comentada e assistida por mais gente que nunca antes.

"De uma perspectiva de mídia, é muito claro", disse Senatori. "O mero volume e a mera quantidade de consumo, e todos os canais de mídia disponíveis hoje mostram que sim, ele está fora das paradas."

Mas não deveríamos todos estar pensando em Trump?

Trump é um presidente historicamente incomum, e por isso merece muita cobertura. Mas há um argumento de que nosso ecossistema de mídia moderna tecnológica está ampliando sua presença mesmo além do necessário.

Na maioria dos dias, Trump é 90% das notícias nos meus feeds do Twitter e do Facebook, e provavelmente nos seus também. Mas ele não é 90% do que é importante no mundo. Durante minha pausa do noticiário sobre Trump, descobri ricos veios de cobertura que não estão tendo repercussão. O Estado Islâmico está recuando em todo o Iraque e a Síria. O Brasil parece estar à beira do caos. Uma grande plataforma de gelo na Antártida está quase se rompendo. Cientistas podem ter descoberto um novo continente submerso no oceano próximo à Austrália.

Há um motivo pelo qual você não está vendo essas matérias em destaque no noticiário. Ao contrário da mídia da velha escola, a mídia de hoje funciona segundo ciclos de feedback social. Cada matéria que mostra algum sinal de vida no Facebook ou no Twitter é copiada infinitamente em cada canal, tornando-se inevitável.

Os estudiosos há muito previram que as redes sociais poderiam modificar o modo como escolhemos os produtos culturais. Em 2006, Duncan Watts, um pesquisador na Microsoft que estuda as redes sociais, e dois colegas dele publicaram um estudo afirmando que os sinais sociais criam uma espécie de "desigualdade" no modo como escolhemos a mídia. Os pesquisadores demonstraram isso com um mercado online de downloads de música. A metade das pessoas que chegavam ao site de download viam apenas o título e o nome da banda de cada canção. A outra metade também via um sinal social --quantas vezes cada canção tinha sido baixada por outros usuários.

Watts e seus colegas descobriram que acrescentar sinais sociais mudava o interesse das pessoas pelas canções. A desigualdade crescia: quando as pessoas podiam ver o que outras estavam baixando, canções populares ficavam bem mais populares e canções impopulares se tornavam menos. Os sinais sociais também criavam uma maior imprevisibilidade de resultados: quando as pessoas podiam ver quantas outras tinham escolhido canções, as notas coletivas de cada canção tinham menor probabilidade de predizer o sucesso, e as canções ruins tinham maior probabilidade de se tornarem populares.

Desconfio que estamos vendo algo parecido com esse efeito em relação às notícias sobre Trump. Não é que a cobertura do novo governo não seja importante. Claramente é. Mas os sinais sociais --curtidas, retuítes e outros-- a estão ampliando.

Cada nova matéria provoca indignação, o que coloca as matérias mais acima em seu feed, o que provoca maior cobertura, o que incentiva mais comentários e assim por diante. Vimos esse efeito antes que Trump entrasse em cena --é por isso que você sabe sobre Cecil, o leão, e Harambe, o gorila--, mas ele acelerou a tendência. Ele é o Harambe da política, o rei inconteste de toda a mídia.

O volume não é sustentável.

Faz só um mês que Trump assumiu o cargo, e o dilúvio de notícias é avassalador. Todo mundo --repórteres, produtores, âncoras, manifestantes, pessoas no governo e consumidores de notícias-- foi estimulado ao máximo.

Por enquanto, isso pode não representar um problema. É importante prestar atenção no governo federal quando grandes coisas estão acontecendo.

Mas Trump provavelmente será presidente pelo menos durante os próximos quatro anos. E provavelmente não é uma boa ideia que quase todo o noticiário esteja concentrado em um único assunto por tanto tempo.

Em eras anteriores na mídia, o noticiário conseguia encontrar um equilíbrio sensato mesmo quando grandes acontecimentos preocupavam o mundo. Os jornais da Primeira Guerra Mundial e da Segunda Guerra Mundial eram cheios de notícias muito distantes da guerra. Os jornais de hoje também estão cheios de artigos que não falam de Trump, mas muitas pessoas não leem mais jornais. Lemos o Facebook e assistimos à TV a cabo, e lá Trump é tudo de que as pessoas falam, excluindo quase tudo o mais.

Não há uma maneira fácil de consertar isto. Mas, por maior que Trump seja, ele não é tudo, e seria bom encontrar uma maneira de o ecossistema da mídia reconhecer isso.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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