No Estado de NY, refugiados ajudam a reerguer a economia de cidades abandonadas

Jesse McKinley

Em Buffalo, Nova York (EUA)

  • Nathaniel Brooks/The New York Times

    Meninos brincam de jogar bola em bairro em que mais de 500 casas são ocupadas por famílias de refugiados

    Meninos brincam de jogar bola em bairro em que mais de 500 casas são ocupadas por famílias de refugiados

Os recém-chegados ocuparam centenas de casas e apartamentos vazios, injetando dinheiro e energia em bairros destituídos. Velhas igrejas foram transformadas em mesquitas e centros de saúde para refugiados, ou encontraram novos fiéis para encher seus bancos e pratos de coleta. Estudantes voltaram a encher as salas de aula de escolas públicas, onde as matrículas vinham em queda há décadas. Placas de "Aluga-se" em imóveis comerciais deram lugar a placas de "Grande Inauguração".

Enquanto o presidente Donald Trump trata os refugiados sob um prisma sinistro, o afluxo para comunidades em dificuldades ao longo do velho Canal de Erie do Estado de Nova York tem se mostrado um bálsamo surpreendente para décadas de declínio populacional e de oportunidades.

O efeito tem sido tanto de baixo orçamento quanto de alta tecnologia: estudantes nascidos no exterior, de países como Irã, se matriculam em programas (pagando as taxas e mensalidade escolar) das escolas do interior que oferecem diplomas científicos avançados, enquanto empreendedores abrem lojas que vendem bugigangas e comida para viagem para moradores locais curiosos, assim como oferecendo ligações internacionais e pratos exóticos para os imigrantes com saudade de casa.

Empresas locais encontraram mão de obra barata e empenhada entre os refugiados, enquanto as agências de reassentamento usam fundos federais para auxiliar na assimilação, criando trabalho para todos, de vendedores de refrigeradores a pintores de casas.

E a ironia é que as velhas dificuldades das cidades é que inadvertidamente as transformaram em destinos populares para receber os recém-chegados.

"As pessoas partiram e deixaram os imóveis vazios", disse Shelly Callahan, diretora executiva do Centro de Recursos para Refugiados de Mohawk Valley, em Utica. "Assim, quando os refugiados chegaram, os preços eram baratos e eles estavam prontos para se empenhar em coisas nas quais as pessoas não estavam mais interessadas."

E isso, por sua vez, "fez com que os imóveis voltassem a pagar impostos", disse Callahan.

Ao todo, as comunidades no interior receberam quase 95% dos cerca de 5.000 refugiados que Nova York aceitou durante o último ano fiscal, segundo o Birô de Assistência aos Refugiados e Imigrantes estadual. Talvez em nenhum outro lugar o impacto foi mais profundo do que em Buffalo, a autodescrita "Cidade dos Bons Vizinhos", onde cerca de 10 mil refugiados foram assentados ao longo da última década.

"Um dos motivos para Buffalo estar crescendo, para Buffalo estar ficando mais forte, para Buffalo estar ficando melhor, é devido à presença de nossa comunidade de imigrantes e refugiados", disse o prefeito Byron W. Brown, um democrata, para várias centenas de recém-chegados em uma reunião na prefeitura, no início de fevereiro.

A posição de Brown e de vários outros líderes do interior do Estado contrasta com os comentários de Trump, para o qual os refugiados são potencialmente "pessoas muito ruins e perigosas", inclinadas a trazer "morte e destruição" aos Estados Unidos.

Outros críticos, apesar de menos exagerados, notam que os recém-chegados com frequência custam dinheiro ao governo na forma de cupons de comida, ajuda monetária e benefícios do Medicaid (seguro saúde público para pessoas de baixa renda), já que muitos iniciam novas vidas aqui abaixo da linha de pobreza. As escolas também às vezes têm dificuldade com as necessidades de língua e alguns distritos escolares foram submetidos a processos embaraçosos, às vezes onerosos, devido ao tratamento dado aos estudantes refugiados.

Mesmo assim, os economistas dizem que essas despesas iniciais costumam ser compensadas pelos benefícios de longo prazo dos imigrantes às comunidades, um desejo amplificado por seus passados com frequência traumáticos.

"O empenho pela cidadania e o empenho por um lar permanente são motivadores poderosos", disse Paul Hagstrom, um professor de economia da Faculdade Hamilton, que estudou o impacto dos refugiados nas cidades do interior.

E diferente dos nascidos nessas cidades interioranas, os refugiados tendem a ficar. "Meu filho, assim como todos os outros aqui que se formam na faculdade, tendem a se mudar para outro lugar", disse Hagstrom. "Os refugiados, eles permanecem."

O efeito é sentido em cidades como Rochester, que ainda cambaleiam com a partida de empresas importantes. "O Noroeste de Rochester era território da Kodak", disse Michael Coniff, diretor executivo dos Serviços de Reassentamento de Refugiados de Rochester. "Como comunidade, nós perdemos 50 mil empregos" com o declínio da fortuna da fabricante de filmes. O êxodo de moradores que se seguiu, entretanto, foi contido em parte pelos recém-chegados. "Logo, é algo muito positivo", ele disse.

Essa postura também é evidente em Buffalo, onde Brown estabeleceu um contato municipal com a crescente comunidade de imigrantes, e o impacto dos recém-chegados é imediatamente visível no West Side, um bairro de baixa renda separado do Canadá por um pedaço estreito do Lago Erie.

Há muito um ponto de partida para imigrantes, o bairro conta com mais de 500 casas antes vazias agora ocupadas por famílias de refugiados, segundo o deputado estadual Sean Ryan, um democrata que representa a área. Novas empresas refletem a nova diversidade: o West Side Bazaar, "uma incubadora de pequenos negócios internacionais" repleto de bancas de alimentos, tem bom movimento de negócios, assim como o mercado local que oferece hortifrútis e "transferência de dinheiro internacional". Um novo jornal local, "The Karibu News", é publicado em pelo menos seis línguas.

Apesar da ordem executiva (algo semelhante a uma medida provisória no Brasil) de Trump ter sido derrubada pelos tribunais federais, a turbulência que a cercou perturbou as comunidades de refugiados.

Dennis C. Walczyk, presidente-executivo das Caridades Católicas de Buffalo, disse que a ordem do presidente disseminou suspeita entre os recém-chegados. "Eles estão nos questionando", disse Walczyk, acrescentando: "Apesar de sermos todos agências independentes, não governamentais, sem fins lucrativos, parece que parte de nossa clientela faz uma conexão: 'Bem, você é um braço do governo'".

Grupos como o de Walczyk recebem um pagamento administrativo por seu trabalho de reassentamento dos recém-chegados (US$ 900 por pessoa) e a perda potencial de dinheiro é outro ponto de preocupação, apesar do assentamento de refugiados ter recomeçado. Alguns grupos de reassentamento por todo o Estado apertaram seus cintos, reduziram o quadro de funcionários, refletindo a ordem de imigração de Trump e o plano de seu governo de aceitar 50 mil refugiados neste ano fiscal federal, em vez da meta de 110 mil estabelecida pelo ex-presidente Barack Obama. (Um pequeno efeito positivo da ordem: os grupos dizem que as doações e o número de voluntários estão aumentando.)

Eva M. Hassett, diretora executiva do Instituto Internacional de Buffalo, outra agência de reassentamento, disse temer que as mudanças propostas pelo novo governo coloquem em risco a reputação de longa data da cidade de acolher recém-chegados, algo que remonta às ondas de imigrantes italianos, irlandeses e do Leste Europeu que seguiam os trens e canais na direção oeste, nos séculos 19 e 20.

"A maioria das cidades dos Grandes Lagos era ponto de entrada de imigrantes, porque historicamente havia empregos e eram comunidades de outros imigrantes", disse Hassett, cujo grupo data de 1918 e já foi responsável por fazer as "noivas de guerra" da Primeira Guerra Mundial se sentirem bem-vindas.

Hoje, o apelo da cidade para assentamento de refugiados permanece o mesmo. "Há trabalho", ela disse.

Hagstrom, o economista, disse não estar claro se esses trabalhadores estão retirando empregos de americanos, mas grande parte dos postos para refugiados são "empregos de entrada no mercado de trabalho", como trabalho em estufas, cozinhas ou lavanderias, com frequência substituindo gerações anteriores de imigrantes. "É um caminho batido", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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