O presidente Trump quer um muro? Esse muro é o México

Eduardo Porter

  • Johan Ordonez/AFP

    Grupo de 16 crianças guatemaltecas capturadas no México enquanto tentavam cruzar ilegalmente para os EUA

    Grupo de 16 crianças guatemaltecas capturadas no México enquanto tentavam cruzar ilegalmente para os EUA

Há pouco mais de dez anos, agentes da polícia de fronteira dos EUA foram surpreendidos por um inesperado desdobramento em sua batalha de retaguarda na tentativa de impedir a imigração ilegal: os brasileiros.

Em 2005, milhares deles começaram a chegar através da fronteira a sudoeste. Mais de 31 mil foram apreendidos pela polícia de fronteira tentando entrar nos Estados Unidos, um número superado somente pelos mexicanos, salvadorenhos e hondurenhos.

E então, tão repentinamente quanto começou, o fluxo parou. Pressionado por Washington, o México voltou a impor uma exigência de visto de turista ao Brasil que o país havia eliminado cinco anos antes. Isso rompeu uma rota clandestina que começava com um voo facilmente tomado do Rio de Janeiro para Cancun e terminava em uma travessia a pé pelo deserto até o sul do Texas.

Em 2006, o número de brasileiros apreendidos pela polícia de fronteira caiu 95%, para 1.460. Hoje poucos sequer se arriscam a tentar entrar. Ao longo dos três últimos anos, é uma maioria de guatemaltecos, hondurenhos e salvadorenhos que têm fugido de seus países às dezenas de milhares, esperando atravessar o México para chegar aos Estados Unidos.

Mas assim como em 2005, o principal escudo que os Estados Unidos precisam impedir os centro-americanos de atravessar—seu muro, por assim dizer—é o México. O México é uma ferramenta que a administração Trump agora provavelmente perderá.

Desde as desavenças ocorridas nos primeiros dias do mandato de Donald J. Trump, quando o presidente Enrique Peña Nieto do México cancelou uma visita aos Estados Unidos depois de Trump ter repetido que o México pagaria por seu prometido muro fronteiriço, autoridades mexicanas esperavam que cabeças mais serenas na administração pudessem moderar algumas das propostas mais hostis de Trump.

Toda a estratégia de desenvolvimento do México ao longo das três últimas décadas se deu em torno de associar sua economia com a dos Estados Unidos. O Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta) deveria ser seu motor de crescimento, atraindo investimentos por parte de multinacionais para atender ao imenso mercado americano.

A imigração para o norte serviu como sua válvula de pressão, permitindo que ele suportasse repetidas crises financeiras ao permitir que o mercado de trabalho americano absorvesse trabalhadores mexicanos inativos. Não por acaso, isso também contribuiu para o crescimento econômico dos EUA.

Com a promessa de Trump de dar as costas para o vizinho ao sul dos Estados Unidos, renegociando o Nafta em termos presumidamente piores para o México e criado um muro em sua fronteira ao sul, autoridades mexicanas estão desesperadamente tentando convencer sua administração de que os Estados Unidos também precisam do México.

No entanto, provavelmente eles perderão suas esperanças. Esta semana, o secretário de Estado Rex W. Tillerson e seu colega da Segurança Interna, John F. Kelly, estão visitando o México para avaliar que espécie de cooperação bilateral pode ser possível nessa nova era. Mesmo antes de eles embarcarem em seu voo, novas regras sugeriam que a linha dura prevaleceria.

Dois memorandos assinados por Kelly, que seriam diretrizes para a prometida repressão de Trump contra a imigração, pedem por uma forma agressiva de busca, detenção e deportação de imigrantes que estão vivendo sem autorização nos Estados Unidos. Eles ordenam a contratação de 10 mil agentes de imigração e 5 mil policiais de fronteira, e orientam o Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras a começar a projetar e construir o muro.

E em uma iniciativa que certamente revoltará os mexicanos, as diretrizes orientam os oficiais de imigração a enviarem imigrantes de qualquer país que sejam pegos entrando ilegalmente para "o território do país estrangeiro contíguo ao país do qual eles vieram" enquanto esperam pelo procedimento de remoção nos Estados Unidos. Que no caso, é o México.

Oficiais do Departamento de Segurança Interna argumentaram que o envio de centro-americanos para o México só seria feito de forma limitada, e somente após conversas com o governo do México. De alguma forma, parece improvável que uma medida pensada para reduzir custos para o governo americano empurrando-os para o México vá agradar ao governo do México.

"Isso violaria todos os acordos e convenções", disse Gustavo Mohar, que anteriormente atuou como principal negociador do México para a imigração com os Estados Unidos, a respeito da medida.

"O México é obrigado a receber os mexicanos, mas ele tem o direito de exigir certificação de que eles são de fato mexicanos", disse Mohar.

O que o México poderia fazer em troca? Recusar-se a aceitar pessoas que não possam provar que têm cidadania mexicana? Como me disse um ex-ministro das Relações Exteriores, Jorge Castañeda, uma opção poderia ser sair do caminho e deixar que os centro-americanos atravessem o México desimpedidos até os Estados Unidos.

Eis o que está em jogo. No ano passado, o México devolveu 143.057 imigrantes centro-americanos aos seus países de origem. Ele enviou mais de 59 mil imigrantes guatemaltecos que se encaminhavam para o norte em seu território, e repatriou quase 48 mil hondurenhos e 31 mil salvadorenhos, de acordo com a Organização Internacional para a Migração.

No geral, o México deteve e deportou quase duas vezes mais centro-americanos do que os Estados Unidos. A pergunta é: poderia o muro de Trump substituir essa barreira?

A história sugere que a política mais produtiva seria procurar administrar a imigração a partir de países mais pobres para garantir que ela permaneça legal. Tentar contê-la simplesmente a deixa ainda mais clandestina. 

Um programa de trabalhadores imigrantes convidados administrado pelo México e pelos Estados Unidos, como sugerem alguns especialistas, poderia ajudar os imigrantes, proteger os trabalhadores americanos e atender às necessidades dos empregadores americanos.

Mas mesmo que uma política tão esclarecida como essa ainda esteja fora de alcance politicamente, o argumento a favor de uma cooperação entre o México e os Estados Unidos continua forte.

Ultimamente a imigração ilegal a partir do México tem sido um problema relativamente menor. As apreensões de imigrantes mexicanos na fronteira estão em seu nível mais baixo desde os anos 1970. Há menos mexicanos atravessando a fronteira em direção ao norte do que os que estão voltando dos Estados Unidos. No ano passado, mais centro-americanos do que mexicanos foram apreendidos pela polícia de fronteira. O México agora é só um ponto de passagem.

Governos anteriores dos Estados Unidos reconheceram a importância da ajuda do México. Washington deu ao México US$ 24 milhões (R$ 74 milhões) para ajudar no controle da imigração, a maior parte em treinamentos e instrumentos de alta tecnologia, com a garantia de outros US$ 75 milhões (R$ 231 milhões).

É claro, o México não faz isso só por amor pelo seu vizinho do norte. Como Mohar aponta, ainda que seu destino final seja os Estados Unidos, dezenas de milhares de centro-americanos marchando para o norte também podem causar tensões em comunidades mexicanas. Por exemplo, se oficiais mexicanos simplesmente os deixassem entrar, eles sobrecarregariam imensamente cidades ao longo da fronteira mexicana ao norte.

Mas a nova administração Trump poderia reconhecer que evitar que centro-americanos cheguem aos Estados Unidos impõe um alto custo político para o governo mexicano. Em 2014, quando Peña Nieto anunciou o Plano da Fronteira Sul para fortalecer a segurança em torno de pontos de entrada na fronteira e conhecidos corredores de imigração, ele foi criticado por estar fazendo o trabalho sujo pelos Estados Unidos.

"Virou notícia no México: por que estamos tratando imigrantes centro-americanos como os Estados Unidos tratam os mexicanos?", disse Andrew Selee, vice-presidente executivo do Wilson Center em Washington, um centro de pesquisas focado em assuntos internacionais.

"O governo mexicano persistiu porque ele percebeu que uma crise de imigração na fronteira com os Estados Unidos também poderia prejudicar o México", ele observou. "Havia outras coisas em jogo no relacionamento que ele não queria arriscar".

Ao fazer ameaças de que construirá um muro, deixará a Nafta e fará muitas outras coisas com o México, Trump está mudando essa equação. Se hostilidade é tudo que ele tem a oferecer, o custo político para o México ser o muro dos Estados Unidos pode se mostrar alto demais.

Tradutor: UOL

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